Capítulo 5

Demorei longos segundos para entender o significado de suas palavras. Percebi que estava boquiaberta e tenho certeza que minha cara não estava das mais alegres.

— Como?

Ele apenas me fitou, aproximando-se em passos lentos.

— Você... — soltei uma risada, olhando por um momento para o parque — você quer que eu me afaste de Nathan. Que... eu... não fale com ele?

— Confia em mim. — Pediu num murmúrio.

— Eu conheci ele hoje. — Eu estava descreditando daquilo. — Começamos a conversar hoje, Derick. Quer dizer... Porque eu vi algo que obviamente não devia ter presenciado, você acha que tem algum direito de mandar e desmandar na minha vida?

Ele parou.

Levantei-me e peguei a mochila, jogando seu caderno com certa força em cima de onde estava sentada.

— Kiara.

Senti sua mão segurando meu braço.

— Você me trouxe aqui somente para isso, não é? Tentar ser gentil para ficar mais fácil o convencimento.

Eu estava me sentindo decepcionada.

Não acredito que chorei no colo desse cara.

Seu maxilar estava tenso e suas sobrancelhas franzidas.

— Kiara, me escuta. Eu...

— Eu só quero que responda Derick. — O interrompi.

O alarme soou.

— Foi! — Disse.

Sua voz quase foi abafada pelo barulho da sirene da escola que durou longos segundos, quase não chegando aos meus ouvidos. A respiração de Derick estava um tanto pesada, quase ofegante, e dava para ver a tensão em seu maxilar enquanto seu peito subia em longas respirações. Nos segundos que se passaram nós apenas nos encaramos.

— Foi, mas...

— É melhor eu ir — me virei pra ir embora, mas seu aperto se fechou em meu braço.

— Não, Kiara, eu não quis dizer isso. Não foi só por isso que eu te trouxe aqui. 

O olhei irritada.

— Quer saber? Você não tem esse direito. — Livrei-me de sua mão. — Não pode me dizer com quem devo e não devo conversar.

— Kiara, você...

— E sabe o quê mais? — Interrompi-o. — Pra me vigiar não precisa fingir ser meu amigo.

Os três degraus que davam para o terraço eram apenas borrões enquanto eu descia para ir a aula.

— Kiara. 

Voltei ao corredor e passei a descer a escadaria escura. Escutei mais barulhos de conversas, porém logo cessaram.

— Kiara, não seja infantil. — Sua voz ecoou pelo local.

Soltei um riso irônico e me meti no pequeno bolo de pessoas que passavam por ali, sem me preocupar se havia esbarrado em alguém ou não.

Estava com raiva. Ele não tinha o direito de me pedir uma coisa dessas. Ou tinha?

É claro que não.

Se ele tem alguma rixa com Nathan, eles resolvam.

Virei à direita para ir ao outro anexo para a aula que eu estava quase atrasada, sem ligar em quem eu esbarrava ou se pisava no pé de algum coitado enquanto brutalmente pedia licença enquanto apressava meus passos. Já fora do amontoado de gente, saí do anexo principal e segui a oeste.

Mas abruptamente parei ao sentir ser puxada e, logo em seguida, empurrada. Por alguns segundos tudo a minha volta girou. Com um baque e uma dor aguda nas costas, finalmente me vi parada.

Abri os olhos, fuzilando o causador daquilo tudo.

Sua camisa surpreendentemente estava amarrotada, ele me fitava com intensidade. Seu corpo estava a centímetros do meu e seus músculos estavam tensos sob a camisa. Sua pele clara estava corada e seus lábios entreabertos.

Eu estava encostada aos armários e Derick a minha frente. Seus cabelos ainda mais bagunçados e a respiração pesada.

— Está louco? — Tentei voltar ao meu caminho, porém ele agarrou meu braço e praticamente me jogou de volta, pondo seu braço para eu não tentar fugir.

— Não vire as costas para mim! — Bradou. Sua voz soou alta, assustando duas garotas que passavam por ali e logo apressaram os passos.

— Qual o seu problema? — Minha voz arranhou, resultado do choro de minutos atrás.

— Não. — Sua voz voltou a mesma altura de sempre, porém havia um toque de irritação. — A princesinha já fez sua cena e falou o que queria, mas agora você é quem vai me escutar.

Mantive a mesma expressão, apesar de suas poucas palavras terem me atingido.

— Eu prometi... — se deteve, sua risada saiu um tanto amarga — Não. Eu tenho que ficar de olho em você e é isso que eu vou fazer, você querendo ou não, entendeu? Eu sou obrigado a te manter longe de confusões. — Ele endireitou seu corpo e apontou para o nada com o braço esquerdo. — Merda Kiara, é apenas um cara.

— Então por que se irrita tanto com ele? Nathan quer ser meu amigo e você não tem o direito de...

— Eu sei — Interrompeu-me. — Você realmente acha que eu não sei disso, Kiara? Mas, acredita em mim, ele não quer ser seu amigo.

— Como assim? — Indaguei.

— Ele não presta! — Sua elevação repentina na voz me assustou. — Desculpa — ele abaixou a cabeça pra me encarar. — Não te levei lá em cima apenas para isso, se quer saber. Eu queria te mostrar a vista de lá e escolhi o momento errado para tocar nesse assunto.

Eu, calada, apenas suspirei e engoli em seco. Ele realmente falava sério? Sobre tudo?

— Eu não queria estar pedindo isso, Kiara — murmurou. — Eu não tenho o direito de te privar de fazer amizades, eu sei. Tem apenas uma semana que te conheço, não poderia te pedir isso. Mas... — ele encostou sua cabeça num armário perto de mim, seu rosto na altura de meu ombro e sua mão esquerda se posicionou em minha cintura. Podia sentir sua respiração bater em meu ouvido. — Por favor, ele não. Confia em mim. Pelo menos dessa vez.

Desvencilhei-me de seu braço e virei, ficando ao lado de seu corpo, um pouco mais afastada. Ele me observava de canto de olho.

— Seu cabelo está todo bagunçado. — Comentei, arrancando-lhe um sorriso. — Parece que estava se pegando com alguém lá em cima.

Ele se levantou, me fazendo erguer um pouco a cabeça para encará-lo.

— Não se esqueça de que eu estava com você.

Arregalei os olhos e tentei arrumar seus cabelos. Mas, enquanto ele me encarava — seu semblante sério —, perguntei-me se ele tinha esse tipo de contato com estranhos. Logo deduzi que não, já que a única pessoa que eu vi ele abraçado foi Tomás. 

Retirei minha mão encarando-o também, porém alguns fios voltaram a cobrir seus olhos e eu, rapidamente — e corada —, afastei-os, recebendo em resposta um singelo e rápido sorriso de Derick.

— Fará o que eu te pedi? — Perguntou me fitando, seus olhos castanhos brilhavam.

Puxei uma lufada de ar para tentar clarear as ideias e desviei os olhos por uns segundos, voltando a encará-lo quando ouvi seu suspiro.

— Por que as pessoas daqui são assim com relação a você?

— Boatos, eu acho. — Deu de ombros. — Nunca tentei descobrir exatamente o porquê.

Assenti.

— Temos aula — suspirei. — E estamos atrasados.

— Eu tenho que passar no meu armário. Vai na frente, eu te alcanço. — Falou, já distante.

Respirei fundo e abaixei para pegar minha mochila que havia caído no meio da discussão e vi que o caderno dele estava lá, a centímetros de onde estávamos, aberto em algumas páginas em branco.

Recolhi nossas coisas e retomei a passos lentos meu caminho para a aula. Tentei não pensar sobre o quê havíamos conversado nos poucos minutos em que andei sozinha — isso até Derick aparecer com um boné aba reta que estava virado para trás, prontificando-se a carregar minha mochila enquanto eu levava seu caderno.

O caminho foi feito num silêncio agradável e, assim que chegamos à porta da sala — já atraindo alguns olhares —, trocamos, cada um ficando com seu material.

Derick murmurou alguma coisa e passou na minha frente.

— O quê? – Sussurrei.

Quando minha visão foi liberada pude ver. O lugar de Derick estava vago e, logo atrás, a cadeira também estava vazia. Ele balançou a cabeça indicando a cadeira atrás da dele.

— Okay. — Murmurei, seguindo-o.

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