Capítulo 2
Os corredores estavam praticamente vazios, o que apenas ajudou na nossa correria.
— Vai mais devagar. — Pedi, enquanto tentava respirar normalmente.
Não me julguem, sou sedentária.
— Se não andarmos rápido, ficaremos fora da próxima aula. — Explicou, olhando para trás por um momento.
Em menos de um minuto subimos uma escadaria que havia no fim de um dos corredores que viramos e seguimos até o fim de outro, depois passamos por uma espécie de passarela que dava para outro prédio.
— Chegamos. — Suspirou.
Beatriz ia abrir a porta, mas tratei de entrar na frente, barrando sua entrada.
— Se entrar vai se atrasar para a próxima aula. Você já me ajudou bastante. — Ela assentiu, ainda ofegante por causa da correria. — Obrigada por me trazer.
Fui surpreendida por um abraço que não deu tempo de eu retribuir.
— A gente se vê por aí.
Tão rápido quanto o abraço que me deu, Beatriz sumiu do meu campo de visão.
Respirei fundo e entrei na biblioteca.
Ela tinha o típico cheiro de livro velho. logo na frente, tinham algumas mesas redondas grandes e atrás delas, algumas prateleiras. Dava para ver que atrás delas havia mais mesas.
No canto havia um balcão e atrás uma moça que estava sentada, concentrada demais com sua leitura para ter notado minha entrada.
— Oi? — Minha garganta arranhou e a voz saiu aguda demais. Pigarreei.
Ela era bonita e a roupa extremamente séria combinava com ela, por incrível que pareça.
— Oh... Sim? Em que posso ajudá-la? — Ela sorriu.
— Eu... Hmm... Os livros das aulas de hoje. — Meu murmuro ecoou pelo local escuro.
— Qual sua matrícula? — Indagou.
— Hmm... — Busquei o papel com as orientações na minha mochila. — Quinze, zero, oito, dez.
Ela apertou as teclas do teclado e virou-se para uma estante que havia atrás dela e pegou cinco livros: história, português, biologia, matemática e física.
— Prontinho. — A bibliotecária sorriu.
— Obrigada.
Conforme eu descia as escadas os livros ganhavam mais peso em meus braços, mas eu tinha que tentar chegar na sala a tempo.
Agradeci não ter guardado pego o papel na mochila novamente, pois no meio do caminho já não lembrava qual era minha próxima aula e nem qual a sala.
Finalmente lá, parei em frente à porta e tentei equilibrar todo aquele peso. Mas então, uma mão passou pela minha cabeça e bateu.
Surpreendida, olhei pra trás e vi o garoto que me pegou espiando.
Mais surpreendida com o braço dele aparecendo ao meu lado, fiquei com sua cara quando me viu.
Nada, era isso que ele demonstrava. Assim como quando me fitou pela janela. Eu esperava uma cara de surpresa ou até deboche por ter me flagrado naquela situação. Mas não avia nada. A única coisa que que ele fez foi erguer levemente uma sobrancelha, mas não consegui reconhecer o que aquilo significava.
A porta rangendo à minha frente me lembrou que é feio ficar encarando as pessoas daquele jeito.
— Estão dez minutos atrasados. — A voz da professora amarga. Tinha um pouco de irritação e repreensão nela.
Ela olhou para os livros em meus braços e depois para mim por cima dos óculos.
— Ahm... — fiz um movimento com a pilha de livros que começava a machucar meus braços — fui pegar os livros.
A senhora ergueu o queixo e olhou por sobre minha cabeça.
— E o senhor?
— Cristine mandou me chamar. — Por incrível que pareça, ao ouvi-lo falando imaginei um iceberg. A senhora a nossa frente fez uma careta de descontentamento.
— Entrem. — A professora finalmente nos deu passagem.
Meu olhos foram direto para a cadeira ao lado da janela e apressei-me em jogar os livros e minha mochila lá.
A sala estava estranhamente silenciosa, notei. Os únicos barulhos que escutava eram os de folhas e passos — dois tipos diferentes.
Retirei meu caderno e caneta da mochila e tirei o livro de história da pilha. Ergui a cabeça e o vi parado ao meu lado. Ele soltou um riso irônico e sentou-se na carteira vazia na fileira ao lado da minha.
— Bom, vamos continuar. — A voz da professora chamou a atenção de todos.
A aula seguiu normalmente. O assunto dado na aula eu havia começado a estudar na minha antiga escola, mas não terminei. Então, tive o que anotar daquela aula.
O sinal tocou e, como num passe de mágica, Beatriz apareceu ao meu lado.
— Garota, você é maluca! — Gargalhou.
— Por quê? — Perguntei.
Notei que o garoto me encarou quando se levantou para ir embora — com apenas o caderno em mãos. Beatriz espiou por sobre os ombros.
— Vamos ou iremos nos atrasar para a próxima aula. — Ela pegou os três livros mais finos da pilha. — Eu levo esses.
Dessa vez não fomos tão rápido quanto na ocasião da biblioteca.
— Aquele é o lugar de Derick. Bom, mais ou menos. Ele sempre senta na janela e quase ninguém senta no lugar dele. Os que fazem isso, saem quando ele chega. — Informou.
Partimos por um corredor passando para outro prédio com acesso de uma passarela a sudoeste.
Esse lugar parece um labirinto.
— Eu não sabia que aqui tem esse negócio de lugar marcado. — Murmurei.
— E não tem. — Ela abaixou a voz quando passamos por um grupo de rapazes. — Sentamos em qualquer lugar, menos quando eles estão na aula.
Eles...
— Até chovendo?
— Não importa se está chovendo ou não. Ninguém é doido de tentar arranjar confusão com eles. — Afirmou.
— Mas porque apenas com eles isso? — Indaguei.
— Ahm... As pessoas têm certo medo do Derick. — Viramos outro corredor à esquerda. — Não sei o porquê, mas tem.
Finalmente entramos na sala da próxima aula. Ela ainda estava praticamente vazia e dessa vez havia duas janelas.
Dirigi-me ao lugar perto da primeira janela e joguei meus livros na mesinha. Mesmo percebendo o olhar de repreensão de Beatriz, sentei e tratei de tirar meu caderno e estojo da mochila. Eu não ia esperar ver se alguém ia aparecer para ocupar a cadeira para depois sentar nela. Essas birras de escola nunca me atingiram, não seria ali uma exceção.
Tomada por uma teimosia que eu não reconhecia, tirei meus fones de ouvido e comecei a ouvir uma música aleatória enquanto rabiscava no caderno. Mesmo de cabeça baixa, vi quando aquele garoto novamente parou do meu lado, provavelmente deu aquele sorriso da última aula e seguiu para os fundos da sala.
Qual o problema desse garoto? Ele está me provocando por ter me pegado espiando?
Eu estava me sentindo envergonhada. Não gostava de me sentir observada e com ele fazendo aquilo, minha mente paranoica trabalhava a mil.
A aula teria sido produtiva se eu estivesse concentrada no que o professor de matemática falava. Meu livro ficou aberto na página errada e eu sequer copiei o assunto. Passei o período todo olhando para a janela, tentando me convencer de que ele não estava me encarando.
— Você tem algum problema. — Como na aula anterior, Beatriz apareceu do nada, mas dessa vez eu me assustei. — Desculpe.
Me mantive calada e a segui até a próxima aula. Era no mesmo prédio, o que facilitou a minha questão do peso dos livros.
Mas fui surpreendida com o lugar da janela ocupado pelo ele.
O quê?
— Ele que é Derick? — Perguntei à loira com quem caminhei para os dois últimos lugares da fileira, imaginando o quão ferrada eu poderia estar.
—Ainda não tinha se tocado?
— Estou um pouco lenta hoje. — Murmurei.
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