Capítulo 1
Eu sempre soube que mudanças são difíceis, mas necessárias.
Depois da morte do meu pai, muita coisa mudou na minha vida. Primeiro, eu tive que aprender a lidar com o luto, depois me toquei que eu nem minha mãe seríamos mais as mesmas depois do que aconteceu. E, por último, eu não conseguia ser mais a mesma...
Eu nunca consegui lidar muito bem com meus sentimentos. É sufocante ter que lidar com "tudo", mesmo nada acontecendo. Por isso, pensei que alguma mudança na minha vida me faria bem. E foi assim que decidi mudar de escola.
A antiga estava me sufocando. Todos me perguntavam como eu estava me sentindo naquele dia e eu não conseguia responder. Não porque eu não sabia o que estava sentindo, mas porque eu não queria desabar.
Eu não podia desabar.
Depois que cai, se reerguer é difícil e, geralmente, solitário.
Fora minha mãe, o único apoio que eu tinha era Vitor, um amigo que fiz ainda no ensino fundamental. Ele era do tipo que escutava, mas não forçava. Por isso que ele me apoiou quando comentei sobre mudar de escola.
Respirei fundo pelo que parecia ser a décima vez num período de cinco minutos e ajustei a mochila nas minhas costas.
Eu não sabia porque estava nervosa. Afinal, eu tinha escolhido aquilo.
— Ei, garota. Você é nova aqui, não é? — O senhor era meio corcunda e ele me olhava com certa desconfiança. Os anos e má postura tornaram-no mais baixo que já era e a barba grande e cabelo desgrenhado não ajudavam em sua aparência.
— Sim senhor. — Minha voz arranhou e foi para um sussurro. Pigarreei.
O senhor franziu a testa e balançou a cabeça, fazendo um gesto de mão como quem dispensa alguém,
— Tem quinze dias para comprar o uniforme. — Comunicou, finalmente me liberando.
Mesmo sendo empurrada e pisoteando o pé de algumas pessoas em meio àquele corredor visivelmente pequeno para a demanda de alunos, consegui chegar à sala da minha primeira aula.
Minha primeira turma.
Encontrar a sala vazia assim que cheguei não foi uma surpresa. Estava cedo para o início da aula, mas eu queria pegar um lugar que não chamasse muita atenção.
Meus olhos percorreram a sala toda. Diferente na minha antiga escola, não havia cartazes nas paredes. Era apenas cinza...
As paredes eram cinza claro, com alguns detalhes em branco. As cadeiras e mesas, também cinza, num tom mais escuro. Os detalhes em marrom nos móveis data um toque mais escuro. Em uma das paredes, a que ficava em frente às cadeiras, ela coberta por um quadro negro e um branco dividindo o espaço igualmente. E ao fundo, na parede do fundo, uma grande pintura com o brasão da escola. O brasão estava pintado na cor preta tinha um pássaro - o que parecia ser uma águia - branca com várias tonalidades de cinza. Em baixo, as Siglas "IPEM".
Percorri o local, procurando algum que não chamasse tanta atenção, mas nenhuma dos lugares pareciam bom o suficiente, isso porque havia duas portar no local, então as pessoas poderia entrar por qualquer uma delas. Por fim, desisti quando a primeira pessoa apareceu e me olhou estranho e sentei no quarto assento da fileira encostada na parede que dava para a rua, bem em frente à janela.
Conforme as pessoas chegavam, eu recebia vários tipos de olhares: curiosos, de repreensão e até de pena.
Qual o problema deles?
Tomada pela vergonha, abaixei a cabeça e comecei a rabiscar em meu caderno.
Os minutos passaram e finalmente a primeira aula começou. Quem entrou foi uma senhora rechonchuda e baixinha.
Claramente professora de humanas.
— Bom dia. — Seus saltos faziam um toc toc rápido conforme ela andava. Com um baque, que ecoou pela sala chamando atenção dos que estavam conversando, a professora depositou sua pilha de livros na mesa. — Ora, — ela finalmente me notou — aluna nova? — Assenti. — Qual seu nome? — A pergunta veio acompanhada de um singelo sorriso. Ela se aproximou e começou a falar baixo.
— Kiara. — Minha voz saiu um murmúrio quase inaudível.
— Oh... Lindo nome. — Ela sorriu para mim e eu tentei sorrir para ela também, o que findou um repuxar de lábios e aceno de cabeça. — Para não se atrasar muito, sugiro que pegue o caderno de alguém e copie os assuntos da unidade. Começamos ela há pouco, então não será muito, okay? — A única resposta que ela obteve foi um pequeno e rápido balançar de cabeça. — Perfeito. Bem vinda e cuidado. — Ditas essas palavras, sem mais sorrisos de boas vindas, a professora adiantou-se em ir para o quadro.
O assunto era fácil e eu já o havia estudado, o que deixou a aula um tanto chata, apesar de ser exatas. Então passei a aula olhando janela à fora.
Observei uns três alunos correndo pela calçada a leste — deviam estar atrasados. Dois deles conseguiram entrar, mas o terceiro que chegou dois minutos depois teve que voltar para casa.
Vi também uma turma na aula de educação física. As meninas ficaram na quadra e os meninos foram para o campo e se dividiram em dois times: os time cinza e os descamisados
E vi três caras conversando embaixo de uma árvore, perto de onde eu estava e tive a impressão que eles estavam fumando. Se não fosse pelo uniforme, acharia que eles queriam assaltar a escola.
Que preconceito, Kiara. Pensei, balançando levemente a cabeça, surpresa com meu próprio pensamento.
Eles estavam muito tensos, olhavam para os lados constantemente — certamente checando se não havia ninguém ouvindo — e aparentavam falar baixo.
Dois deles estavam de costas para mim, ambos com boné aba reta, — um deles na cor preta com a aba virada para trás e o outro era vermelho. O uniforme era em um cinza, quase preto, com detalhes em banco. Ambos usavam jeans azul escuro tênis em cores chamativas.
E tinha outro que estava encostado à árvore.
Esse usava um uniforme numa modelagem diferente dos outros. O que parecia ser um modelo long line branco com um pequeno detalhe preto, uma calça preta e um coturno. Seu cordão chamava a atenção, porém não conseguia ver se havia um pingente, e seu cabelo pareceu ter sido cuidadosamente penteado.
Então, o que estava encostado à árvore ergueu a cabeça, seu olhar passou por mim e depois retornou, me encarando.
Já fui pega olhando por fora da janela, se eu simplesmente virasse a cara estaria me denunciando. Procurei um lugar que eu pudesse olhar sem ter que virar o rosto. Pelo menos assim daria a ilusão de que eu não estava observando eles.
Um pouco atrás deles vi vários alunos entrarem pelo mesmo portão que a minutos atrás o garoto não pôde entrar.
Apesar de estar olhando as pessoas entrarem, continuei com a impressão de estar sendo observada.
Maravilha...
O barulho do sinal avisando sobre a próxima aula me assustou e eu acabei dando um pulo na cadeira.
— Kiara? — A mesma voz que me chamou no início da aula voltou a dirigir-se a mim.
— Sim?
— Para não ter dificuldades na aula, sugiro que vá à biblioteca e pegue os livros didáticos. Pelo menos os das aulas de hoje, sim? — Outro sorriso gentil. Ela é uma boa professora.
— Tudo bem. — Retribuí seu sorriso. — Onde fica a biblioteca?
— Você sobe as escadas e vira a esquerda no fim do corredor. Depois vo... — ela parou quando viu a careta que se formou em meu rosto. — Bom, será um pouco complicado pra você ir sozinha. Espere um pouco. — Ela deu uma rápida olhada nos alunos que ainda estavam lá. — Beatriz. Beatriz! — A vontade de rir ao ver ela dando pequenos pulos foi enorme, mas me contive.
Uma garota alta e loira virou-se, sua franja quase cobrindo os olhos. Seu sorriso vacilou um pouco mas, mesmo com a postura tão impecável quanto a de uma bailarina, aproximou-se.
— Sim? — Sua voz era um pouco irritante, notei.
— Quero que leve Kiara até a biblioteca. — Ordenou. — Ela é nova, não sabe onde ficam as coisas por aqui. Tudo bem?
— Claro. — A tal da Beatriz sorriu. — Vamos, Kiara?
— Sim.
Levantei guardando meu caderno — novo e ainda em branco — e joguei a mochila por sobre os ombros. Inesperadamente, a garota loira entrelaçou seu braço ao meu.
— Kiara?
— Sim? — Voltei-me para a gentil professora.
— Meu nome é Odete. Prazer em conhecê-la.
Sorri.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top