Rosa Vermelha
Chateada com o rumo inesperado que seus planos tinham tomado naquela manhã, Natasha passou na vídeo locadora a caminho de casa e alugou seu filme favorito, que já tinha assistido várias vezes e reassistia sempre que se sentia de mal humor, como era o caso.
Depois de fazer uma bacia de pipoca e ligar o vídeo cassete para assistir a fita VHS de romance musical que alugara, Natasha se acomodou no sofá. Paulo Júnior estava esparramado, obrigando-a a sentar no cantinho que restara.
Sua mãe e Paulo, seu padrasto, estavam no trabalho e ela cuidava do irmão de doze anos, que adorava estressa-la quando não havia adultos por perto, até que eles chegassem.
— Sente como uma criança bem educada — exigiu encarando o caçula com o que esperava fosse uma expressão dura.
Fazendo careta de pouco caso, Júnior devolveu o olhar com despreocupação.
— Sento como quiser.
Fulminando o irmão com os olhos, segurou o impulso de estrangula-lo.
— Seu pestinha.
— Pica-pau desbotado — ele retrucou rindo.
Estava prestes a puxar o irmão pela orelha, quando a campainha tocou. Irritada foi atender e ao abrir a porta se deparou com William segurando uma rosa vermelha em uma mão e o caderno na outra.
— O que você quer? — perguntou irritada.
— Que memória ruivinha. — William riu e inclinou a rosa tocando o nariz de Naty com ela. — Se esqueceu da nossa aula?
Recuando incomodada com a brincadeira e sentindo-se idiota por não ter cancelado o compromisso, resolveu dispensar o Silveira.
— Me desculpe, tenho de cuidar do meu irmãozinho, podemos marcar na biblioteca amanhã. — Era evidente que desejava escapar daquela missão que só aceitara pelo projeto. Ficar presa a William era a última coisa que queria naquele dia, em qualquer dia.
Tentou fechar a porta, mas William impediu colocando o pé na abertura e entrando sem permissão na casa.
— Não estamos tendo um bom começo — William disse sorrindo.
Furiosa com a petulância do Silveira, Natasha abriu totalmente a porta e o encarou nervosa.
— Quer fazer o favor de ir embora? Amanhã dou a maldita aula que quiser.
— Temos que começar nosso relacionamento brigando? — Novamente, tocou de leve o rosto de Natasha com a rosa. — Colabore ruivinha.
Estranhando o comportamento de William, Natasha se afastou sentindo o coração aos pulos. Era fácil lidar com o irritante William, mas difícil de ficar perto do garoto que a muito se perdera em suas lembranças da infância.
— Quem é Natasha? — Paulo se virou no sofá e olhou para William surpreso. — O que ele faz aqui?
— Nada — Natasha respondeu nervosa.
— Vim ver sua irmã — William disse ao mesmo tempo.
Como impulsionado por uma mola, Paulo correu para perto de William, a quem admirava por fazer parte do famoso time de basquete da escola.
— Ver a Natasha para o que?
— Primeiro para lhe dar isso em sinal de paz. — Estendeu a rosa vermelha para Natasha, que encarou a flor como se temesse que algum bicho saísse dela. — E segundo, para estudarmos.
Com um muxoxo Natasha pegou a rosa, voltou para o sofá e, depois de jogar a flor na mesinha de centro, sentou de braços cruzados, olhando para o trailer que passava.
— Paulo, diga a esse idiota que ele tem de ir embora.
Com um sorriso de deboche William olhou de Natasha para Paulo. Diferente da irmã, o garoto tinha cabelo e olhos pretos. Paulo era uma criança ativa e não escondia de ninguém seu desejo de fazer parte do time de basquete, fazendo com que William enxergasse nele um aliado.
— O que estão assistindo? — perguntou para Paulo.
— O romance favorito dela — disse o menino com uma careta, cansado de ver aquele filme bobo de garota.
— Hum! Meu gênero favorito — mentiu, preferia filmes de ação.
— Vem assistir com a gente. — Paulo o puxou pela manga da camiseta.
Natasha encarou o irmão com raiva, mas não fez nada para impedir William de se sentar ao seu lado. Seria perda de tempo e esforço. Suspirou conformada, decidindo que o melhor era fingir que William não estava ali e aproveitar o filme.
Depois de alguns minutos, Natasha percebeu que era mais fácil pensar do que fazer. Logo no começo do filme William dormiu e encostou a cabeça em seu ombro. Prendendo a respiração, Natasha olhou alarmada para o Silveira.
— William! — chamou para acorda-lo, mas ele sequer se moveu.
Tentou mais três vezes sem sucesso. Constrangida com a invasão de seu espaço pessoal, Natasha empurrou William para longe de si com força, o que fez com que ele batesse a cabeça contra a de Paulo.
— Droga! — William gritou ao acordar. — Tá maluca? Sei que me odeia, mas não precisa partir para a agressão do nada.
— Isso doeu. — Paulo tinha os olhos lacrimejantes e esfregava a cabeça.
— Desculpe-me, não queria machuca-lo — explicou para Paulo, se apressando a impedir que o irmão desejasse se vingar pelo incidente, contando aos pais uma versão aumentada dos fatos. — A culpa é do William.
— Minha?! — O Silveira a encarou como se ela tivesse enlouquecido.
— Você se jogou contra mim.
William riu sarcástico.
— Você só não é mais maluca por falta de espaço. — Se levantou irritado. — Vou embora antes que seja contagiado — disse andando até a porta.
Natasha se apressou a abrir a porta, zangada com William.
— Por mim você nem teria entrado.
— Sabe qual é o seu problema? — William sorriu com maldade ao completar. — Loucura e frustração.
— Ah, seu... — Sem pensar Natasha o socou com toda força no olho e o empurrou para fora. — Nunca mais insinue que sou louca, frustrada e, principalmente, não se aproxime de mim.
Fechou a porta com força e, zangada demais para voltar a assistir o filme, subiu para seu quarto, o trancando ao sentir as primeiras lágrimas se formarem.
Andou até o espelho e se olhou. Seu rosto estava coberto de lágrimas, turvando sua visão e tornando a imagem no espelho difusa. Pouco importava que seu futuro dependesse do monitoramento, informaria Eleni que não auxiliaria William em nada.
~
Arrependido do que dissera para Natasha, William chutou uma pedra com força. Tinha sido grosseiro, mas a culpa era dela que sempre fazia questão de tira-lo do sério.
Lembrando a reação exagerada de Natasha ao que dissera, William levou a mão ao olho dolorido, com certeza ficaria com uma constrangedora marca arroxeada.
— Baixinha forte — comentou. — Conquistar a fera vai ser mais difícil do que imaginei. — Suspirou cansado. — E não foi nada inteligente chamá-la de frustrada.
— Falando sozinho, William?
Se virando, William cumprimentou Fernando.
— Acabei de insultar a Natasha — William explicou revoltado consigo. — Em vez de conquistar estou enfurecendo ainda mais a fera.
— Você continua com essa ideia idiota? — Fernando não escondeu sua revolta. — William, ouça a voz da razão, termine logo com essa aposta antes que algo mais grave aconteça.
— Deixe de ser um pessimista. — Bateu de leve no ombro do amigo. — Tudo vai dar certo, você vai ver — garantiu com uma confiança que estava longe de sentir.
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