⊱Vinte⊰
𝓥oltamos à mesa pouco tempo depois.
Bárbara bebia seu champanhe com um olhar distante. Lavínia estava mais feliz do que nunca. Ela havia gostado de mim, agora ela implorava por meus braços. A coloquei e imitei o som de um avião enquanto dava voltas com ela apoiada nos meus braços, até que finalmente cansei e a coloquei no chão, enquanto ela pulava me pedindo por mais. Ficava impressionado coma energia sem fim que as crianças exalavam. Queria ter tido um pouco daquilo na época em que fiz faculdade de administração.
Henrique e eu sentamos na mesa, enquanto Lavínia pedia para sentar no meu colo. Eu estava empolgado com o fato da filha de Henrique ter gostado de mim. Olhei para ele com um sorriso e ele devolveu o gesto em seguida. Peguei ela em meu colo, colocando-a sobre as minhas coxas virada na minha direção.
― Acho que ela gostou de você! ― disse ele com um sorriso de ponta a ponta no rosto.
― Parece que sim! ― falei com o olhar concentrado inteiramente em Lavínia que tocou a ponta do meu nariz com o seu pequenino dedo indicador, enquanto eu olhava para a ponta do meu nariz, ficando zarolho e arrancando uma risada de Lavínia.
De repente a noiva se aproximou da mesa com um sorriso aberto e o seu noivo estava ao seu lado jubilante. Henrique levantou-se imediatamente para cumprimentar a sua irmã, que estava ainda mais linda do que na foto que eu havia visto no quarto de Henrique. Agora podia ver que estava diante das pessoas que vira na foto. Henrique, Hannah e Lavínia, a pequena que estava entre Henrique e Hannah na foto que eu vira.
Henrique abraçou sua irmã que não parava de sorrir nenhum instante, depois abraçou o seu noivo, dando-lhe os parabéns. Hannah também cumprimentou Bárbara que estava mais próxima, depois se aproximou de mim, dando uma atenção especial para a pequena Lavínia que estava no meu colo.
― Oi Lavínia! ― disse ela com a voz falseteada.
― Oi! ― ela respondeu sem olhar para Hannah, completamente focada em remexer a minha gravata slim. Eu não me importava de maneira alguma com o gesto da pequena.
― Quem é esse homem que está segurando você? ― falou ela piscando para mim bastante simpática.
― É o titio Andlé! ― disse ela caindo sua cabeça sobre meu peito olhando para sua tia legítima por fim.
― Oi Andlé! ― disse ela rindo e eu fiz o mesmo.
― Oi! ― respondi fazendo um aceno com a mão. ― Parabéns pelo casamento!
― Obrigada! ― agradeceu. ― Posso roubar a Lavínia um pouquinho de você?
― Claro!
― Lavínia você quer vir com a titia?
― Não! ― respondeu ela num tom travesso escondendo a cara com as mãos, dando uma gargalhada.
― Não? ― perguntou ela interpretando estar estupefata. ― Henrique sua filha está me rejeitando!
Henrique se aproximou rindo.
― Ela gostou do André!
― Eu percebi! ― disse ela rindo e balançando a cabeça, depois voltando o seu olhar para mim. ― Será que eu posso falar um minutinho com você André?
Olhei para Henrique que deu de ombros discretamente, enquanto ainda sorria com a boa energia que Hannah havia trazido até ali com a sua presença ilustre. Não poderia dizer não, apesar de sentir um arrepio me percorrer quando ela falou "posso falar com você um minutinho", mesmo que o seu tom não tenha sido ameaçador e sim pacífico. Concordei com a cabeça por fim focando no rosto dela que ainda mantinha o mesmo sorriso aberto vinte e quatro horas possíveis.
― Tudo bem!
― Ótimo!
― Vem com o papai Lavínia, vamos tirar umas fotos com o tio Lúcio? ― ele a tirou dos meus braços finalmente colocando-a no chão, enquanto se afastava de mãos dadas com ela.
― Bem, vamos? ― indagou Hannah com a mão estendida para mim para que eu a pegasse.
― Para onde?
― Vem, você vai ver! ― ela pegou a minha mão e me puxou para uma caminhada.
Ela cruzou o seu braço ao meu e aquilo me fez sentir desconfortável. Talvez fosse um dom da família Honorato me deixar desconfortável. Hannah achava que eu era gay, por esse motivo tomou tanta liberdade comigo logo de cara. Ela não sabia que eu já havia namorado mulheres e que o namoro entre seu irmão e eu era puramente de fachada para irritar os pais dela e o resto dos preconceituosos presentes na festa, que não eram tão evidentes como os pais de Henrique.
― Este lugar é muito bonito! ― disse enquanto nos afastávamos cada vez mais da festa.
― É mesmo! ― confessou ela. ― É um verdadeiro lugar onde os contos de fadas se realizam!
― Eu pensei exatamente isso! ― revelei e ela riu, enquanto continuávamos caminhando pela estrada de pedra sob a luz do luar e das estrelas.
― Sabe André, meu irmão parece bem feliz com você!
― Que bom! ― falei soltando uma risadinha nervosa.
Ela parou e ficou de frente para mim.
― Eu falo sério! ― disse ela. ― Eu nunca o tinha visto tão feliz assim em toda a sua vida!
Não respondi nada, apenas a fitei sorrindo nervoso. Não havia o que falar. Era tudo fachada. Eu estava transando com Henrique por dinheiro. Isso não era algo que eu chamaria exatamente de real.
― Dá para ver o jeito como ele te olha! ― explicou ela.
Era apenas fachada repetia na minha cabeça, mas não podia falar aquilo em voz alta.
― Sabe, ele passou quatro anos vivendo ao lado de uma mulher que ele não amava, escondendo quem era porque não teve coragem de falar. Dava para ver no semblante dele que ele não estava feliz com a vida que levava, juntando seus sentimentos, carregando um fardo sozinho de ser gay!
― Isso é tão triste! ― disse imaginando viver quatro anos completamente infeliz ao lado de uma pessoa que eu não amava. Deve ter sido muito duro para Henrique viver daquele jeito.
― Bem, não foi fácil descobrir que ele era gay. Henrique era muito reservado e mesmo nós dois sendo muito próximos ele não sentia segurança suficiente para me contar o que estava acontecendo com medo de eu pensar da mesma forma que os meus pais, afinal de contas quase nunca falávamos sobre isso lá em casa, portanto era difícil saber o que eu pensava.
― E como você acabou descobrindo isso?
― Bem, ele cometeu o erro de deixar o netbook dele aberto numa página de porno gay certo dia, aí eu acabei descobrindo tudo!
― Ah tá e o que você fez?
― Eu fechei o notebook e fui até ele para lhe contar que eu havia descoberto. Ele implorou para eu não contar para o papai e a mamãe sem me dar a chance de me explicar. Só quando ele calou a boca foi que eu consegui dizer que o apoiava em qualquer que fosse a sua orientação sexual, mas já era tarde demais. Ele já estava casado com a Bárbara e meses depois as coisas se complicaram quando ela engravidou da Lavínia. Ele não poderia abandonar uma mulher grávida.
― Minha nossa!
― Pois é André. Não foi fácil o caminho da autoaceitação de Henrique, mas graças a Deus ele está livre agora e com você!
Concordei com um gesto de cabeça soltando outro sorrisinho nervoso.
― O divórcio dele foi bem recente! ― revelou Hannah. ― Lavínia não sabe de nada. Ela não tem capacidade ainda de entender tudo isso. Vamos preservar a infância dela cor de rosa o máximo que der!
― Entendo!
― Sabe, você foi o primeiro namorado que ele teve na vida inteira!
― É sério? ― interpelei incrédulo.
― É. Ele passou a adolescência toda se reprimindo até que casou com a Bárbara para provar o sabor do morango, mas não conseguiu largar da banana!
Dei uma risada. Agora eu entendia porque ele estava tão desesperado para trepar comigo no nosso primeiro encontro. Ele queria tirar todos os atrasados possíveis de uma vida. Toda a fantasia que não havia realizado com outro cara ele queria realizar comigo. Por isso me fez aquela proposta. Por isso estava tão disposto a me penetrar. Por isso me pagou por tudo aquilo.
― Tudo o que eu quero André, é que você faça o meu irmão muito feliz! ― disse ela pegando a minha mão. ― Você me promete?
Fiz que sim com a cabeça. De certa forma fazia o irmão dela muito feliz. Na cama. Contudo, não podia fazê-lo feliz na sua vida. Eu não amava Henrique da forma que ela achava. Eu gostava dele como um amigo que ele se revelara nas últimas semanas para mim. Como a promessa de uma meia verdade eu falei por fim:
― Prometo!
***
Voltamos para a mesa e lá estava Henrique com a sua filha sentado, Bárbara, Lúcio e a mãe de Henrique, que conversava com eles aparentemente feliz. Com o braço cruzado ao meu Hannah se aproximou de todos sorrindo. Talvez o rodo frouxo fosse algo de família como eu havia percebido naquela festa de casamento. Lúcio se levantou do lugar que eu ocupava ao lado de Henrique para que eu voltasse a ficar ali, já que a mãe de Henrique sentava ao lado de Bárbara segurando uma taça de champanhe na mão direita.
― Bem, vou cumprimentar os outros convidados, aproveitem a festa! ― disse Hannah entrelaçando os dedos nos do seu marido e acenando enquanto se afastava. Todos fizeram o mesmo.
― Olha amor, guardei algunss aperitivos para você!
― Obrigado meu amor! ― disse sorrindo e olhando em direção à mãe de Henrique que não olhava para mim, apenas para Bárbara.
Comi três docinhos que eu estavam no prato com a mão, enquanto olhava para Henrique que piscou para mim satisfeito com a minha interpretação diante da sua mãe.
― Bem, Henrique, sua mãe e eu estávamos aqui discutindo que você deveria ir ver mais a Lavínia de apenas nos fins de semana para todos os dias, afinal de contas ter um pai presente ajuda na atividade comportamental da criança!
― Você sabe que por mim eu estaria todos os dias com a minha filha, mas na semana tem o trabalho e tudo o que eu quero é chegar em casa e descansar, mas se precisar de alguma coisa no meio da semana sabe que pode me ligar e eu irei vê-la imediatamente.
― Bem, eu estava pensando em começar a dormir na sua casa para deixar a Lavínia mais tempo perto de você!
― Não! ― exclamou Henrique imediatamente. ― Isso não pode ser!
Imaginei que aquilo se daria pelo fato de que não queria ser pego na mentira de que ele e eu não estávamos namorando de verdade. Quando aceitasse isso, eu não estaria dormindo na sua casa, portanto começaria a levantar suspeitas até descobrirem que eu era apenas o seu putinho que deitou-se apenas duas vezes com ele e que ele pagara para fazer tudo o que fizemos. Seria um desastre total e naquilo eu concordava plenamente com ele.
― Por que não? ― questionou a mãe de Henrique estupefata. ― Não quer ficar com a sua filha?
― Quero, mas não desse jeito! ― disse Henrique. ― A semana é muito corrida e além do mais tenho o final de semana inteiro para doar para ela!
― Receio que não tenha tanta indisposição para esse aí! ― afinetou a mãe de Henrique com certo desprezo nas suas palavras.
― Mamãe! ― interveio Henrique a repreendendo. ― Não fale assim do meu namorado. Ele não é esse aí. Ele tem nome.
― Não Henrique, está tudo bem! ― tentei apaziguar os ânimos, procurando não tomar para mim aquelas palavras de ofensa.
― Viu só? ― disse a mãe de Henrique com um riso soberbado. ― Até o seu namorado conhece o lugar dele!
― Isso foi a gota d'água! ― vociferou Henrique entregando Lavínia que começou a chorar imediatamente para a mãe, que tentou acalentá-la, mas a menina estava inconsolável.
― Viu só o que você fez? ― brigou a mãe de Henrique passando a mão pela cabeça da neta que ainda chorava com o susto que levara.
― É que você me tira do sério mãe. Eu vim aqui hoje de bom grado para prestigiar a minha irmã e você vem ofender o André. O que esperava que eu fosse fazer?
― Virar um homem e orgulhar a sua família!
― Que se foda essa sua família de aparências! ― proferiu ele. ― Eu sou o que sou e nem você e nem ninguém vai mudar isso!
― Eu não pedi para ter um filho gay!
― E eu não pedi para ter uma mãe mais focada no que os outros pensam de uma maneira que sacrifica até a felicidade do filho para agradar todo mundo!
― Henrique, não fale assim comigo. Eu sou a sua mãe!
― Você é uma mentira. Mãe é aquela que dá amor e não julgamentos!
― Se você virasse homem, não ia precisar ser assim!
― Eu nunca deixei de ser homem. Eu sou homem. Um homem que gosta de outro homem. Que problema há nisso?
― Família é um homem, uma mulher e uma criança, não dois homens ou duas mulheres!
― Sabe de uma coisa? Eu cansei de ter essa discussão com você. Não quero mais estragar o casamento da minha irmã, acho que já foi barraco suficiente por hoje. Vamos André, acho que não foi uma boa ideia vir até aqui.
Ele levantou-se fazendo com que eu levantasse também. Ele saiu sem olhar para trás enquanto eu o seguia caminho abaixo para longe da festa. Olhei uma última vez para trás e pude ver o movimento que se fez enquanto a mãe de Henrique ficava na companhia de Bárbara que ainda tentava acalentar a sua criança.
Os passos de Henrique eram irritados e apressados. Ele batia o pé no chão enquanto andava. Tive que correr para alcançá-lo. Toquei o seu ombro o fazendo parar por um instante. Suas mãos estavam semicerradas ao lado do corpo como se estivesse prestes a socar alguém. Imaginava a raiva que poderia estar sentindo naquele momento. Tinha o mesmo tipo de surto quando discutia com os meus pais extremamente babacas.
― Relaxa! ― disse fazendo desfazer o punho cerrado e segurar a minha mão. ― Não deixe que aquelas palavras te consumam.
― É só que às vezes ela me irrita muito!
― Eu sei. Sentia a mesma coisa quando discutia com os meus pais. Não vale a pena. Respira fundo.
Ele inspirou e expirou enquanto eu o ajudava com aquilo.
― Você se sente melhor? ― perguntei.
Ele assentiu com a cabeça e logo negou. Seu semblante sério de repente transformou-se. Seus olhos se encheram de lágrima e ele simplesmente desabou na minha frente. Senti uma pontada no coração ao vê-lo daquela forma, tão vulnerável na minha frente. Nunca imaginara que veria algum dia Henrique daquela forma, porém se uma pessoa desaba daquela forma na sua frente, significa que já dividiram a coisa mais íntima em toda a vida.
Não sabia o que dizer. Talvez não houvesse nada que eu deveria dizer naquele momento. Tudo o que Henrique precisava num momento como aquele, era da minha máxima compreensão e de um gesto singelo, como o meu abraço que viria a se tornar a sua casa até que o seu pranto finalmente cessasse. Foi exatamente o que eu fiz. O abracei e deixei o meu gesto falar por mim. Deixei o meu abraço se tornar a sua casa diante daquela angústia. Deixei que morasse em meus braços até o fim de seu desabafo.
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