009

                                                                                               ∆

··· Melissa

Já não aguento mais fingir que leio. Não vou mentir, até que tentei nas duas primeiras vezes, mas argh, que saco. 

Fez uma semana que estou nesse lugar, e não teve um só dia que não pensei nele. Nem pudemos nos despedir. Eu gostaria de ter dado um último adeus, um último beijo, abraço... Saber que há chance de eu nunca mais poder vê-lo me deixa devastada.

3 anos ou mais que passarei nesse lugar. Nem penso na capacidade dele me esperar, nem quero. Não gostaria de dar falsas esperanças, fazer com que ele deixe de viver a vida por minha conta. Tento pensar na situação ao contrário: se fosse Sebastian que estivesse "preso" por três anos, eu o esperaria? Imediatamente minha cabeça diz que sim, por mais difícil que fosse... 

Volto a atenção para o livro, para a biblia quer dizer. Minha ultima tarefa do dia da aula de Leitura Sagrada. Suspiro e ouço o breve sino tocar, hora de ir para o dormitório, finalmente. Eu e as outras freiras nos recolhemos. 

Sou a ultima a sair da sala, assim que passo pela grande porta vejo que Carl, o segurança, ou melhor, o "vigia" que mamãe colocou para me espionar já me esperava na porta.

— Senhorita Melissa... — ele me cumprimenta.

Carl era um homem de meia idade, um pouco grisalho e forte. Ele até que era um cara legal, tirando o fato de estar quase cem porcento do dia no meu pé. Nos primeiros dias eu fui bem chata com ele, mas fazer o que? O cara ficava no meu pé, eu emocionalmente acabada... 

Ele conversou comigo e falou que não gostava de ter que me vigiar, que estava fazendo isso por conta da ameaça de papai, etc... Quando isso vai acabar? Quando aquele homem vai parar de usar a influência dele para o mal?

— Carl.  — o cumprimento de volta. — Não precisa se preocupar, você já pode ir deitar, também já estou indo. 

— Tudo bem.

Volto para meu quarto e como a rotina de todos os dias, entro, tiro minha roupa, vou para o banheiro, me jogo na pequena banheira, ligo o chuveiro e choro baixinho. Não me vejo aguentando 3 anos aqui... simplesmente não consigo ver um futuro para mim.

Como Sebastian está? Kaya? Meu coração aperta e dói. Tento pensar no futuro deles: espero que se tornem felizes, com suas vidas seguidas, com família, ao lado de quem amam. 

Por que tudo tem que ser diferente para mim? 

Saio do banheiro e me visto. Diferente do que disse para Carl, não dormiria logo. Desço as escadas e vou para o jardim, o único lugar possível de se ter paz nesse lugar. A noite já estava fria. Ando por um canteiro de rosas em busca do pequeno banco que havia ali. Sento-me e sinto meu corpo tremer com o contato do banco de cimento gelado com a minha pele. Estremeço mais ainda ao sentir o vento gelado contra meus cabelos ainda molhados. Encosto minhas costas no banco e fecho os olhos com força. Que isso seja um pesadelo. Que eu acorde desse pesadelo. Por favor. — Passo a chorar. — Que isso seja apenas um pesadelo. 

                                                                                       ∆

··· Sebastian

Entro no Covento e assim que entro percebo que uma Madre vem até ao meu encontro. 

— Boa noite, em que posso ajudá-lo? — a senhora já de idade diz.

— É... — penso em uma mentira — Eu vim visitar minha... irmã... — ela me olha.

— Sua irmã? Qual seu nome, meu querido? — a voz dela soava aguda. — Venha até comigo... 

A mulher me guia a uma recepção. Vai para trás de um balcão, busca um livro, enorme por sinal, o abre e me olha. 

— Sim, é, S--John. John Joy. — a olho e lhe dou um meio sorriso. — Minha irmã se chama Melissa, Melissa Joy. Ela veio recentemente para cá. 

Enquanto ela procura algo no livro observo o local. Aqui me da arrepios, caramba. Pobre boneca, o que ela já não deve estar passando aqui, sozinha... 

Olho para a escada e vejo um homem descer. CARL. CARL É O SEGURANÇA QUE COLOCARAM PARA VIGIAR MELISSA. De repente me viro e ando até uma janela de costas para ele. Pelo canto do olho vejo que ele passa rapidamente para outra área dali.

Volto para o balcão e vejo que a senhora continuava procurando pelo nome. Ah meu Deus. Passo a bater meu pé no chão já desesperado. Olho para a senhora, para o livro, para a porta pela qual Carl passou, para a senhora e para o livro novamente.

— Licença — falo rapidamente ao pegar o livro das mãos dela e puxá-lo para mim, mas a senhora é mais rápida e me olha com desaprovação.

— Que menino mais mal educado! Tudo no seu tempo, garoto!

E ela continua pela longa procura. 

Ouço passos em direção a porta e corro para janela novamente. Pelo canto dos olhos consigo ver Melissa passar junto de Carl. Por um segundo paro de sentir minhas pernas, ou eu teria ido para cima e acabado com o meu "não plano" de buscá-la. Eles sobem e somem de vista. Percebo que estava segurando o ar quando o solto de uma vez. Finjo que estou amarrando meu cadarço e subo as escadas agachado para a senhora da recepção não me ver.

Um corredor com portas dos dois lados. QUE ÓTIMO. Não tenho muito tempo, então passo a bater nas portas frente a frente e esperar serem abertas. Para minha sorte a primeira é aberta rapidamente.

— Olá, você sabe qual o quarto da irmã Melissa? — digo — Sou irmão dela. — acrescento rapidamente após ver a cara de julgamento dela.

— Ultimo dessa fila. — aponta.

Saio rapidamente em direção ao quarto. Bato. Nada. Bato novamente. Nada também. Faço a batida que havíamos combinado quando eu ou ela íamos um para o quarto do outro. Ouço ela vir até a porta. 

— Mas que droga, Carl! Como voc... — Não deixo que ela termine e coloco a mão em sua boca para evitar qualquer grito ou algo do tipo. Empurro a porta e a tranco de uma vez. 

— SEBASTIAN? SEBASTIAN É VOCÊ MESMO? — Ela fala com lágrimas nos olhos me encarando após eu tirar a mão de seus lábios.

—Sou eu sim, meu amor. Sou eu sim! Eu vim para te buscar! — Falo entre choro e sorriso. Nos abraçamos e choramos mais ainda. A afasto e passo a mão em seu rosto secando suas lágrimas. 

— Eu te amo, Melissa! Eu te amo que eu não aguentava a ideia de ficar sem você. Se não fosse por Kaya ou aquela sua amiga... Ah meu Deus! — A abraço novamente. — Eu iria te esperar, Melissa. Seriam os três anos mais dificeis da minha vida, mas eu te esperaria.

Vejo que ela chorava e sorria.

— Sebastian... — Ela passa a mão pelo meu rosto. — Pego a mão dela e a beijo. — Eu te amo tanto! Essa semana foi a mais difícil para mim... Eu não sei como conseguiria passar todo esse tempo longe de você! — Ela me abraça novamente. — Como você conseguiu? Como você descobriu onde eu estaria?

— Eu achei que você pudesse estar no Convento em que lhe busquei, lembra? Eu passaria lá, estava meio certo de que seu pai não lhe colocaria lá, mas... eu tentaria. Combinei com Kaya de lhe ver antes que você fosse trazida para cá... Mas... o carro saiu mais cedo... Depois sua irmã conseguiu descobrir onde você ficaria e avisou a Meredith. É uma longa história! 

— Oh meu Deus! — ela ri — Até Meredith nessa história? Como está Kaya? Ela conseguiu?

— Melissa... você sabia? Sua irmã fugiu com uma garota.

— Sim, eu sabia. — os olhos dela brilhavam — Ajudei na ideia, nossos pais nunca aceitariam.

— Você é incrível e eu te amo inteiramente por isso. — a beijo na testa.

— Eu também, meu amor. — ela beija meu queixo.

— Como sairemos daqui? 

Lembro da senhora que ficou lá em baixo. Se tivermos sorte, ela pensará que já terei ido embora, caso não, pode estar em alerta. Aviso Melissa quanto a isso. Enquanto ela arruma as coisas e troca de roupa, penso numa forma de sair sem sermos vistos. Após ela fazer a mala, abro a janela e a jogo. Não dá para correr risco com coisas pesadas. 

Penso num plano. Saímos daqui, pegamos a mochila e corremos para o carro. Se tivermos sorte, seremos vistos por apenas um segurança. Droga, tem Carl ainda.

— Melissa, qual o quarto de Carl? 

— O quarto dele não é aqui, é no andar de baixo próximo a escada, nesse só se é permitido freiras iniciantes. 

— Ok, pelo que pude ver não há seguranças nesse andar, não é? 

— Não, mas tem um senhor que fica rondando por aqui pela segurança.

— Tudo bem, você está pronta? — vou até ela que fechava a janela e a abraço forte.

— Eu estou com você. Eu estou mais que bem.

Descemos as escadas lentamente e vejo que não há sinal de ninguém por ali. Passamos correndo para a lateral do convento para pegar a bolsa de Melissa.

Andamos e me abaixo para pegar.

— Oh não. — Melissa diz.

— O que...

Me viro e vejo Carl apontando uma arma para mim. 

— Ora, ora, Sebastian... — engulo um seco — Vejo que veio em busca da donzela.

— Carl... — tento argumentar.

Ele carrega a arma e continua mirando para mim. E atira.

— NÃO! — Melissa grita. Caio no chão com o impacto. 

— Levante-se, idiota! Vocês não têm muito tempo.

Carl havia atirado no chão. próximo a um jarro.

Melissa me ajuda a levantar. Ainda estou atordoado por conta do barulho do tiro.

— Vamos, me dê um soco. — Carl diz.

— O que? — digo sem entender. — Você vai nos...

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa Melissa avança sobre ele e o soca no rosto.

Outch! Você é forte, mocinha. Andem, logo chegarão mais seguranças. 

— Carl! Por que...? Obrigada! — Melissa o beija no rosto e o abraça.

— Seu pai precisa entender que ele não pode controlar tudo. Agora, ANDEM! Ainda tenho que me livrar dessa arma.

— Obrigado... Carl! Serei grato pelo resto da vida. — Digo e me viro para correr puxando Melissa.

Corremos e temos de nos esconder ao vermos alguns seguranças passarem. Eles passam e nós corremos em direção ao bar em que eu havia estacionado meu carro. Abro a porta e jogo a bolsa de Melissa na parte de trás.

— Você está bem? — pergunto.

— Eu estou ótima! — Ela diz e ri. — Ande com isso, motorista.

E assim nós seguimos em busca do nosso destino. 

Após um tempo na estrada, a olho e ela retribui o olhar. Sorrimos.

Acho que pela primeira vez na vida sei o que é ser feliz. E o melhor: tenho a mulher que amo do meu lado, e ela é grande parte da minha felicidade.

— Pronta para começar do zero? — a olho e pergunto.

— Eu já nasci pronta, meu amor. — nós rimos — Agora é com a gente.

— Eu te amo, minha freirinha. — ela ri.

— Eu te amo, meu motorista. — rimos.

E fomos madrugada a frente, com um unico plano em mente: o de sermos felizes e nos amarmos sem que haja alguém para impedir isso. Nós faremos o nosso próprio destino. 

                                                           FIM







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