Perfeito e Seguro
O som melodioso de "All of Me" de John Legend ecoou pelo quarto, mesmo sendo sua música favorita, Cherilyn Martins, ainda sob o efeito do sono interrompido, desejou partir o celular em dois.
Não queria sair do aconchego do cômodo, cujos móveis se resumiam a um cabideiro de metal preso à parede, um gaveteiro branco ao lado de uma estante e um criado mudo ao lado da cama onde a jovem mulher se remexia conforme a música aumentava.
Uma careta se formou no rosto fino da jovem ao elevar o tronco, coberto por uma velha e larga camiseta grafite, que terminava abaixo dos quadris estreitos, e abri os olhos esverdeados.
Estendeu a mão direita para pegar o celular sobre o criado mudo e desligar o modo despertador.
Ainda sonolenta, jogou os lençóis para o lado, deixando à mostra as pernas longas, e colocou os pés no chão de porcelanato marrom que cobria todos os cômodos do apartamento. Ao sentir o impacto dos pés quentinhos contra a frieza do piso os encolheu, colocando-os de volta sobre a cama.
Com os olhos procurou os chinelos, inclinou o corpo ao acha-los, calçou-os e por fim se levantou.
Saiu do quarto em direção ao banheiro, que ficava ao lado da cozinha, para tomar banho. Para chegar ao seu destino tinha que atravessar a sala, que se encontrava na mais completa penumbra. Com preguiça de procurar o interruptor e já acostumada em fazer o percurso no escuro, Cherry seguiu como uma sonâmbula.
— Aiiii! — gritou ao tropeçar em algo, cair de cara no chão frio e sentir um peso se chocar contra suas pernas.
— O que aconteceu? É ladrão? Onde? Onde? — Ouviu Isabele Albuquerque, sua melhor amiga, perguntar apavorada antes das luzes serem acesas. — O que você fez com o Eri-magic? — questionou a mulher de longos cabelos loiros, olhos azuis, magra, que trajava um babydoll de nylon amarelo incapaz de cobrir a calcinha fio dental da mesma cor, correndo para socorrer Eri, que caíra sobre as pernas de Cherry.
Estatelada no chão, Cherry encarou a amiga de infância com descrença. O que diabo poderia fazer contra aquela coisa sorridente?
"Joga-lo em uma fogueira e vê-lo derreter aos poucos". Respondeu sua mente zangada com aquela situação absurda, enquanto seus olhos verdes fuzilavam Eri. Não que ele ligasse em ser hostilizado pela enésima vez desde que passara pela porta do apartamento.
Eri, o amado e idolatrado Eri, que merecia mais atenção e cuidados que ela, não passava de um boneco de silicone de 1,80 m, cabelo curto e castanho claro, olhos no mesmo tom, músculos definidos e anatomicamente perfeitos em todos os sentidos. Para horror de Cherry, Isa fizera questão de lhe mostrar cada mínimo detalhe do boneco que comprara meses atrás. Além disso, e o que mais irritava a Martins, a amiga escolhera um modelo com um sorriso safado no rosto. Toda vez que o olhava sentia que "aquilo" a desnudava em pensamento, por mais impossível que isso fosse.
— Por que não deixa esse troço no seu quarto? — perguntou entredentes.
— Calma, Eri-magic, Cher é mal-humorada por natureza, não é nada com você — Isabele disse para consolar o boneco que vestia somente uma bermuda cinza. — Ela necessita de um amigo como você — completou fazendo Eri sentar no sofá, sobre a manta vermelha que o cobria.
— Um... Dois... Três... — Cherry começou a contar enquanto se erguia tentando, com muito custo, conter a vontade de pular no pescoço fino da amiga. — Respira Cherry... Respira... Tudo está na mais perfeita ordem astral — cantarolou evitando estragar seu dia discutindo com a maluca com quem dividia as despesas do apartamento.
Seguiu para o banheiro onde se despiu antes de entrar no box e ligar o chuveiro para tomar um banho relaxante antes de ir trabalhar.
Com a água escorrendo por seu cabelo que descia até os ombros e se ensaboando, Cherry se perguntou por que aceitara ir morar com Isabele. A resposta chegou rápida. Embora caprichosa e pervertida da unha perfeitamente pintada do pé até os fios loiros que cobriam sua cabeça, Isa era o mais próximo de família que tinha.
Órfã desde os oito anos, Cherry fora motivo de disputa entre os familiares, mas não porque a queriam e sim por empurrarem-na uns para os outros. Por fim, fora morar em uma cidade pequena sob a guarda de um tio por parte de mãe, que tinha três filhos adolescentes para se preocupar e uma esposa que a encarara como um estorvo em princípio e empregada conforme os anos foram passando.
Sua única alegria fora conhecer Isabele Albuquerque na escola que seus tios lhe pagaram. Isa era rica, popular e tinha uma autoestima elevada, totalmente diferente de Cherry, mas mesmo assim a loira simpatizara com a ruiva e viraram grandes amigas. Tinha muito a agradecê-la, Isa a ajudara diversas vezes e até lhe arranjara um trabalho quando Cherry concordara em morarem juntas na capital.
A jovem torceu os lábios finos ao lembrar-se do emprego como secretária dos donos de uma pequena empresa publicitária chamada SaaTore.
Gabriel Saadi, o diretor, era um homem tranquilo, de poucas palavras e exigente. Porém não tanto quanto Simon Salvatore, o presidente. Se não bastasse o mau humor matinal dele, ainda tinha a mãe dele, Mirela Salvatore.
A matriarca Salvatore contara sobre a vaga de secretária para Isabele, ressaltando que precisava de alguém que vigiasse cada passo de seu filho caçula. Não sabia o que era pior, seguir as ordens do tirano Simon ou repassar tudo o que via e ouvia para mãe dele.
Terminou o banho, enxugou-se e utilizou a tolha para cobrir o corpo. Seguindo o ritual de toda manhã, escovou os dentes, maquiou-se e arrumou o cabelo avermelhado em um coque antes de fazer o trajeto de volta para o quarto.
Ao passar pela sala, deu uma olhada na amiga que voltara a dormir, dessa vez sobre o sofá e com a cabeça apoiada no colo de seu amado Eri. Apesar de odiar o boneco, não conseguiu evitar sorrir diante da cena.
Voltou ao seu quarto, pegou as roupas que deixara separadas no cabideiro, compostas por um vestido tubinho rosa sem mangas que terminava pouco antes de seus joelhos, um cinto fino trançado e um blazer bege. Na cômoda pegou a meia calça cor da pele.
Devidamente vestida calçou os sapatos scarpin de cor areia, pegou a bolsa e o celular de cima da mesinha e foi para a cozinha, que era integrada à sala por uma bancada de ipê com pouco mais de um metro e meio.
Preparou um chá de camomila, pegou uma maçã, colocou algumas bolachas em um prato sobre a bancada e sentou em uma das duas cadeiras giratórias presas ao chão para tomar seu café da manhã antes de mais um dia de trabalho.
Mordendo a maçã, girou a cadeira e percorreu com os olhos o pequeno, para não dizer minúsculo, apartamento, o único imóvel que podia ajudar a pagar. Negara-se a deixar que sua amiga pagasse tudo sozinha e Isabele, conhecendo sua teimosia, concordara em morar no local, mas deixando claro que o maior dormitório e o banheiro entre os quartos seriam dela. Cherry não vira motivo para negar o pedido, assim como não se opôs quando Isa decidira pintar de vermelho sangue uma das paredes da sala, onde ficava o pequeno rack de madeira com a televisão, e decorara tudo a seu bel-prazer. O único cômodo que se salvara havia sido o quarto de Cherry, porque Isa decidira que a ruiva é quem devia mexer nele.
Sorriu. Por mais estranho que fosse aquele era o seu lar e Isabele, junto do bizarro Eri, eram o mais perto de família que conhecia.
~
No outro extremo da cidade, em uma casa luxuosa de decoração elegante, os empregados executavam logo cedo as tarefas diárias. O dono da mansão, um homem de vinte e sete anos, alto, cachos dourados e olhos azuis de nome Nathaniel Muller, tomava seu café da manhã com sua mãe, Carlota Muller.
— A cada dia a empresa cresce mais e mais — comemorou após um gole de seu cappuccino — Logo que lançarmos a nova linha de maquilagem Essenz às vendas aumentarão.
— Seu pai se orgulharia de tudo o que fez nos últimos anos — declarou Carlota, uma linda mulher de longos cabelos acobreados e olhos azul petróleo, segurando sobre a mesa de jantar de seis lugares a mão do filho.
Ambos sorriram com saudade. Nikolas Muller falecera há cerca de seis anos vítima de câncer, Nathaniel, um universitário na época, tivera que dividir seu tempo entre as aulas e o comando da empresa. No começo fora difícil, lutara pela confiança dos funcionários e dos acionistas minoritários. A desconfiança fizera com que muitos temessem o futuro da empresa, o valor das ações na bolsa caiu e a instabilidade fez com que encarassem Nathaniel como um jovem playboy que afundaria o patrimônio acumulado pelo pai.
Nathaniel se propôs a trabalhar noite e dia para mostrar que estavam errados e agora, prestes a lançar a linha que idealizara nos mínimos detalhes, sentia que ninguém poderia encará-lo como um herdeiro inútil.
Além disso, a boa fase da empresa tornaria outra de suas metas realidade.
Observando o sorriso do filho se alargar, Carlota comentou carinhosamente:
— Essa linha deve ser muito boa para que sorria dessa forma.
— A linha é perfeita, mas o motivo do meu sorriso é outro. — Nathaniel apertou a mão de Carlota. — Pretendo pedir Paulina em casamento.
— Mas... — Carlota titubeou, seus olhos moveram-se das mãos unidas para o filho. — Não está sendo precipitado?
— Namoro Paulina há seis anos. Creio que adiei esse momento até demais — Nathaniel comentou bem humorado.
Seu humor não alcançou Carlota e nem a acalmou.
— Vocês são jovens, têm que esperar um pouco e aproveitar que agora poderão ficar mais tempo juntos.
— Você e o papai casaram muito mais jovens — o filho ressaltou com um sorriso gentil.
— Sim, mas era diferente.
— Diferente?! — estranhou, notando pela primeira vez o desânimo na expressão e no tom de voz de sua mãe.
Carlota mordeu os lábios com nervosismo. Não queria estragar a felicidade do filho, mas tinha dúvidas a respeito do relacionamento dele. Paulina Perez era linda, prendada, comportada, gentil, perfeita. Tanta perfeição incomodava a Muller. Tinha a impressão que o filho via a namorada como uma peça decorativa. Não via calor ou paixão naquela relação e, mesmo que vasculhasse suas lembranças, não conseguiria achar nenhuma que mostrasse o jovem casal discutindo pelo que quer que fosse. Isso não era normal.
— O que foi mãe?
— Ah, perdão, Nathaniel! Creio que apenas tento evitar que se afaste de mim — mentiu, sem saber como dizer ao filho que não achava que Paulina fosse a pessoa certa para ele.
— Não se preocupe. Depois do casamento viremos morar aqui — Nathaniel garantiu para tranquiliza-la. — Não vejo porque procurar outro lugar e tenho certeza que Paulina vai concordar.
Carlota não duvidava. Paulina aceitaria tudo que Nathaniel decidisse. Era justamente isso que a preocupava.
~
Revisando os relatórios que deveria entregar para o patrão, pela primeira vez em cinco meses que trabalhava para a empresa de publicidade SaaTore, Cherry estava aliviada e transbordando alegria. Suas orações haviam sido ouvidas, Simon Salvatore ficaria ocupado entrevistando garotas para a vaga de governanta em seu apartamento. E Mirela com certeza verificaria a nova funcionária do filho de perto, e assim ambos a esqueceriam por um dia.
Infelizmente sua felicidade acabou no momento em que ouviu o som das portas do elevador do nono andar se abrindo. Inclinando o corpo para frente e esticando o pescoço para ver quem chegara, viu o Salvatore sair do elevador e andar apressado pelo corredor que levava ao seu escritório, ignorando todos em sua volta.
Surpresa, Cherry demorou a levantar e quando o fez, quase deixou a cadeira cair para trás com o impulso. Pegou nervosamente a agenda onde anotava os compromissos do Salvatore, uma caneta e entrou na sala que o patrão ocupava.
— Pensei que o senhor não viria hoje. — Não conseguiu segurar o comentário com uma ponta de desapontamento. Torcia para ele não notar.
— Pensou errado — Simon respondeu com seu tom naturalmente frio.
— Já contratou a governanta? — quis saber, se arrependendo logo depois ao receber um olhar irritado do moreno.
— A senhorita nem ao menos se dignou a entrevistá-las antes de mandá-las ao meu apartamento, não é?
— A agência para a qual telefonei disse que mandaria as melhores de acordo com o perfil do senhor — defendeu-se Cherry imaginando que o mau humor daquela vez tinha sido por causa das entrevistadas. Não que ele fosse gentil com ela.
— Que perfil?
Cherry procurou lembrar o que dissera ao telefone.
— Solteiro, com vinte e sete anos, empresário renomado, dono da empresa de publicidade SaaTore, herdeiro das empresas Salvatore...
— Não pensou em contar quanto tenho no banco? — Ouviu o Salvatore resmungar.
— Ajudaria? — perguntou sem pensar, vítima do esgotamento que agradar um tirano causava.
— Claro que não — ele respondeu exaltado, encarando a Martins com raiva. — Da próxima vez diga a minha personalidade, não minhas qualidades financeiras.
Mentalmente Cherry se perguntou quantas pessoas aceitariam trabalhar para ele quando o descrevesse como: Grosseiro, mal-humorado e exigente ao limite. Provavelmente ninguém. Por fim ofereceu:
— Posso telefonar para a agência e refazer o perfil.
— Não é preciso, minha mãe já escolheu uma governanta.
— Dona Mirela? O senhor tem certeza que não quer que refaça o perfil?
— Não é preciso — repetiu com irritação.
Cherry se perguntou qual seria o interesse da Salvatore agora. Afinal fora contratada por Mirela para informar tudo que Simon fazia dentro da empresa que ele montara com um amigo há cerca de dois anos. Será que agora queria uma espiã dentro do apartamento? Mas se queria por que não a contratara para o cargo? Mesmo tendo milhões de defeitos, alguns que saltavam à vista quando ele era contrariado, Cherry achava o patrão o melhor partido do mundo, além de ser lindo e sexy. Não havia uma só alma feminina em todo o prédio que não suspirava ao ver o moreno alto, corpo atlético, de cabelos e olhos negros. Por isso não seria nenhum sacrifício largar o cargo de secretária para morar debaixo do mesmo teto que o Salvatore, ao contrário, seria maravilhoso poder vê-lo desfilar com o peito nu pela casa; entrar no quarto dele...
— Martins, escutou algo do que acabei de dizer? — perguntou Simon estranhando o sorriso enorme, a face corada da secretária e o fato de ela não sair de sua sala. — Quero comprimidos para dor de cabeça.
— Ah, me desculpe — pediu tensa pelo rumo que seus pensamentos tomaram. — Volto em um instante, senhor Simon.
Cherry saiu apressada do escritório quase se chocando contra o sócio de Simon na empresa, Gabriel.
— Perdão — murmurou sem parar para verificar se ele ouvira, precisava chegar à enfermaria no primeiro andar do prédio com urgência.
~
Nathaniel passou a manhã verificando os projetos para o lançamento da linha de produtos. A essência do novo perfume estava definida, as texturas e cores das maquiagens já haviam sido aprovadas nos testes, mas ainda faltava dar vida ao produto, como seu pai costumava dizer.
No fim de tarde foi para a sala de reunião decidir os últimos detalhes para o lançamento da nova linha, junto de três componentes da equipe de criação da empresa que sempre contratavam para os lançamentos da Essenz Cosmetics, e do farmacêutico cosmetólogo Rafael Herrera, seu braço direito na produção da nova linha.
No entanto, por mais que as ideias estivessem em sua cabeça, não conseguia passá-las para o papel ou para os funcionários da empresa responsáveis pelo marketing. Havia momentos em que parecia que o olhavam como se fosse um idiota tentando mandar no serviço deles. E de certa forma, tirando a parte do idiota, estava o tempo todo indicando o que deveriam fazer. Tinha que fazer valer o seu desejo, afinal o dinheiro e o produto eram seus.
— Essa é a terceira vez que o senhor pede pra modificar o desenho da embalagem — disse Naila Mattos, a diretora de arte, uma mulher alta, de cabelo loiro e estreitos olhos castanhos que faiscavam de raiva. — Nunca conseguiremos fazer uma publicidade com um produto que não tem uma definição — reclamou se segurando para não gritar com o Muller.
— Não gostei das anteriores, queria algo diferente. Sedutor e puro ao mesmo tempo. Entende? — Aquele olhar novamente. — Isso não está dando certo — reclamou Nathaniel se levantando do lugar que ocupava na grande mesa da sala. — Preciso de uma equipe publicitária que consiga interpretar o que digo! E que não me encare como um imbecil que deve permanecer montado na grana e só esticar a mão pra efetuar o pagamento.
— Nem o senhor interpreta o que quer. É inconstante, não sabe definir nada e ainda pensa que sabe o que temos de fazer — retrucou a mulher com raiva. — Nikolas já teria...
— Não sou o meu pai — Nathaniel a interrompeu. Odiava quando começavam a comparar de forma negativa o jeito que trabalhava com a de seu pai. — É provável que se ele estivesse aqui se faria entender, mas como não está eu decido o que fazer, e, nesse instante, decido que procurarei outra agência.
— Como?
— Essa eu achei fácil de interpretar — Nathaniel resmungou saindo da sala. — Não se preocupem, pagarei pelo tempo que perderam com as minhas "inconstâncias" — comunicou em voz alta já do lado de fora.
Caminhava apressado rumo ao elevador. Precisava chegar à sua sala, dois andares acima, para resolver o que faria dali em diante.
Entrou no elevador sendo seguido por Rafael, cujas mãos permaneciam dentro dos bolsos da calça social preta.
Rafael, por passar horas trabalhando com o Muller, aprendera que era inútil contrariá-lo, mas começava a se perguntar se ele realmente sabia as consequências do que acabara de fazer.
— Diga logo que fiz besteira — Nathaniel pediu observando a expressão pensativa do homem de rabo de cavalo negro, cujos olhos escuros permaneciam fixos no painel do elevador.
— Besteira é usar camiseta laranja e jeans pra trabalhar. O que fez é insano — argumentou dando um olhar enviesado para as roupas do amigo.
Nathaniel gargalhou.
— Laranja é a minha cor favorita, sabia?
Rafael bufou.
— Impossível não notar.
O elevador chegou ao andar desejado. Os dois saíram e seguiram para a sala do Muller.
— Trocar de agência após anos utilizando a mesma é problemático — Rafael resmungou depois de Nathaniel fechar a porta.
— Não se preocupe — pediu dando leves tapinhas no ombro do funcionário e amigo. — Conheço uma agência publicitária que saberá interpretar o que digo. — Riu satisfeito indo se sentar em sua cadeira.
— Tem certeza disso? — perguntou o cosmetólogo encarando o Muller com desconfiança. — Também não entendi o que seria uma embalagem diferente, sedutora e pura — confessou esfregando o olho direito com cansaço. — Seria mais fácil deixar tudo nas mãos deles.
— Nunca decido pelo mais fácil — Nathaniel retrucou sorrindo. — Confie em mim, à empresa que quero contratar fará um ótimo trabalho. Estudei administração com os donos que se especializaram em marketing. Sei do que eles são capazes quando recebem um desafio — completou pegando o telefone sobre sua mesa e discando os números da empresa dos amigos.
~
Com eficiência, Cherry atendeu rapidamente o telefone no primeiro toque.
— SaaTore, boa tarde!
— Boa tarde! Sou Nathaniel Muller da empresa Essenz Cosmetics.
Cherry ficou impressionada, não por conhecer a empresa, pois Isabele tinha um amigo trabalhando na Essenz Cosmetics, mas porque a voz do outro lado da linha era muito sexy. Era uma pena que, segundo sua experiência pessoal, Nathaniel Muller devia ser um velho arrogante.
Voltando o foco para suas funções, puxou o bloco de notas e um lápis.
— Em que posso ajudá-lo senhor Muller?
— Sou amigo de Simon Salvatore e gostaria de falar com ele.
— Sobre qual assunto? — questionou, o grafite movendo-se no papel, riscando um traço firme abaixo do nome da empresa.
— É algo que tenho de discutir diretamente com ele.
Cherry mordeu os lábios. Seria tão mais fácil se Nathaniel Muller esclarecesse qual era o assunto. Em um dia normal e com bom humor - o que era raro - Simon odiava quando passava um telefonema sem antecipar o assunto, já imaginava a catástrofe que ocorreria se fizesse isso justo no dia em que cometera um erro logo pela manhã.
— O senhor Salvatore está ocupado no momento... — começou para obrigar o Muller a dizer o que queria, mas foi logo interrompida.
— Qual é o seu nome?
— Cherry Martins — respondeu automaticamente.
— Então, Cherry... — Cherry sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao ouvi-lo pronunciar seu nome. O homem talvez fosse velho, mas a voz era atraente, calorosa e, estranhamente, mexia com ela. — Simon é meu amigo há anos e tenho certeza que aceitará falar comigo.
Outra coisa ficara clara com a persistência do Muller, assim como todo rico, ele era um prepotente que não aceitava uma negativa como resposta.
— Aguarde um momento na linha — pediu com frieza antes de transferir a ligação, se levantar e andar até a sala do chefe.
Parou em frente à porta de madeira, que separava sua sala do escritório do Salvatore, e respirou profundamente antes de entrar.
— Senhor Simon, há uma ligação na linha três...
— Da minha mãe? — ele a interrompeu ansioso.
Cherry, tensa, encarou Simon. Por alguns minutos havia se esquecido do estado de nervos dele com a falta de contato com Mirela, mas agora, com ele a encarando à espera de uma confirmação, se sentia prestes a cometer um suicídio.
— É do senhor Nathaniel Muller da empresa Essenz Cosmetics — respondeu devagar, colocando um pé para trás para facilitar a fuga caso o chefe tivesse algum acesso de raiva. — Solicita falar diretamente com o senhor.
— Sobre o quê? — ele perguntou com raiva no olhar.
— Ele não disse...
— Quantas vezes devo repetir: Pergunte o que querem comigo antes de me incomodar.
— Eu perguntei, mas...
Pulou ao ser interrompida pela voz furiosa do Salvatore:
— Esquece, pode sair que atendo a porcaria dessa ligação.
— Sim, senhor. — Cherry voltou rápido para seu lugar, quase afundando no assento de sua cadeira. — Droga! — Apoiou a cabeça e os braços sobre a escrivaninha.
Como fora estúpida em transferir sem ter total certeza que Simon aceitaria o telefonema. Nathaniel Muller era um grande mentiroso. Seu chefe não parecia tão amigo dele. Se bem que, para quem trabalhava com comunicação, tanto o Salvatore quanto seu sócio, Gabriel, não eram de muitas palavras. Devia ser alguma característica dos ricos... Não, Isa também era rica, mas falava pelos cotovelos. Porém, Isabele era uma pessoa totalmente incomum em todos os sentidos.
Um pigarro a fez endireitar o corpo com medo que fosse o Salvatore, mas, para sua sorte, ou azar, era o diretor.
— Simon ainda não conseguiu falar com Mirela? — ele perguntou com os fascinantes olhos verde-água fixos no número três do telefone de Cherry, cuja luz vermelha mostrava que alguém utilizava a linha.
— Não — Cherry respondeu um pouco nervosa. — No momento ele está em uma ligação com Nathaniel Muller da empresa Essenz Cosmetics.
— Nathaniel? O que ele quer com o Simon? — Gabriel perguntou mais para si do que para a Martins.
— O senhor Muller disse que era importante e tinha que falar diretamente com o senhor Simon — respondeu a Martins.
Gabriel continuou fitando o telefone com concentração. Cherry estranhou tanta atenção para um telefonema.
— Tâmara dará uma festa hoje e pediu para convidá-la — Gabriel comunicou de repente, antes de pegar o bloco de anotações e uma caneta, que estavam sobre sua mesa, e começar a escrever. — Começará às 21hrs em uma boate aqui perto — informou ao destacar a folha e entregá-la a Martins.
Cherry leu o endereço e o nome da boate, não se surpreendeu ao notar que se tratava de uma em que só podres de ricos tinham acesso. Para conseguir fazer uma festa naquele local, a irmã de Gabriel e também diretora de criação da empresa, devia ter gasto uma fortuna.
— Posso levar uma amiga? — perguntou ao se dar conta que o Saadi se afastava para entrar na sala de Simon. — É que tenho uma colega de apartamento...
— Claro — ele respondeu sem ao menos se voltar para olhá-la. — Só informe o nome para a secretária da Tâmara colocar na lista.
Cherry voltou a ler o nome da boate. Pelo menos seu fim de noite prometia.
~
Sorrindo e com uma mão no bolso direito de seu paletó preto, Nathaniel entrou no restaurante Rainbow e foi guiado até a mesa que reservara. Como sempre, ficava perto da entrada do restaurante e de frente para a grande janela por onde podia observar o movimento da rua. Gostava de se perder nos passos apressados dos pedestres, no girar das rodas das bicicletas e em tudo o que acontecia de modo frenético do lado de fora. Toda aquela agitação o ajudava a colocar as ideias nos eixos.
Continuava com a mesma roupa que usara para trabalhar, infelizmente não tivera tempo de ir para casa. Na pressa para chegar no horário marcado para pedir a namorada em casamento, apenas passara em uma loja de joias para comprar uma aliança e seguira para seu restaurante favorito.
Esperava que Paulina chegasse logo, pois queria retornar à sua casa o mais breve possível para informar Carlota do que ocorrera na empresa. Temia que sua mãe não aprovasse, porém não voltaria atrás em sua decisão. Pior seria dizer que ainda não tinha uma agência para substituir a anterior.
O constante sorriso, que era sua marca registrada, se apagou ao recordar que não tinha a confirmação de que a empresa SaaTore promoveria a nova linha da Essenz Cosmetics, só conseguira que Simon prometesse ver a possibilidade de aceitar sua proposta. De qualquer forma iria à SaaTore conversar pessoalmente com eles.
Satisfeito com sua nova decisão, voltou a sorrir enquanto relembrava a época em que estudara com Gabriel e Simon. Embora sempre discutindo, os três eram muito unidos e se ajudavam em tudo o que podiam. Foi por intermédio de Simon que conhecera Paulina, porque o pai de sua anjinho trabalhava e morava na propriedade dos Salvatore. Além disso, eram praticamente da mesma família desde que Alessandro Salvatore, irmão mais velho de Simon, casara com Iolanda, a viúva de seu primo Ícaro Muller.
— Que bom revê-lo Nathaniel!
Nathaniel desviou o olhar da janela para um senhor robusto, de cabelos grisalhos trajando uniforme de cozinheiro.
— Também fico feliz em revê-lo Vicenzo!
— Quase pensei que havia perdido meu melhor cliente — comentou o dono e chef do restaurante Rainbow, Sandro Vicenzo.
Nathaniel riu. Desde a morte de seu pai, principalmente nos últimos meses, passara a viver em função da empresa. Suas constantes viagens para representá-la e ganhar novos investidores tornara difícil visitar os amigos e apreciar a comida que só Vicenzo conseguia fazer.
— Posso ficar um tempo sem aparecer, mas jamais vou abandonar o Rainbow, amo esse lugar de todo coração — declarou com tom dramático, a mão direita apoiado no lado esquerdo do peito.
— Rapazinho, o seu humor está igualzinho ao da sua mãe.
— Vou considerar isso um elogio.
— E é. — Ergueu o olhar e sorriu. — Ah! Parece que a espera pela sua pequena dama termina agora. — O sorridente Sandro apontou para a entrada do restaurante.
Lá estava sua namorada e amiga: Paulina. Trajando um longo vestido cinza de manga comprida, a jovem cumprimentava Bibiana, filha de Vicenzo, antes de ser encaminhada até onde ele estava. Admirou seu andar cadenciado, o longo cabelo negro azulado cuja franja não ocultava os brilhantes olhos cor de mel e o sorriso suave direcionado à sua pessoa.
Com a face levemente corada, Paulina agradeceu Vicenzo por puxar a cadeira para que sentasse.
— Ele sempre é tão gentil comigo — comentou a Perez quando ficaram a sós.
— É impossível tratar mal um anjo — galanteou o Muller, porém dessa vez não conseguiu que os lábios cheios dela se curvassem em um sorriso. — O que aconteceu?
Depois dessa simples pergunta ouviu durante um longo tempo Paulina reclamar de seu novo trabalho como governanta de Simon Salvatore, o que não era comum. A personalidade da Perez era do tipo que jamais se queixava, apenas ouvia e pouco falava. A discrição e doçura da namorada que o atraíra.
— Não entendo por que Mirela fez isso comigo? Todo mundo sabe que Simon me odeia.
— Simon não te odeia...
— E por que sempre me trata mal?
— Ele é assim mesmo. Frio com as pessoas, não é nada particular — explicou cansado daquele assunto. — De qualquer forma, tenho uma proposta que se você aceitar te ajudará a sair mais cedo desse emprego.
— Proposta?
Nathaniel remexeu no bolso do paletó preto e retirou uma pequena caixinha laranja que atraiu o olhar da namorada.
— Quer casar comigo, Lina? — pediu enquanto abria a caixinha e deixava a jovem ver o anel de diamante.
— Sim, claro que sim — A Perez respondeu estendendo a mão direita para que colocasse o anel em seu dedo anular. — É lindo — declarou com um sorriso doce nos lábios.
— Como você anjo — disse enquanto beijava o anel antes de se inclinar na mesa para beijar de leve os lábios da agora noiva.
Afastou-se e observou o olhar apaixonado que ela ostentava. Calma, gentil e discreta, ela era perfeita. Durante todo o relacionamento ela lhe dera forças, entendera suas ausências e jamais fizera cobranças. Teriam um casamento perfeito e seguro.
Farmacêutico cosmetólogo utiliza as habilidades extraídas da farmacotécnica e anatomia, para o desenvolvimento de cosméticos adequados,
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top