Capítulo 3 - A descoberta de um sentimento de vingança
Depois da discussão que tive com a minha mãe, saí de casa para esfriar a cabeça e refletir com mais calma sobre tudo o que aconteceu. Não demorando para o arrependimento preencher meu coração pela forma injusta que a tratei. Porém, mesmo lamentando o ocorrido, preferi ficar no meu cantinho favorito da cidade por um tempo, enquanto pensaria na melhor forma de me desculpar. O meu lugar favorito era uma praça bem arborizada e com um belo gramado onde as pessoas costumam fazer piquenique.
Deitei-me na grama sob a sombra de uma árvore e acabei pegando no sono enquanto ouvia o cantarolar dos pássaros daquela região.
— Eu sabia que ia te encontrar aqui, você é sempre muito previsível, branquinha! — disse uma voz feminina bem próxima, o que fez eu abrir os olhos devagar e acordar lentamente.
— Becca? O que faz aqui? — perguntei, bem sonolenta.
— Sua mãe me ligou falando que você saiu de casa às pressas depois de uma discussão que tiveram. Como você deixou o seu celular em casa, ela me pediu para te procurar! Tsc tsc! — Rebecca estalava a língua enquanto balançava negativamente a cabeça. — Que coisa feia, dando esse tipo de trabalho mesmo já tendo dezessete anos, Sasha? Não preocupe a sua mãe assim! — ela finalizou exibindo um sorriso cínico exagerado no rosto.
— Eu estava elaborando o meu pedido de desculpas para ela, já ia voltar para casa... — informei, dando em seguida um longo bocejo e me espreguiçando ainda deitada no gramado.
— Estou vendo, estou vendo! — comentou Rebecca, com nítido sarcasmo em sua voz. — Vejo também que trocou a sua cama confortável por um gramado onde provavelmente os cães mijaram o dia todo!
Eu me levantei abruptamente ao ouvir o comentário de minha amiga, cheirando em seguida minha roupa para atestar se tinha odor de urina, o que só fez com que ela gargalhasse sem parar da minha cara.
— É muito fácil te enganar, sua boba! — Ela disse, enquanto segurava a barriga que doía de tanto rir de forma tão descompassada e incessante.
Foi enquanto ela ria, que pude observar melhor como ela estava trajada: com um vestido azul marinho com estampas de florzinhas vermelhas, tendo um caimento leve e mangas curtas. Além disso, ela usava um boné da mesma cor do vestido, óculos escuros e carregava uma bolsa branca consigo. Tudo combinando perfeitamente com ela. Por fim, eu sempre adorava apreciar as suas covinhas que se destacavam toda vez em que abria um sorriso.
Fiquei tanto tempo a observando, que ela parou de rir e percebeu meus olhos atentos, o que fez eu desviar na hora a minha atenção para qualquer coisa aleatória que eu encontrasse.
— Olha, eles finalmente reformaram o chafariz, depois de tantas promessas feitas pelo prefeito de reformulação! — disse, apontando para o chafariz desligado no centro da praça.
— Eles não reformaram nada, continua quebrado! — desmentiu Rebecca.
— Ah é? Então eu me enganei! Não se pode esperar nada desses políticos! — finalizei esboçando um sorriso amarelo e risada sem graça.
— Bom, que seja! — respondeu minha amiga, procurando por algo dentro de sua bolsa. Ela retirou uma embalagem de protetor solar e óculos escuros, provavelmente com proteção UV. — Está fazendo um sol absurdo hoje, como apostei que saiu de casa de qualquer jeito, trouxe a sua proteção! Só esqueci de colocar um chapéu na lista, mas pode ficar com o meu boné se quiser!
— Pelo amor, Bequinha! Eu tenho a minha própria magia que cria um campo protetor invisível ao meu redor que me protege do sol, já te falei sobre esse feitiço, ele se chama Curare Cutem! — expliquei, enquanto revirava os olhos para aquele cuidado desnecessário da minha amiga.
— Ah é? Eu sempre esqueço de todos os detalhes de suas habilidades, bruxona! — admitiu Rebecca, guardando apenas o protetor solar de volta na bolsa, mas insistindo em me entregar os óculos. — Pelo menos aceite uma proteção extra para os seus olhos sensíveis!
— Meus olhos estão bem, Becca, não sou tão frágil assim! — respondi, secamente.
— Sei que não é frágil, afinal, você é a lenda urbana do momento! — comentou Rebecca, com um tom sarcástico na voz e o seu típico sorriso malicioso de garota travessa. — A destruidora de mandíbulas, asfalto e paredes!
— Com relação à mandíbula do sujeito que mandei para o hospital, não quis aplicar tanta força no meu ataque! — exclamei, dando um suspiro exasperado em sequência.
— Aquele sujeito mereceu, era um maníaco abusador de mulheres! — retrucou Rebecca, fechando os punhos e começando a socar o ar. — Se eu tivesse os seus poderes, teria o mandado direto para o necrotério!
— Eu não sou uma assassina, Becca! Não importa os crimes cometidos, não posso sair eliminando as pessoas por aí! Isso apenas me tornaria uma assassina em série ao invés de uma heroína! — retruquei minha amiga.
Rebecca pareceu estranhamente satisfeita além da conta com a resposta que acabou de ouvir de mim, abrindo um largo sorriso que exibia os seus dentes brancos e perfeitos.
— Por acaso, você estava me testando com isso? — Indague-a, semicerrando um pouco meus olhos e franzindo ligeiramente a testa.
— Ah, quem sabe? Mas a minha heroína favorita nunca me decepciona em sua moral e ética! É, definitivamente, muito virtuosa! — Ela respondeu, batendo palmas freneticamente para mim, enquanto sorria e dava alguns pulinhos.
Pude apenas sentir o meu rosto ficar bastante quente, principalmente pelo fato de com os pulinhos de Rebecca se tornar possível não apenas de ver parcialmente o calção curto de lycra que ela usava por debaixo do vestido, como contemplar mais de suas coxas que tinham uma linda cor morena amarelada que acelerava o meu coração.
— É melhor eu voltar logo para casa, não quero deixar a minha mãe preocupada por mais tempo! Nos vemos depois, Becca! — exclamei, virando de costas para Rebecca com medo de entregar o meu nervosismo para ela. Em seguida, rumando em passos apressados de volta para casa.
Ao me afastar o suficiente, arrisquei uma rápida olhada por cima do ombro, percebendo assim que Rebecca tinha ficado parada no mesmo lugar, apenas atendendo o celular, provavelmente sendo minha mãe a ligando novamente.
****
Depois de pedir desculpas para a minha mãe pelas palavras proferidas mais cedo, fui orientada por ela a fazer meus deveres de casa do colégio em meu quarto e tirar completamente da minha cabeça a ideia de abandonar os estudos. Apenas acatei sem questionar, tendo a promessa dela de conversar com mais calma posteriormente sobre a minha necessidade de usar meus poderes para ajudar as pessoas.
A verdade é que eu tinha sido completamente injusta com ela, pois minha mãe sempre esteve ao meu lado e intensificou os seus esforços em me ajudar depois da morte de meu pai. Sem contar que, ela já sofreu muito na vida, pois foi escravizada em seu planeta natal e severamente agredida pelo senhor de escravos que a comprara, ao ponto deixa-la paraplégica. Todavia, meu pai a salvou desse senhor de escravos e eles se apaixonaram. Pouco tempo depois ela engravidou, o que os motivaram a fugir para bem longe de todas as guerras e conflitos intergalácticos que envolviam o Império Aniquiliano. Por conseguinte, eu não poderia ser ingrata a todo esse sacrifício e empenho em buscar uma vida melhor para nós.
Em tantas reflexões e devaneios, ao invés de estudar, apenas dormi na mesa de estudos.
Quando acordei, foi pelo som da cadeira de rodas de minha mãe entrando em meu quarto. Já era manhã do dia seguinte, um sábado, logo, não teria colégio. Além disso, não estava mais na minha mesa de estudos, mas sim em minha cama de maneira confortável.
— Bom dia, minha filha! — exclamou minha mãe cheia de energia, abrindo as cortinas do meu quarto para permitir a luz natural invadir o recinto.
— Bom dia, mãe... — disse preguiçosamente, ficando sentada na cama e observando que minhas roupas não eram as mesmas que eu estava usando ontem na mesa de estudos, trajando meu típico pijama rosa com bolinhas brancas. — Como eu vim parar na cama e quem me trocou? — Indaguei-a, com a intenção de averiguar se não agi de forma sonâmbula durante a madrugada.
— Eu a tirei da mesa de estudos e a coloquei em meu colo na cadeira, depois a joguei na cama e a troquei. Meus braços fortes são bem úteis nessas horas! — Ela comentou, flexionando os bíceps bem desenvolvidos de seus braços. — Seu sono estava tão pesado que você não acordou por nada, então resolvi quebrar esse seu galho.
— Não quero nem imaginar a minha cena no seu colo como se fosse uma bebê novamente! — admiti, sorrindo de forma envergonhada.
— Você ficou tão fofa dormindo profundamente no meu colo, filha, eu até tirei uma selfie nossa. Só não sei para quem eu envio, cogitei enviar para a Rebecca, já que ela ajudou muito ontem e... — Minha mãe dizia, mas a interrompi com um grito.
— POR TUDO O QUE FOR MAIS SAGRADO, MÃE! APAGA ESSA FOTO! MUITO MENOS ENVIE PARA A REBECCA!
— Calma, filha, eu estava apenas brincando, jamais faria isso. Só queria o meu retorno pela preocupação que me causou ontem! — informou minha mãe, rindo da minha reação que provavelmente ela já esperava.
— Minha nossa mãe! — exclamei, emitindo um suspiro de alívio. — Eu não fazia ideia de que a senhora era tão vingativa assim!
— Pois então não conhece bem a sua mãe. Antes de seu pai me tirar daquela prisão, eu misturei algumas substâncias bem perigosas nos frascos de remédios daquele senhor de escravos sem que ele percebesse. A última notícia que tive dele foi a de que teve uma morte bem dolorosa! — comentou a minha mãe, revelando aquela informação pela primeira vez para mim, o que fez eu ficar bastante espantada. — Bom, faça o que eu digo, não faça o que eu fiz. — Concluiu, veementemente.
****
O meu sábado transcorreu sem grandes acontecimentos, sendo eu compelida a encarar os livros e realizar minhas atividades acadêmicas acumuladas, assim como recuperar o conteúdo das aulas que perdi em meus cochilos em sala. O que fez eu não sair de casa até a noite chegar.
Mas nada conseguia me fazer tirar da minha cabeça a revelação feita por minha mãe: a de que ela já havia matado alguém por vingança. Não posso imaginar fazer o mesmo com alguém, por pior que a pessoa tenha sido comigo. Todavia, seria difícil julgar o caso não tendo ampla noção de todo o sofrimento o qual minha mãe foi submetida, embora ainda não acreditasse que a vingança se justificasse.
Vingança e justiça muitas vezes, no entanto, podem ser separadas por uma linha tênue difícil de enxergar com uma visão nublada pelo desespero, raiva ou medo. Eu já senti muita raiva na vida: por me sentir impotente perante o mal. Eu já senti muito medo na vida: de não conseguir me encaixar no mundo e perder a oportunidade de realmente fazer a diferença, como meu pai acreditava que eu fosse capaz. Eu, principalmente, já senti o desespero, de perder a minha orientação e não saber qual caminho seguir, andando pelas ruas escuras do acaso.
Rebecca foi uma amiga que surgiu em minha vida para me retirar bastante desse desespero criado pela escuridão do acaso, apresentando-me uma direção. Ela até mesmo aceitou minhas diferenças e herança alienígena, assim como meus poderes mágicos. Não apenas isso, como ajudou a compor a minha indumentária de super-heroína e não permitiu que eu desistisse da ideia de tentar algo tão arriscado, mas que em meu âmago queria abraçar. Resumindo, ela se tornou alguém extremamente significativa na minha vida, uma amiga, companheira, confidente e muitas coisas mais que, sinceramente, deixavam-me completamente confusa a respeito dos meus sentimentos reais por ela. Só tinha certeza de uma coisa: sempre a vi mais do que uma amiga, uma melhor amiga? Talvez...
Bastou pensar em Rebecca para o meu telefone vibrar em cima da mesa de estudos, com a foto dela sorridente aparecendo na tela de chamada. Atendi a ligação sem demora.
— Alô, Becca, como está aproveitando a sua noite de sábado? — perguntei de forma despretensiosa, ou nem tanto, pois me surgiu um rápido pensamento de que talvez ela pudesse estar aproveitando o sábado à noite com alguém, talvez até com um namorado... Não ousava perguntar sobre a vida amorosa dela, embora ele sempre se intrometesse na minha.
— Sasha, a chapa esquentou aqui na viela de casa, duas facções criminosas rivais estão trocando tiro a torto e a direito! — Ela exclamou nervosa, sendo possível ouvir ao fundo da ligação sons estridentes de disparos de armas de fogo, assim como estilhaços de vidro e um gritinho de nervoso de Rebecca. — Um tiro acabou de atravessar a minha janela aqui, estou deitada no chão! Está uma verdadeira guerra urbana!
— Por que não ligou para a polícia, Rebecca? — Indaguei-a, preocupada com minha amiga. Contudo, também estava insegura de agir como super-heroína novamente e machucar alguém novamente.
— Você sabe como é o morro onde moro, os bandidos colocam barricadas para dificultar a incursão dos policiais, até eles chegarem aqui em cima alguém terá sido vitimado pelas balas perdidas, inclusive, esse alguém pode ser eu! — explicou desesperada, enquanto os barulhos de rajadas e disparos de armas se intensificavam no fundo da ligação.
Percebi que não poderia permitir que as incertezas me impedissem de fazer algo a respeito. Sendo assim, fui direta em minha resposta.
— Estou indo!
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