Capítulo 8 - A descoberta do espelho da revelação
Evitei Rebecca por duas semanas, tentando focar a mente na minha rotina diurna como uma aluna comum do ensino médio, enquanto realizava atos heroicos com o manto de Shayana Vivens durante as noites. Porém, eu estava no piloto automático, seguindo a vida sem um propósito claro, sentindo um vazio existencial profundo, algo que me incomodava bastante.
Aceitar as duas versões de mim mesma que foram apresentadas por Dartamian e Rebecca parecia inconcebível, pois não conseguia me imaginar como uma peça importante de um jogo cósmico transcendental orquestrado pelas divindades fundadoras do universo; tampouco me imaginava como a protagonista da providência divina, capaz de dar um fim ao conflito supremo que remonta à origem universal.
A verdade é que não me via mais como uma heroína, pois estava amedrontada, temendo reencontrar Dartamian novamente em meus sonhos, percebendo com isso que nem em momentos de descanso eu estava segura. Mas mesmo acordada também não tinha paz, pois temia pela iminente convocação, ou o ultimato à aventura, para cumprir o meu propósito divino, algo que viria mais cedo ou mais tarde, pois os avisos de Dartamian e Rebecca foram bastante claros: eu seria cooptada por qualquer um dos lados.
Tudo isso me afastou cada vez mais da visão utópica que eu mesma idealizara a respeito do arquétipo de um herói. Afinal, se fosse para seguir todas as etapas da chamada jornada do herói, eu realmente comecei com o pé esquerdo. Fui empurrada à força para fora de meu mundo comum quando meu pai fora levado para longe por minha culpa, sendo um grande trauma que sempre carregarei comigo. Todavia, consegui encontrar um norte ao decidir usar os meus poderes para ajudar as pessoas, tornando-me uma super-heroína noturna. Apesar disso, sinto que meu instinto de justiça não está satisfeito com tão pouco, mas temo para onde esse sentimento irá me levar.
O alarme de intervalo ecoou estridente, com meus colegas de classe afoitos para deixar a sala de aula, tendo alguns optando por formarem grupos de estudos e rumarem até a biblioteca do colégio, pois as provas se aproximavam, enquanto outros apenas se preocupavam em namorar pelos corredores até serem chamado a atenção pelos inspetores. De qualquer forma, invejava todos eles com suas preocupações tão triviais e mundanas, enquanto eu tinha gigantescos problemas para lidar.
— Eu entendo a sua necessidade de me evitar por todo esse tempo, Sasha, mas nós precisamos conversar! — exclamou Rebecca, chegando por trás de mim assim que eu saí da sala, algo que fez o meu coração acelerar.
— Acho que nós já conversamos o suficiente naquele dia, além disso, você havia dito que eu tinha todo o tempo do mundo para... — respondi Rebecca enquanto me virava para encará-la, mas o meu raciocínio foi completamente perdido quando me deparei com seus olhos âmbar vívidos e hipnotizantes.
Eu sabia que a humana diante de mim era apenas um dos múltiplos avatares possíveis de uma mulher Slime, sendo um disfarce para enganar os desavisados. Mesmo tendo ciência de tudo isso, a sua presença ainda me balançava profundamente, meu coração ficava apertado, ao mesmo tempo saltitante... Seria um sentimento de saudade pelas duas semanas em que ficamos afastadas?
— Recebi mensagens preocupantes da Legião da Magia, por isso decidi abordá-la — informou Rebecca, cochichando próximo ao meu ouvido, exibindo um semblante bastante sério. — Podemos conversar em algum lugar reservado mais tarde?
— Sim, sim, pode ser, desde que não seja novamente num ambiente como aquele! — confirmei, sentindo as minhas bochechas esquentarem ao relembrar do quarto de motel de outrora.
— Depois das aulas te esperarei na sua praça favorita lá no centro, encontre-me no chafariz — disse Rebecca, em tom imperativo, sem sequer aguardar pela minha resposta, rumando apressadamente pelos corredores do colégio até sumir de vista no meio de tantos estudantes.
— Pelo visto eu sou realmente uma peça num tabuleiro... — admiti, emitindo um arquejo aflito.
****
Depois das aulas, peguei um ônibus e desci no ponto em frente à minha praça favorita. Como era o período do dia e eu não estava trajando o meu manto de super-heroína, não poderia recorrer à magia de voo para me deslocar até os lugares. Como Sasha Viana — uma reles mortal —, poderia contar apenas com as minhas pernas ou com o meu vale-transporte de estudante.
Rebecca, no entanto, certamente usou sua magia ou habilidades metamórficas de Slime, pois já se encontrava na praça. Estando sentada na borda do chafariz quebrado, com o sol de meio-dia escaldante sobre sua cabeça na clareira longe das sombras salvadoras das árvores.
— A pedra do chafariz deve estar escaldante com esse sol infernal — atestei ao me aproximar dela. — Não está queimando o seu traseiro?
— Slimes possuem grande resistência a altas temperaturas, isso não é nada — ela respondeu, estoica. — Além disso, o sol espantou as pessoas desse local, sendo bom para a nossa conversa privada.
— A albina aqui que se ferre nesse sol! — retruquei, revoltada com o descaso dela, pois antes ela ao menos demonstrava se preocupar com a sensibilidade da minha pele.
— Não preciso mais fingir não saber que você possui os seus mecanismos de defesa mágicos para se proteger dos raios solares, mas se quiser eu te empresto a minha sombrinha! — retorquiu Rebecca, secamente.
— Tá, tá, vamos direto ao ponto da conversa então — solicitei, estando irritada com a nítida apatia dela.
— A Anciã da Magia Ursula Maxouver enviou para mim uma mensagem telepática informando que os planos de Saikon avançaram de maneira exponencial, gerando uma crise universal sem precedentes — informou Rebecca, fitando-me atentamente com seus olhos de mel.
— O quê? Anciã da Magia? Ursula Maxouver? Quem seria essa pessoa? — indaguei-a, bastante confusa.
— Um Ancião da Magia é a alcunha dada a um dos líderes supremos da Legião da Magia. Eles recebem uma dádiva de Lumine que os permitem viver por milhares de anos, por isso são todos conhecidos como anciões. — explicou Rebecca, pacientemente. — Ursula Maxouver é a mais nova líder consagrada por Lumine e treinada pela antiga líder, Katrina Muon. Ursula foi a grande responsável por reestruturar a Legião da Magia, já que a ordem mágica sofrera grandes perdas e danos graças aos antigos conflitos contra Saikon e seus seguidores. Por seu excelente trabalho, hoje a Anciã Ursula Maxouver é a principal porta-voz da organização.
— Entendi, entendi! — balancei afirmativamente a cabeça enquanto cruzava os meus braços. — Essa líder suprema chamada Ursula Maxouver está usando você como uma mensageira, provavelmente com o objetivo de me recrutar para a causa da luta de que todos falam, a tal providência divina. Eu sabia que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde... — finalizei dando de ombros.
— Não tenho certeza, Sasha, pois nem eu recebi a informação completa do que está acontecendo. A Anciã da Magia apenas enfatizou que pretende conversar com você e sua mãe pessoalmente! Minha função é apenas anunciar esse encontro que logo irá acontecer — informou Rebecca.
— Pessoalmente?! — interpelei, alarmada, perdendo até mesmo a minha pose, cambaleando para a esquerda. — Minha mãe não será uma boa anfitriã, pois ela não nutre nenhuma simpatia pela Legião da Magia. Sem contar que ela deseja me ver completamente fora de toda essa loucura.
Rebecca não respondeu às minhas alegações, ao invés disso, apenas me entregou um pequeno estojo redondo de pó compacto. Ao abri-lo, apenas pude contemplar o meu reflexo no pequeno espelho na parte interna da tampa do estojo, não sendo nada anormal.
— O espelho presente no apetrecho de maquiagem é encantado com um portal poderoso — informou minha ex-melhor amiga, provavelmente percebendo a dúvida estampada no meu rosto ao ter recebido tal singelo presente num momento desses. — Através desse espelho poderá se comunicar diretamente com Ursula Maxouver, além disso, caso permita o acesso, poderá abrir um portal para que a Anciã da Magia se apresente diante de você e sua mãe.
Olhei assustada para o pequeno espelhinho do estojo de pó compacto, mas depois confrontei Rebecca, erguendo uma sobrancelha.
— Por que tanto suspense, Rebecca? Sempre haverá segredos entre nós? — indaguei-a, mas só recebi o silêncio como resposta e um olhar cabisbaixo por parte dela. — Sei que para você eu sou apenas uma missão que precisa cumprir, mas pensei que tivesse conquistado ao menos um pingo de consideração de sua parte! — comentei um tanto irritada, ainda mais por observar Rebecca não esboçando grandes reação, permanecendo apática. Fechei o estojo de pó compacto e guardando-o dentro da minha mochila. — Verei o que farei por vocês, caso sejam realmente merecedores! — minhas últimas palavras saíram com bastante desdém.
— Para ativar a função mágica do espelho basta utilizar um simples feitiço de revelação — informou Rebecca, mantendo a cabeça baixa e olhando para o chão.
— Entendido! Era somente isso o que queria tratar comigo? — perguntei, ainda revoltada.
— Sim — disse Rebecca, secamente, enquanto permanecia olhando para o chão.
— Ótimo! — exclamei, dando-lhe as costas friamente e afastando-me do chafariz e da praça, lutando contra o meu impulso de olhar para trás, enquanto seguia apressadamente para casa. Estranhamente, algumas lágrimas escorriam espontaneamente de meus olhos. Por qual motivo exatamente? Eu não tinha certeza.
****
Não mencionei nada a respeito da conversa que tive com Rebecca para a minha mãe, pois não queria preocupa-la ainda mais. Contudo, fiquei martelando em minha cabeça o fato de uma importante líder da Legião da Magia querer entrar em contato. Devido a isso, não me desgrudei do pequeno estojo de pó compacto, levando-o comigo até mesmo na minha ronda noturna sobrevoando a cidade — trajando o manto de super-heroína.
Tudo estava tranquilo naquela madrugada: sem gritos de socorro, sem traficantes nos pontos de vendas de drogas mais conhecidos da cidade, sem sinal de sequestradores perseguindo suas vítimas em becos escuros, sem atuações de ladrões arrombando casas e estabelecimentos comerciais, nem mesmo empreendendo roubos à mão armada em duplas numa motocicleta; ou seja, absolutamente nada estava acontecendo. Até as comunidades usadas como bases pelos criminosos estavam em paz, sem nenhum conflito entre facções desde a minha atuação no morro onde mora Rebecca. Ao que tudo indica, minhas atuações noturnas estavam surtindo grandes impactos na redução da criminalidade, algo que certamente me deixava orgulhosa.
Aproveitei a tranquilidade da noite para interromper a minha incursão aérea e pousar no terraço de um prédio, a fim de observar mais atentamente o artefato mágico que servia como comunicador e portal mágico — segundo Rebecca.
A lua estava cheia e resplandecia no topo do firmamento celeste, fazendo-me observar o luar através do pequeno espelho redondo do estojo de pó compacto. Permaneci por dez minutos observando o objeto até não conseguir mais me segurar no ímpeto de obter mais algumas respostas.
— Revelo! — proferi o simples feitiço de revelação.
O espelho do estojo de maquiagem mudou drasticamente de aspecto, não exibindo mais imagens refletidas, ao invés disso, pude observar olhos castanhos cuidadosamente delineados na pálpebra superior, cílios bem preenchidos e com uma sombra preta esfumada ao redor, sendo pertencentes a uma mulher imponente que me observava através do artefato.
— Q-quem é você? — perguntei receosa, utilizando o idioma local sem ter a certeza se ela compreenderia a minha pergunta naquela língua.
— Eu sou Ursula Maxouver, mais conhecida como a bruxa carmesim, Anciã da Magia de classe Arquimaga Superior, muito prazer! — a mulher respondeu de forma bastante cortês e estranhamente no mesmo idioma local usado por mim. Provavelmente o objeto mágico continha algum feitiço de tradução universal automática.
Depois da apresentação de Ursula, eu consegui vislumbrar completamente o rosto dela através dos espelho. Ela certamente era muito jovem para ser considerada como uma anciã, constatei isso em uma nota mental. A mulher possuía longos cabelos negros e lisos com franjas laterais tendo o comprimento até o queixo delicado. A face dela era branca e estava carregada de maquiagem, tendo destaque principalmente para os lábios com batom preto que davam um grande contraste em relação ao rosto pálido.
— Prazer, eu me chamo Shayana Vivens, sou uma Aniquiliana refugiada na Terra, guerreira arcana treinada pelo meu pai, o Tenente Krizy Kraken, além de filha da grande curandeira Shayera Vivens — apresentei-me, orgulhosa de minha família.
— Sei tudo sobre você e a sua família, guerreira Shayana Vivens! — informou Ursula.
Tal afirmação da líder fez com que eu lembrasse que Rebecca espionou a minha família por todos esses anos, provavelmente passando múltiplas informações para o alto escalão da Legião da Magia. Isso significava que eles saberiam sobre o desaparecimento de meu pai e possível prisão dele por parte do exército Aniquiliano.
— Já que sabe tudo sobre a minha família, poderia me dizer o que de fato aconteceu com o meu pai? — indaguei-a, aflita.
— Krizy Kraken foi considerado um desertor, além de ter sido condenado pelo Supremo Tribunal de Aniky pelo crime de facilitar a fuga da escrava Shayera Vivens, condenada por matar envenenado o seu senhor — informou a líder.
— Meu pai era um guerreiro honrado que não concordava com os crimes humanitários cometidos pelo regime de Krompton Miller! Minha mãe matou um homem, o que não foi certo, mas fez isso por ter sido escravizada e brutalmente agredida por ele! — vociferei, bastante irritada com as palavras levianas daquela mulher no espelho.
— Por favor, peço que se acalme, Shayana Vivens — pediu Ursula, sem exaltar a sua voz, mantendo a postura neutra. — Apenas lhe passei o relatório oficial do Império Aniquiliano.
— Pois esse relatório está completamente enviesado! — exclamei, determinada a defender a honra de minha família com unhas e dentes.
— A Legião da Magia realizou sua própria investigação para chegar à verdade dos fatos — continuou Ursula. — Sabemos por tudo o que a sua família passou, assim como dos crimes cometidos pelo governo de Krompton Miller. Contudo, não é a minha competência julgar, para isso existe a corte de apelação da República.
Aquela alegação me deixou bem mais tranquila, o que fez eu relaxar mais os meus ombros.
— Prosseguindo, Krizy Kraken teve o seu esconderijo descoberto pela inteligência Aniquiliana quando uma frequência eletromagnética fora interceptada de uma nave de assalto do exército Aniquiliano em atividade na Terra — disse a líder da Legião da Magia. — Através da frequência, a alta cúpula de Aniky conseguiu mapear a localização da aeronave e assim enviaram um grupo para prender o seu pai.
— Eu fui a grande culpada disso! — admiti, arrependida e envergonhada — Tudo porque a minha curiosidade juvenil fez eu ligar a nave espacial que trouxe meus pais para a Terra, pois queria vê-la em funcionamento. Quando meu pai descobriu o que eu fiz, soube que seria apenas questão de tempo até que várias patrulhas de soldados Aniquilianos fossem enviados à Terra para localizarem a minha família fugitiva. Além de nós, os terráqueos também estariam em risco com uma invasão de Aniky! Por causa disso, num ato de sacrifício para salvar a todos, meu pai disse que usaria o restante do combustível da nave para ir o mais longe que pudesse com ela, desviando o foco das patrulhas Aniquilianas para o mais distante possível da Terra. Desde então ele nunca mais foi visto, dado como morto por nós. Eu nunca irei me perdoar por isso! — afirmei chorosa.
— Não se preocupe mais, Shayana Vivens, pois o seu pai está vivo e a salvo! — revelou Ursula Maxouver, para a minha grande surpresa.
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