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*Atlas*
Não vou dizer que hoje é um dia normal porque com certeza estaria mentindo para mim mesmo. A verdade é que só de pensar que Genevieve pode rejeitar mais uma babá me dá nos nervos.
Primeiramente, nem era para essa situação acontecer já que 14 anos não é mais idade pra se ter babá. O problema é que desde que minha mãe morreu há dois anos, minha irmã vem sendo essa adolescente impossível e rebelde e eu já não sei o que fazer.
Meu pai, que é quem deveria se preocupar com isso, está muito ocupado com seu trabalho como diretor do Teddington Memorial Hospital e sendo assim não tem tempo para praticamente nada, inclusive cuidar de sua filha mais nova. Desde a morte de minha mãe sou eu quem cuida de Genevieve, e sendo assim sou eu quem tenho que lidar com as centenas de babás que ela recusou.
A candidata de hoje, Vanora - a mulher do café - é a minha última tentativa com Genevieve. Se nem mesmo a brasileira conseguir cair em suas graças, com certeza vou mandar minha irmã para morar com meu pai. Afinal, nada disso é problema meu e não me importo se ele não tiver tempo.
O engraçado é que eu tenho a impressão de que elas vão se dar bem. Vanora não é como nenhuma das babás que eu já contratei. Seu temperamento forte se parece muito com o de Genevieve, assim como toda aquela rebeldia jovem. A pior coisa de tudo isso é que elas realmente se derem bem terei que conviver com duas mulheres impossíveis ao invés de só uma.
Felizmente meu trabalho me faz ficar longe de casa pela maior parte do dia, e é a coisa mais importante do mundo para mim. Meu pai me passou o amor pela medicina, mas ao contrário dele eu resolvi me especializar em pediatria e abri minha própria clínica pois não queria ficar preso a um hospital. Amo o que faço de todo meu coração.
Hoje é uma quarta feira, e tirei o dia de folga para resolver a situação com Gen e a (possível) nova babá, já aproveitando para fazer a minha segunda coisa favorita no mundo enquanto a moça não chega: tocar piano.
Para dizer a verdade, quando vi Vanora naquele café minha primeira reação não foi pensar nela para o emprego em aberto. Ela estava sentada em uma mesa perto da saída e mesmo antes de me aproximar já havia percebido a tristeza melancólica em seus olhos. Quem era ela e porque estava sozinha ali naquele lugar? Sem pensar direito pedi um cappucinno com canela - meu favorito - e o qual sempre me deixa melhor quando estou triste. Era uma oferta amigável, eu não planejava assusta-la ou alguma coisa do tipo. Só sei que seu mal estar estava me incomodando, então quis ajudá-la assim como eu fazia comigo mesmo.
Quando descobriu fechou a cara de tal forma que era como se o estabelecimento tivesse escurecido subitamente. Me sentei junto a ela para tentar consertar a situação, mas logo descobri que seria bem difícil. Sua personalidade me intrigou de uma forma que nunca antes havia acontecido. Tudo o que ela mostra ao mundo é para impedir as pessoas de se aproximarem, é como uma casca em volta de si mesma, feita para sua proteção. Sei bem como é, pois de alguma forma eu fiz o mesmo quando minha mãe me deixou e o mundo caiu ao meu redor. E foi por isso que falei sobre o emprego. Eu queria ajudá-la, eu precisava disso.
Sim, eu sei que isso é um sentimento estranho para se cultivar por uma estranha.
No entanto não me arrependo. Acabei matando dois coelhos com uma cajadada só. Quer dizer, SE ela aceitar o trabalho.
Já é quase 10 horas quando Beth, minha cozinheira, vem avisar que uma "moça bonita" chegou. Digo a ela para acomoda-la na sala de visitas e respiro fundo.
Agora vem a parte difícil.
...
__ oi querida. __ digo, ao abrir a porta do quarto da minha irmã.
Sua forma esguia está encolhida na cama, os olhos azuis focados na janela onde se pode ver as gotas de chuva escorrendo através do vidro. Ela não responde meu cumprimento. Simplesmente continua assistindo a chuva como se fosse a coisa mais interessante que existe.
Sento na beira de sua cama e passo a mão por seus cabelos escuros, desejando pela centésima vez - só hoje - que nossa mãe ainda estivesse aqui conosco.
__ eu tenho uma novidade Gen.
Com isso consigo sua atenção.
__ se for sobre mais uma daquelas sonsas eu não quero ouvir. __ diz ela, se afastando de mim para entrar no banheiro.
Ando mais rápido que ela e bloqueio seu caminho, forçando-a a me olhar.
__ você sabe que isso não pode durar para sempre Genevieve. As coisas não são assim.
__ eu não me importo com o que você ou qualquer um acha. Sai da frente da porta Atlas.
__ não.
Gen encolhe os ombros não se importando e vai até a cômoda pegar seu celular junto com o fone. Antes que ela possa coloca-los pego de sua mão recebendo um gritinho como reação.
__ me devolve At....
__ não. Presta atenção em mim agora. __ seus olhos reviram mas eu não paro. __ você vai descer e conversar com a mulher, você está me entendendo? Você não vai ser grossa com ela. Você não vai fazer birra. Eu estou cheio disso. Genevieve você não é mais uma criança, é isso que você precisa entender. Eu sei que é complicado, você sabe que eu passei pelo mesmo. Mas isso não pode durar para sempre. Você não vai se recusar mais a ir no psicólogo e vai se esforçar para ser gentil com todos. Eu estou aqui com você, mas só posso te ajudar se você permitir. Nós vamos superar isso juntos. Okay?
Ela me olha com os olhos tristes de costume e assente.
__ você não precisa gostar dela de imediato. Somente a dê uma chance. Se não der certo a gente vê o que faz depois. Agora vamos descer.
E lá vamos nós.
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