Continue, isso não é opcional

Querida Zilda do futuro,

É bem difícil imaginar um tempo em que você possa pensar em desistir da escrita, mas nós duas sabemos que isso já aconteceu antes e que pode acontecer de novo. Lembra de quando tínhamos 10 anos e juramos nunca mais criar nada depois de sermos ridicularizadas pelo nosso pai? Eu nunca esqueci, mas superei. Desde muito cedo tivemos que lutar pelo direito de viver entre os livros e nas incríveis histórias que sempre habitaram nossa mente inquieta e barulhenta.

Foi essa capacidade que nos permitiu sobreviver a uma adolescência impossível e uma juventude cruel. Continuamos respirando porque nos cadernos velhos e a letra feia, havia um mundo melhor, onde tínhamos controle sobre o bem e o mal, além de podermos falar sem sofrer julgamentos, críticas e retaliações.

As dificuldades e a desilusão sempre virão, como vieram essa semana de tantos lados que eu tenho me sentido em final de fase, num vídeo game impossível de vencer. Mas nós somos fortes, sempre fomos. Pode ser que haja a necessidade de esconder a cabeça e esperar passar, mas a gente sobrevive e continua. As histórias presas na nossa alma precisam sair e a única maneira disso acontecer é irem para o papel. Por isso, não pare; nem que os dedos sangrem, que a alma queime, que as lágrimas embacem a vista, continue. Isso não é opcional.

Lembre-se da insegurança antes de sair do armário e contar ao mundo que você escrevia, da emoção quando um primeiro leitor te encontrou na internet e agradeceu por ter escrito algo que o tocou, da felicidade incomparável no lançamento do primeiro livro, do orgulho nos olhos das pessoas que te apoiaram até lá. Não importa o que aconteceu depois, nada no mundo vai apagar aquele momento. Você aprendeu e melhorou muito, isso te mudou por dentro. Lembre-se que mesmo quando se torna incapaz de sentir por saber que a dor é maior do que pode suportar, você ainda vai despertar ao descrever uma cena cotidiana e perceber a beleza insubstituível existente ali e fazer perceber o quanto a vida é preciosa.

O mais importante a recordar é que ser lida é uma coisa muito boa e foi onde você encontrou seu lugar no mundo, mas que escrever é tão necessário quanto respirar. Continue, que tudo vai passar, como sempre passou.

Zilda Mariano,

Maio de 2018 

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