As linhas em branco desafiam a nós
Rio de janeiro, 27 de maio de 2018
"Escrevo porque sinto necessidade de escrever, claro! É uma coisa que também não se pode explicar muito bem... escrevo porque há essa necessidade interior. Não sei dar outra explicação: é uma coisa que, de certa maneira, me é dada..." disse António Ramos Rosa. Não ouso escrever que poderia ter sido eu o dono dessa frase, isso jamais, entretanto eu o entendendo. Eu o entendendo quando as palavras ameaçam faltar e as linhas tornam-se um desafio maior do que entender o sentido da vida, mas a necessidade não se satisfaz nem se abate diante de tal confronto; até mais além disso, ela se torna mais faminta ainda.
Lembro-me de um dia no qual eu estava indo de ônibus para minha faculdade na baixada fluminense, outro dia qualquer na vida de mais um universitário suburbano do Rio de Janeiro. E, como se o acaso fosse uma criança levada, o perfume de um dos passageiros me assaltou a memória, eu nem saberia dizer se esse passageiro havia saído do ônibus ou se estava sentado em algum banco a minha frente, nada disso. Eu só sabia daquele perfume; uma fragrância recheada de memórias das quais o pobre passageiro era totalmente leigo, e da necessidade de expressar tudo. Me era necessário (e ainda me é se estiver curioso em me perguntar) botar para fora, para o mundo, que aquele cheiro ainda me recordava de um passado não tão bem enterrado assim.
E de necessidade em necessidade, se fez linhas; do beijo não dado, das mãos entrelaçadas em segredo, de sorriso tímido e apavorado, porém feliz. Porque é assim. As linhas em branco desafiam a nós, seres íntimos às suas demandas, a escrever, a discorrer, a versar, a prosar... E saúda- nos os olhos que leem isso. Olhos que enxergam e encaram toda a sorte de vilanias e bonanças que a vida nos apresenta junto a nós.
É por necessidade. Clara e faminta. Afiada e intrínseca. Do apaixonado ao marginalizado, foi necessário. E não há quem a explique inteiramente. Pode perguntar quais e quantas perguntas forem, uma hora a boca torcerá em silêncio culposo, faltará resposta. E por essas e outras, que nem sempre um texto será tão claro assim, que um texto será totalmente descartado por mais que gramaticalmente esteja perfeito, que um texto nunca sairá da mente de seu autor, por um simples e inexplicável motivo:
A sua necessidade não foi satisfeita ainda.
Matheus de Andrade Santos
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