5: Fim de Férias 🍉
Na noite seguinte aconteceu a tradicional festa da melancia, que coincidia com o aniversário da cidade e os produtores, inclusive Geraldo Gonçalves e família, estavam expondo seus produtos. Doces, geléias, sucos, néctares, xaropes para acompanhamento em panquecas, sorvetes e tudo o mais que fosse possível de ser feito com melancia havia ali. Eduardo achou interessante que até mesmo a casca da fruta era aproveitada em várias receitas e que haveriam vários concursos temáticos: a maior melancia produzida, o maior comedor de melancia, e a eleição da miss.
Ele e Marcela foram uma atração à parte na festividade, assunto entre os rapazes e moças que os viam passar de mãos dadas entre as barracas e visitar algumas delas, como do tiro ao alvo e do lançamento de argolas. O par de brincos e o algodão doce que Eduardo conseguiu como prêmios foram dados a Marcela.
No fim da noite, os dois seguiram de moto enquanto a família Gonçalves ia na frente de carro para a propriedade. Uma forte chuva logo começou a cair e eles comemoraram o fato de o clima ter colaborado durante todo o festival e a água torrencial ter vindo só no início da madrugada.
No quarto de Liliane, Marcela rolava na cama enquanto via a amiga na cama ao lado, dormindo tranquilamente sem perceber que os relâmpagos que entravam pela janela iluminavam seu rosto. Então resolveu se levantar e ir até a cozinha tomar água, sem estranhar a luz que, naquele cômodo, Regiane costumava sempre manter acesa durante a madrugada. Ao chegar lá e ver Eduardo de costas diante do balcão usando unicamente a calça do pijama e bebendo um copo d'água, não soube o que fazer e não conseguiu deixar de analisá-lo. Ele sentiu que era observado e virou-se para trás, fazendo com que o flagrante a deixasse ainda mais desconcertada.
Ao vê-la parada, em trajes de dormir, um percorreu os olhos sobre o outro e perceberam simultaneamente que nada ali estava colaborando para o bem comum.
— Achei que estivesse dormindo há muito tempo.
— Eu... eu não sabia que... - Marcela não conseguiu terminar a frase, imersa em uma confusão de sentimentos que incluíam timidez, curiosidade e um interesse repentino quase incontrolável.
— Aconteceu alguma coisa? Parece preocupada.
Ela respirou fundo.
— Lembra que em uma daquelas noites ali no campo te contei que uma vez minha casa foi destelhada? - Marcela expirou novamente. — É sempre assim quando chove à noite. Eu... estou com medo.
Eduardo teve plena convicção de que estava encurralado. Estava sozinho naquele ambiente desfavorável com a namorada que, diante de si, estava confessando estar com medo. Ele sabia exatamente o que não deveria fazer e foi justamente o que fez, o que não devia, quando deixou o copo e, indo na direção dela a abraçou. Marcela o abraçou de volta e deu um suspiro trêmulo que parecia tudo, menos medo. Parecia a satisfação de ter seu desejo realizado. Ou ainda não.
Ela tomou coragem e deslizou as mãos sobre as costas dele que, com a concessão, a beijou esquecendo-se dos conselhos que lhe dera na noite anterior. Os dois se entregaram ao momento ignorando onde estavam, até que foram interrompidos pela voz austera de Geraldo, que encheu o ambiente com mais força que os trovões que estrondavam lá fora:
— O que vocês acham que estão fazendo na minha cozinha? - O beijo cessou imediatamente e o casal agora estava corado e cabisbaixo.
— Desculpa, tio. A gente... estava conversando.
— Aqui no interior a gente costuma conversar com uma distância segura, Eduardo. Já para o quarto do seu primo.
— Sim, senhor.
— E a senhorita para o quarto da Lili, mocinha.
— Sim, senhor.
Tanto Júnior quanto Liliane já haviam acordado com os berros do pai e provavelmente Regiane também, porém, respeitando a autoridade dele, ninguém saiu para ver o espetáculo. Ao entrar no quarto e ver Júnior bem acordado, Eduardo desviou o olhar, em silêncio.
— Eu pedi que tivesse juízo, primo.
— Eu tenho, Juninho. Quer dizer, tinha. A Marcela... - Ele se sentou na beirada da cama. — A Marcela é diferente, sabe? Ela é intensa, ela se entrega, ela confia em mim. Como posso resistir a isso?
— Sua ex não era assim?
— Não, não, não, de forma alguma. Era uma menina experiente, filhinha de papai, descartava as pessoas assim como as centenas de roupas e sapatos dela, achei que comigo ia ser diferente, mas não foi e paguei pra ver. Mas a Marcela... deu o primeiro beijo dela pra mim, ela não quis ninguém daqui, ela me escolheu. Cara... na boa, isso me enlouquece.
— E isso me preocupa.
No quarto das meninas, Liliane também estava sentada na cama esperando, quando Marcela entrou e foi se deitar, fingindo que nada havia acontecido. Ao perceber que o silêncio de Liliane era um indicativo que esperava que dissesse algo, tentou se explicar:
— Eu não sabia que ele estava lá. Desculpa por infringir as regras da sua casa.
— E suas regras, Marcela? Quais são?
— Como assim?
— Bom, eu me propus a namorar apenas depois dos dezoito, com alguém que acredita no mesmo que eu e que me respeite. E você, qual é o seu plano? Quais são os seus critérios?
— Você sabe que tenho padrões altos também. Antes do Du nunca tinha ficado com ninguém e passei a adolescência sofrendo afrontas desses meninos por isso. Eu também tenho meus princípios.
— Tem ou tinha? Talvez você os tivesse porque ainda não havia encontrado ninguém que te interessasse, mas agora...
— Ah, Lili... - Ela se jogou na cama e olhou para o teto. — Você não sabe o que é se apaixonar, teoria e prática são bem diferentes. Com o Eduardo realmente eu crio coragem de certas coisas que há dias atrás nunca imaginaria. Você é minha melhor amiga, quase uma irmã, então posso te confessar que hoje eu teria me entregado a ele sem medo algum. Eu não sei exatamente como as coisas rolam, mas adoraria descobrir com ele.
— Meu Deus, ajuda essa menina que não sabe o que diz - Liliane olhava para o teto com as mãos levantadas e então voltou-se para Marcela: — Acho que eu realmente não sei o que é me apaixonar, e se for isso, perder a noção, prefiro continuar sem saber.
***
O dia seguinte era o último da estadia de Eduardo em Pracinha e ele pretendia passá-lo com Marcela. Entretanto, ela ligou para o pai ir buscá-la logo pela manhã, ainda estava envergonhada pelo incidente da noite anterior. Eduardo aproveitou para ficar com os parentes, pois iria partir apenas no fim da tarde, que foi quando Marcela retornou com Roberto.
Todos estavam se despedindo dele no campo, onde já havia colocado a mochila sobre a moto e também já havia abraçado a todos, deixando a namorada por último. Quando chegou diante dela, Marcela entregou um pacote, que ele abriu e viu uma toalha com seu nome bordado e também um cachecol.
— Foram feitos por mim. O cachecol fiz no inverno passado e guardei, esperando um dia poder dar pra alguém. E o bordado com seu nome comecei no dia em que você foi falar com meu pai.
— Que garotinha prendada.
— Sou tipicamente do interior.
Os dois se abraçaram, às vistas de todos os que estavam ali: Geraldo, Regiane, Júnior, Cíntia, Liliane e Roberto.
— Promete que vai me ligar todos os dias? - Marcela pediu, com os olhos cheios de lágrimas, que Eduardo enxugou.
— Prometo. E logo vou vir te buscar pra prestar o vestibular lá em São Paulo e conhecer minha família.
— Vou te esperar, eu te amo.
Ele ficou comovido, também encheu os olhos de lágrimas e respondeu:
— Eu também te amo.
Liliane balançava a cabeça em negação pelo fato de ambos se conhecerem há um mês e já estarem declarando que se amavam.
O beijo de despedida não foi tão longo quanto eles gostariam e finalmente Eduardo partiu, levantando poeira e fazendo o ronco da moto ecoar por ali pela última vez, trazendo uma profunda tristeza para Marcela. Era hora de voltar à realidade de antes das férias.
Quando as aulas voltaram, Marcela já não ouvia mais o famigerado "mas que tratore". Parecia que ela havia se tornado uma adulta respeitável e os garotos abaixavam a cabeça quando passava, fato que contou a Eduardo logo em uma das primeiras ligações.
Eles conversavam por telefone todos os dias, mas não por muito tempo, pois ela não tinha a privacidade de um celular e recebia as chamadas nos telefones fixos de casa ou da mercearia. Juntamente com Liliane, Marcela estudava para o vestibular e com a desculpa dos estudos, nunca mais havia visitado a igreja da amiga.
Na capital, Eduardo continuou fazendo Ciência da Computação na universidade e passava a maior parte do tempo sozinho após a decepção com Jeniffer e seu melhor amigo. Ele sempre via a ex-namorada pelo campus, mas geralmente com as amigas, o que era um forte indício de que o relacionamento iniciado com uma traição talvez já tivesse chegado ao fim por causa de outra.
Novembro finalmente chegou e Eduardo estava pronto para ir visitar os primos no interior, onde participaria do noivado de Júnior e Cíntia e em seguida levaria Marcela a São Paulo para prestar o vestibular e conhecer sua família. Enquanto arrumava as malas, a mãe foi avisá-lo que Jeniffer havia interfonado da portaria do prédio e, por mais que ela tivesse tentado convencê-la de que Eduardo não queria conversar, a garota insistiu incansavelmente.
— Pode deixar subir, mãe. Talvez seja melhor colocar um ponto final oficialmente nessa história.
A mãe concordou, sabendo que ele estava namorando Marcela e estava feliz por saber que era uma menina simples do interior, assim como ela já havia sido.
Quando Jeniffer tocou a campainha, Eduardo abriu e, ao vê-la, perguntou a si mesmo o que havia visto naquela garota. Para qualquer pessoa deste mundo ela seria linda, mas era uma beleza artificial e para piorar, Jeniffer tentava esconder seus traços dóceis com uma maquiagem pesada. Era loira, de olhos azuis, mas não queria nem de longe parecer angelical, queria ser vista como a vilã da própria história e, para isso, abusava de um estilo sombrio da cabeça aos pés.
— Podemos conversar, Du?
— Desde que seja rápido, tudo bem, estou me preparando pra viajar amanhã cedo. Entra.
Jeniffer obedeceu e perguntou enquanto entrava:
— Ah, é? Vai pra onde, se estamos em aula na facul?
— É só um fim de semana. Vou ver meus primos no interior e buscar minha namorada.
Jeniffer desistiu de sentar em um dos sofás e o encarou, completamente incrédula:
— Não sabia que estava namorando.
— Pois é, estou.
— Uma garota da terra dos seus primos, Eduardo? Uma caipira?
— Meça suas palavras, moça. O que você queria?
— Esquece. Só achei que... sei lá, você fosse mais esperto. Esquece.
Ela virou as costas e saiu, sem dar a Eduardo a chance de dizer tudo o que gostaria e de acabar com qualquer resquício de esperança que Jeniffer pudesse ter em reatar.
***
E então, gente? O que acham que vai acontecer agora? Rsrs
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