8. Lar doce lar


Nós sempre soubemos que viria a isto
São em horas como essa que eu esqueço o que eu sinto falta
Assuntos do coração são difíceis de discutir
Especialmente quando o seu está completamente vazio
(So Long goodbye - Sum 41)

─ Não! A resposta é não!

─ Olha, Allie...

─ Não, Winston! Eu amo a sua mãe, a considero minha também, mas não vou mais me sujeitar a isso ─ relaxei o corpo no sofá, o encarando de braços cruzados sobre o peito ─ Ele não significa mais nada pra mim.

─ E a Kat?

─ Isso não é justo e você sabe ─ alterei meu tom de voz, sustentando o olhar dele ─ Não me julgue por ter ido embora, eu só tinha dezessete anos.

─ E ela só tem dez ─ ele rebateu ─ Está assustada e precisando de você.

─ Eu não sou a mãe dela.

O silêncio de Winston agiu em mim feito um sermão, fazendo com que eu me sentisse uma filha da puta egoísta. No fundo, eu compreendia seu desapontamento e queria poder lhe causar orgulho, mas os monstros que me assombravam eram bem mais convincentes do que a carranca do meu amigo.

─ Ei, Allie! Onde eu coloco essas porcarias? ─ Shawn invadiu a sala segurando alguns livros antigos, coisas que eu trouxera de Nova Jersey e simplesmente deixei jogados, todos esses meses, num canto do antigo apartamento ─ Credo! Que clima de velório é esse?

─ Deixa aí, amanhã eu pergunto ao Adam se posso guardar na estante, junto com os dele ─ disse, abstraindo o comentário irônico.

─ Tá e porque vocês estão com essas caras? ─ Shawn insistiu.

─ Por nada. O Winston já estava indo. Não é? ─ levantei, caminhando até a porta e a abri.

Winston assentiu, mas quando passou por mim, olhou bem para o meu rosto, com seu semblante recriminador ─ É, eu estava sim. Mas se quer saber, deveria jogar os livros fora, ou simplesmente esquecê-los por aí, já que fazem parte do passado.

Assim que ele nos deixou, os olhos de Shawn recaíram sobre mim, inquisidores, ainda que houvesse neles uma pontada de diversão ─ Sabe, eu não sou ciumento, mas esse clima de piadas internas está me deixando com uma leve dor de cotovelo.

Não lhe dei atenção, ao invés disso, decidi mudar de assunto ─ Acho que terminamos por aqui. Quer sair ou pedimos uma pizza?

─ Pizza é uma boa! ─ Shawn se rendeu, afundando o corpo entre as almofadas do sofá e analisando o cômodo ao nosso redor ─ Acho que fizemos um ótimo trabalho.

Concordei, me lançando ao seu lado e o abraçando, afetuosamente ─ Obrigada por isso, amigo.

Foram três longos dias, mas com a ajuda de Shawn, finalmente consegui deixar o novo apartamento bem confortável, além de mais aconchegante e com a minha cara do que o antigo. O lugar era um pouco menor do que o outro, mas com jeitinho foi possível acomodar todas as minhas coisas.

Além de Winston, Zoey também deu uma passada e os dois ajudaram a carregar tudo, mas Shawn tem um ótimo gosto, então preferi que só ele ficasse para me ajudar com a decoração, além disso, eu odiava o clima hostil que se instaurava sempre que meus dois melhores amigos se esbarravam, então seguia dividindo meu tempo entre eles.

Eu ainda estava abalada pela discussão com Winston e o calor atípico me fazia implorar por um banho e uma roupa confortável, então pedi que Shawn aguardasse a entrega da comida e rumei para o banheiro.

Me despi e abri o chuveiro, fechei meus olhos, deixando que a água quente caísse sobre os meus ombros, me fazendo relaxar e por ironia, me ajudando a esfriar um pouco a cabeça. Eu precisava tomar uma decisão e embora estivesse postergando isso por um bom tempo, no fundo eu sabia que teria de fazer uma escolha.

Quando desliguei o chuveiro, escutei o barulho da campainha tocar. Dei um grito para que Shawn a atendesse, enquanto eu terminava de me enxugar. Ouvi ele falar algo com alguém e julguei ser o entregador, me enrolei em um roupão leve e saí.

─ Algum problema, Shawn? Não consegui te ouvir lá do banheiro ─ sou pega de surpresa, parando em meio a sala, me deparando com o rapaz de olhos bonitos ─ Ei, você!

─ Ei! Pensei em passar para ver como você estava, se conseguiu se instalar, mas... bem, já vi que sim ─ seus olhos correram rapidamente pelo decote que se formava pela peça fina em meu corpo, se desviando em seguida, visivelmente constrangido ─ Fez um ótimo trabalho com esse lugar.

─ Obrigada. ─ falei, ajeitando discretamente a fita que prendia o roupão ─ Meus amigos me ajudaram com tudo.

Shawn, parado atrás de Adam, inclinou a cabeça levemente paro o lado esquerdo, com um sorriso sugestivo estampando os lábios.

─ Eu não quis atrapalhar, só vim mesmo ver o que está achando do apartamento ─ a tensão era palpável, enquanto ele continuava olhando para mim, com embaraço ─ Acho que já vou indo.

─ Adam, esse é o Shawn ─ o clima esquisito de certo modo se fazia cômico, pois era nítido que o garoto achava que havia interrompido algo entre Shawn e eu ─ Ele é meu melhor amigo e é gay. Nós pedimos pizza, não quer ficar e comer com a gente?

Ele riu de nervoso, soltando o ar dos pulmões e relaxando um pouco os ombros - Ahm... eu adoraria.

Depois do breve constrangimento, nos juntamos na sala e ficamos conversando, enquanto esperávamos pela comida. Adam era um cara bem culto para sua idade, além de literatura, descobri que ele apreciava teatro, um pouco de música clássica e que seu maior sonho era abrir uma espécie de ambiente que juntasse todas essas coisas, mas de um jeito mais acessível, que fizesse os mais jovens se interessarem pelo clássico, sem perder a jovialidade.

Eu estava achando o assunto fascinante. Sempre gostei de pessoas que conseguem quebrar conceitos, transformar paradigmas e que vão de Led Zeppelin à Chopin com maestria. Adam era do tipo que você conseguiria conversar sobre qualquer assunto, diferente dos caras com quem eu costumava sair, cheios de duplos sentidos e frases prontas, sem nada a agregar além de uma noite de sexo quente.

Shawn, por outro lado, não compartilhava do mesmo pensamento que eu, então acabou dormindo ao meu lado, depois de cinco fatias de pizza e algumas garrafas de cerveja.

Adam se ofereceu para preparar margaritas e enquanto ele se mexia em minha minúscula cozinha, eu o analisava, como já havia feito durante todo o tempo em que estivemos juntos.

Seus olhos causariam inveja aos mais bonitos mares da Grécia. O corpo deliciosamente desenhado por Zeus e um cheiro de homem que enlouqueceria qualquer mulher. Adam, com certeza, teria muitas chances de levar o título de Deus grego da beleza.

Era inevitável pensar em como aquela noite poderia terminar, com nós dois embolados nos lençóis da minha nova cama, suados e ofegantes, transando loucamente até o nascer do sol. Adam seria uma bela aquisição para o meu livro, mas além da óbvia ótima aparência física, não foi difícil perceber que Adam não era um homem qualquer, como os tantos que passaram por minha vida.

Ele era sensível, engraçado, generoso e mesmo sabendo que é impossível conhecer totalmente uma pessoa em tão pouco tempo, senti que sua alma se encontrava ferida, evidenciando o quão quebrado emocionalmente ele era. Assim como eu.

─ E então, Adam ─ quebrei o silêncio que nos envolvia a tempo demais, dando meu primeiro gole no coquetel que ele preparara ─ Me fala mais de você. O que faz pra se divertir? Tem família aqui em Nova York, amigos, namorada...?

Temi estar sendo muito evasiva, mas a curiosidade imperava em mim. Eu precisava entender o porquê de ele ter ficado tão nostálgico no outro dia e sabia que se não desse início a conversa, ele nunca me contaria.

Adam negou com a cabeça, se desviando do meu contato visual e pegando da caixa um pedaço de pizza fria ─ Você me parece bem persuasiva. Não vai desistir se eu não te contar. Não é?

─ Foi só uma pergunta inocente ─ disse, despretensiosamente ─ Ah, vai! - Me virei, afundando os joelhos no sofá e os dentes no último pedaço de pepperoni - Me conte o que houve com esse pobre coraçãozinho?

Não quis ser sarcástica, nem parecer insensível, mas não sei medir bem as palavras e foi exatamente assim que soei, embora Adam não houvesse notado ou apenas ─ como eu pensei ─ estava precisando desabafar e resolveu ignorar minha falta de jeito.

─ Eu nasci de uma traição ─ ele começou a falar, com o olhar perdido, como se tivesse sido transportado para o local de sua dor ─ Meu pai a amava tanto que perdoou seu deslize e resolveu que me criaria como seu filho legitimo, mas minha mãe não conseguia se contentar com a vida que tínhamos então nos abandonou, quando eu tinha apenas seis anos. O golpe foi muito duro pra Jerome e eu passei a ser o símbolo de seu casamento fracassado. Quando o homem que eu amava como meu pai, arranjou um emprego e levou meu irmão com ele, meu tio, irmão da minha mãe ficou aqui, cuidando do bar e de mim por um tempo. Ele me batia quase todos os dias e eu vivia da bondade dos vizinhos e das sobras que Jerome trazia quando vinha me ver nos finais de semana, até que ele morreu, meu irmão sumiu no mundo e eu fiquei sozinho.

Sem detença, a história de Adam levou meus pensamentos a um ponto de minha própria vida.

─ O que aconteceu com o seu tio? ─ perguntei.

─ Vivia caído pela sarjeta, bêbado e drogado, até que eu completei a maioridade, assumi o bar que era meu por direito e nunca mais o vi. A última vez que falei com ele, estava ligando da cadeia, preso por causa de uma briga de bar ─ seus olhos cintilavam em lágrimas que se acumulavam em suas pálpebras ─ Eu nunca tive muitos amigos, por não conseguir confiar inteiramente em alguém ─ ele prosseguiu, ainda envolto em sua emoção ─ Até conhecer ela.

─ E o que ela fez para te decepcionar?

─ Eu a pedi em casamento e ela disse não. Depois disso não conseguimos continuar.

─ Talvez ela só não estivesse pronta para assumir uma relação tão séria como o casamento ─ eu realmente não conseguia entender como um pedido desse poderia ter destruído um relacionamento.

Adam puxou o ar e soltou a fatia de pizza que segurava ─ Acontece que ela nunca quis casar, e nem ter filhos e aparentemente achou que não seria importante me contar isso durante todo o tempo que vivemos juntos.

─ Que droga! ─ foi só o que pude dizer, deixando meu olhar se perder pela janela, na imensidão escura lá fora.

─ Sabe, Allie ─ sua voz tristonha me faz voltar a atenção para seu rosto novamente ─ Eu só queria que ela tivesse falado comigo, confiado em mim e não me feito de idiota. Ela sabia o quanto essas coisas eram importantes pra mim e mesmo assim preferiu levar a relação adiante.

Me concentrei em uma nova fatia de pizza, sem saber como agir, ou o que dizer para confortá-lo. Eu estava certa, Adam havia sido machucado, quebrado, assim como eu. Nossas histórias eram diferentes, mas a dor era a mesma, a dor da desilusão. Um sentimento doloroso de ter sido enganado.

Depois de um tempo em silêncio, procurei seus olhos, deixando que os meus lhe transmitissem algum tipo de aconchego e disse a única coisa que julguei possível ─ Sinto muito, Adam!

Ele soltou o ar preso nos pulmões e ficou por um minuto me analisando. Em seguida, se aproximou, retirando a comida de minhas mãos e depositando sobre a caixa, na mesa de centro. Fui pega de surpresa, quando lentamente, seu corpo se curvou sobre mim e gentilmente seus lábios carnudos tocaram os meus, num beijo calmo e contido.

Seu toque era doce e carinhoso, como eu jamais havia provado de um homem. Sua mão tocava meu rosto com delicadeza e eu quase pude sentir que ele se entregava a um sentimento que a muito tempo fugia.

Quando nos separamos, abri os olhos e me deparei com aquele rosto de menino, numa expressão triste e de olhar baixo, que parecia conter um choro aprisionado dentro de si por meses.

Adam era, com toda certeza do mundo, a única exceção, dos homens com quem esbarrei em toda minha vida. Ele me fazia sentir mal por pensar em apenas usá-lo e mesmo que pudesse estar profundamente enganada, naquele momento, decidi que seríamos apenas amigos. O que ele buscava na mulher que o magoou, eu também não poderia dar a ele, eu não sou para casar, muito menos sonho com filhos, jamais jogaria minhas merdas emocionais sobre uma criança, nem saberia criar alguém.

Me afastei, com o semblante fechado e o remorso estampado como rótulo de uma garota má.

─ Posso te perguntar uma coisa? ─ Ele questionou.

─ Claro! ─ me levantei, pegando duas cerveja na geladeira, abri e virei alguns goles da minha, antes de voltar ao sofá, evitando o contato visual.

─ Do que você tem medo?

- Não entendi! ─ engulo mais um pouco do liquido amargo, me fazendo de desentendida.

Adam ri pelo nariz, pegando a cerveja que pus em sua frente e reformula a pergunta ─ Você não parece fazer o tipo tímida, então por que ficou sem jeito com o beijo?

Aspirei o ar o mais profundo que pude, fugindo da resposta inevitável. Se contasse meus reais motivos, Adam poderia me julgar, como até mesmo minha melhor amiga me julga, mas se não falasse, não haveria como sair de uma resposta mentirosa e Adam não merecia.

Ele levantou o olhar para me encarar. O silêncio entre nós durou algum tempo, como se ambos procurassem pelas palavras certas.

─ O que foi que fizeram com você? ─ Ele finalmente falou, exibindo um olhar preocupado ─ Não quer mesmo me contar o que aconteceu no passado?

Engoli em seco. Minha garganta ardia, como se engolisse palavras disfarçadas de espinhos ─ Acho melhor você ir, Adam. Deixamos a cerveja pra outro dia.

Uma pequena tensão se formava entre a gente, mas ele logo a quebrou com um sorriso franco de quem entendia que aquela era uma linha impossível de ser ultrapassada ─ Sem problemas! Boa noite, soleil terne!

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