6. Um novo caminho
Venho lutando a mesma guerra antiga
Contra uma doença sem cura
Sendo segurado por tanto tempo
Por tanto tempo, por tanto tempo
...
Eu estive desejando a uma estrela
Enquanto meu universo se desfaz
Eu me sinto tão longe do céu
Enquanto meus sonhos flutuam
(Same Old War — Our Last Light)
Despertei com a cabeça rodando, me sentindo nauseada e com uma dor aguda me atingindo feito um pedregulho. Abri os olhos com dificuldade, o sol que adentrava a janela incomodou minha visão e tentei concentrar-me no que havia ao redor, buscando me orientar. Me encontrava na cama de hotel, deitada ao lado de um Jordan completamente nu. Gosto do que vejo, mas infelizmente precisava trabalhar.
Nosso encontro de sábado se estendeu pelo domingo, depois que Shawn e Flynn foram andar pela cidade, nos deixando sozinhos no loft. Jordan era analista de sistemas e estava em Nova York a trabalho, dormindo no Scherman por conta da empresa, então decidimos nos despedir em grande estilo, numa suíte confortável, com champanhe e aperitivos.
Ainda sonolenta, me arrastei para fora da cama, levando comigo o lençol de linho branco e sorrateiramente andei até o banheiro, juntando pelo caminho todas as minhas coisas que se encontravam espalhadas pelo chão do quarto. Me vesti o mais rápido possível e com meus saltos nas mãos para que não fizesse barulho, deixei o quarto e consequentemente também o hotel, pedindo um carro por aplicativo enquanto descia pelo elevador.
Embora não fizesse muito o meu estilo, deixei um bilhete com post it no espelho do banheiro, agradecendo pela companhia nos últimos dois dias. Nós conversamos bastante, tínhamos o mesmo interesse em permanecermos sozinhos, curtir um dia após o outro e ele realmente era muito bom na cama, não custava nada ser gentil com o cara.
Depois do final de semana divertido, era hora de encarar de frente o problema. Continuar trabalhando para Christian se tornou insuportável e a única coisa certa a fazer era pedir demissão.
Cheguei no consultório dentro do horário e conferi a agenda dele, estava completamente lotada naquele dia, então resolvi manter o profissionalismo e esperar o final do expediente para só então falar com ele.
─ Doutor Christian, tem um minuto? ─ bati à porta e me enfie pela fresta aberta, assim que a última cliente do dia deixou o consultório.
─ É claro, senhorita Parker! ─ ele subiu o olhar, tirando a atenção dos papéis que lia e umedeceu os lábios, enquanto me olhava dos pés à cabeça ─ E se me permite dizer, hoje você está mais linda do que de costume. Vai a algum lugar especial depois daqui?
Não respondi, adentrando a sala e me aproximando um pouco mais da sua mesa ─ Eu preciso falar com o senhor sobre minha demissão. Acho que não posso continuar trabalhando aqui depois do que aconteceu na boate.
Christian se levantou, circulando a mesa, por trás de mim. De repente, senti seus dedos tocarem minha nuca, afastando meu cabelo que caía solto sobre as costas. Imediatamente estremeci. Ele estava tão próximo que pude sentir seu hálito quente em meu pescoço.
─ Seu perfume é tão doce e feminino, poderia senti-lo o dia todo ─ disse ele, ignorando o que eu havia dito.
─ Não! ─ pisquei algumas vezes, desfazendo o clima ignóbil que se instaurava e me afastei ─ Eu não vou mais aturar isso. Pra mim chega! Pode por favor providenciar a minha demissão?
Seu sorriso leve e descontraído deu lugar a uma expressão mais sombria e carregada de desdém, quando ele pôs os olhos no papel que eu trazia ─ Calma, linda! Apenas te fiz um elogio. Quero dizer, você é uma ótima secretária, não pretendo demiti-la.
─ Isso já passou de todos os limites ─ continue firme, parada do outro lado da sala ─ O que aconteceu naquela noite não deveria ter acontecido, o senhor é casado e precisa respeitar minha decisão, o que me parece que está sendo bastante difícil, então prefiro não trabalhar mais aqui.
Lentamente, Christian caminhou até mim. Seus olhos transmitiam frustração, mas ele mantinha a postura confiante ─ Estou certo de que posso mudar essa sua decisão, minha querida. Só me diga, qual é o seu preço?
Sustentei seu olhar arrogante — Eu não estou a venda, Christian.
Ele soltou um risinho e tentou tocar em meu rosto, mas eu o repeli ─ Bobagem! Todos temos um preço, só preciso saber qual é o seu. Quer um carro? Um apartamento? Ou quem sabe roupas, bolsas e sapatos de grife? É só dizer e eu faço acontecer.
─ Quer mesmo saber qual é o meu preço? ─ ergui uma sobrancelha e sustentei seu olhar ─ Pois bem, assine a minha demissão, ou vou denunciá-lo por assédio.
Como em um filme B de A Bela e a Fera, suas feições nublaram e o homem calmo e sedutor de antes, transformou-se em alguém terrivelmente amedrontador. Fui posta contra a parede e senti a mão de Christian envolver meu pescoço com violência.
─ Quem você pensa que é, sua piranha de merda? ─ sua voz cortou o pequeno espaço entre nós ─ Acha que alguém vai acreditar em você? O manobrista nos viu saindo da boate juntos e o porteiro do meu prédio nos viu subir, além disso, você é só uma puta sem eira nem beira.
Eu estava assustada, nunca havia visto esse lado de Christian e temi que algo mais grave pudesse acontecer, mesmo assim, me enchi de coragem e completei minha ameaça ─ Eu aposto que a sua esposa vai acreditar.
Abalado, ele finalmente me soltou ─ Está bem! Quer ir embora, pois então vá ─ apoiado em sua mesa, ele assinou o papel o jogando em minha direção e toda a confiança sobre si mesmo desapareceu ─ Mas saiba que vai se arrepender disso. Eu tenho muitos amigos nessa cidade, senhorita Parker.
─ Está me ameaçando? ─ antes que ele pudesse responder, concluí ─ Porque se está, é bom que saiba, eu também conheço pessoas, doutor Avery e tenho certeza de que elas adorariam expor esse seu lado nas colunas de fofoca.
Ele apenas se calou, assinando o papel que deixei sobre a mesa e percebi que, por hora, eu tinha vencido. Christian Avery não seria mais um problema, só que agora eu precisava encontrar um novo emprego, pois as contas não se pagariam sozinhas e só o freelance no telejornal não cobriria todas as minhas despesas.
Mesmo preocupada com minha situação financeira, sai do consultório e a sensação de liberdade me tomou por inteira. Estar no mesmo ambiente que aquele homem desprezível me sufocava e me causava enjoo. Felizmente, no futuro eu só o reencontraria nas páginas do meu livro. Agora teria que começar do zero. Deixar meu sonho em segundo plano e buscar um emprego qualquer não era minha escolha, mas as coisas nunca foram fáceis para mim e eu sempre consegui me reerguer.
Shawn conseguiu adiantar a entrevista com o tio para o dia seguinte e após uma noite de sono turbulenta, acordei cedo pela manhã, determinada a conseguir aquela vaga de emprego.
Killian Dempsey advogava em um dos maiores escritórios de direito do país, sendo ele o jurista mais conceituado do local. Trabalhar na McCann & McAlllister era o sonho de Zoey, desse que iniciou sua jornada acadêmica em busca do diploma. Sei que ela vai entender, até porquê, não é como se eu estivesse tomando o lugar dela, afinal serei apenas uma secretária, vou cuidar da agenda pessoal e serei um rosto para o homem exibir em suas centenas de compromissos profissionais.
Após um banho relaxante e um café rápido, me vestir o mais apresentável possível. Confesso que tenho apenas dois estilos, no dia a dia me visto com roupas despojadas, moletons, calça jeans e camiseta, já nos dias de balada, gosto de me mostrar, vestidos curtos, decotes e muito brilho são sempre minhas escolhas. Foi difícil encontrar algo que combinasse com o ambiente formal de um escritório, sendo que no consultório eu só usava branco. Escolhi um vestido midi vermelho, justo, de alças mais grossas. A fenda revelava um pouco mais do que eu queria, mas era o melhor que eu consegui encontrar. Peguei meu carro e segui até a empresa.
Ao chegar no local, peguei o elevador do meio, na direção esquerda e fui para o vigésimo segundo andar, orientada por um rapaz gentil que passava na hora em que entrei no hall. Na sala indicada por ele, haviam duas moças muito bem vestidas sentadas em mesas próximas, digitando algo em seus laptops. Me aproximei e soltei um pigarro, na intenção de que uma delas me desce atenção.
A mulher sentada a direita do grande salão ergueu o queixo e me analisou de cima à baixo, como se eu fosse uma qualquer, já a outra, alocada a esquerda, me olhou e logo abriu um largo sorriso, o que deixava seu rosto bonito ainda mais encantador.
─ Olá, querida! ─ cumprimentou ela. Devia ter por volta de uns quarenta anos, mas com aparência bem mais jovial ─ Em que posso ser útil?
A outra revirou os olhos. Parecia uma modelo, esguia e com longos cabelos loiro-escuros.
─ Tenho uma entrevista marcada com o senhor... ─ esquecendo-me completamente do nome, procurei pelo cartão que Shawn me dera ─ Killian Dempsey.
A secretária carrancuda soltou um suspiro alto e melancólico, sendo repreendida pela moça mais educada ─ Rachel, quer ir até a cozinha e pedir que preparem um café?
A loira se ergueu, deu de ombros, fazendo o salto alto de seu sapato estalar pelo piso, até sumir de vez através do corredor.
─ Me desculpe por isso. Sim? ─ a mais velha sorriu, claramente constrangida com o comportamento da colega ─ Como se chama, senhorita?
─ Allison Parker ─ respondi, devolvendo o sorriso.
Ela correu os dedos por entre alguns papéis e anotou algo brevemente ─ Tudo bem, vou avisar ao senhor Dempsey que a senhorita está aqui. Quer aguardar um segundo? ─ ela indicou um dos bancos do outro lado da sala ─ Se precisar de mais alguma coisa, eu me chamo Holly.
─ Obrigada, Holly! ─ agradeci e me virei, acomodando-me onde ela indicara.
Depois de Holly comunicar ao homem que eu o aguardava para a entrevista, se passaram quase duas horas e eu continuava esperando, impaciente e aborrecida, ainda tendo que fingir não notar os olhares snobes da tal Rachel. Mas quando eu já me preparava para ir embora, irritada com a situação toda, Holly enfim me chamou:
─ Senhorita Parker, o senhor Dempsey vai vê-la agora ─ seus olhos cor de mel pareciam se desculpar pela demora, mesmo que isso não fosse sua culpa ─ É só seguir por esse corredor, segunda porta a direita.
Estremeci. Estava com tanta raiva que temi estragar a minha melhor chance de um emprego decente. Me ergui, ajeitei o vestido vermelho e andei na direção da sala do homem. Bati e entrei.
─ Senhor Dempsey? Eu me chamo Allison Parker, estou aqui para a entrevista.
Me virei ao fechar a porta, vendo algo bem diferente do que imaginara e tento a sensação de que meu queixo poderia cair a qualquer momento. Killian Dempsey era jovem, não devia ter mais do que trinta e poucos anos, porte atlético que se podia ver mesmo com o terno o cobrindo. Seus cabelos castanho-claros, quase loiros, bagunçados, mas de modo proposital, contudo o que mais me chamara a atenção fora seus olhos, de um tom azul acinzentado, que me fitaram do pé até os meus, de mesmo tom, porém mais claros.
─ Hm, sim. É você a moça de quem meu sobrinho tanto fala? ─ segurando uma caneta, ele se inclinou sobre a mesa, me fazendo estremecer diante de seu olhar penetrante ─ Desculpe, mas acho que a senhorita não se encaixa nos padrões de nossa empresa.
Fique ali, parada em meio a sala, congelada, em choque, demorando para processar as palavras dele. O homem, no entanto, continuava a me encarar, nitidamente avaliando meu modo de vestir. Bufei. Senti o sangue fervendo, cerrei os punhos involuntariamente e finalmente consegui falar ─ Como chegou a essa conclusão sem nem mesmo me conhecer?
─ Conheço o bastante para saber que não é o que estamos buscando ─ falou, secamente ─ e pra ser sincero, só aceitei vê-la para contentar o Shawn que deve ter muito... ─ ele pareceu procurar a palavra correta para só então complementar ─ Apresso pela senhorita.
No impulso me aproximei da mesa, puxando uma das cadeiras postas para os visitantes, mas permaneci de pé ─ Olha, eu passei quase uma hora esperando pra falar com o senhor e não vou sair daqui sem realizar a entrevista. Se quer me julgar, me julgue, mas não apenas por minhas roupas, ou pela opinião de terceiros, me julgue pelo que sou profissionalmente.
Killian se contorceu nervosamente quando eu não quebrei o contato visual e finalmente deixou escapar um sorriso de canto de boca ─ Pois bem, se é assim que deseja, sente-se, senhorita Parker. Vamos começar sua entrevista.
Puxei a cadeira e fiz o que ele disse. A partir dali tudo correu bem, respondi, sem hesitação toda e qualquer pergunta que o homem me fazia, deixando mais do que claro o quanto eu era qualificada para trabalhar naquele lugar. Vez ou outra, quando mexia o corpo na cadeira executiva, Killian exalava um cheiro inebriante, desviando meu foco momentaneamente, mas nada que afetasse meu desempenho.
─ Pois bem, acho que conseguiu mudar meus conceitos, senhorita Parker ─ ele se levantou da cadeira, me fazendo sentir como se estivesse vendo através de mim, com aqueles olhos azuis frios.
Também me ergui ─ O senhor quis dizer preconceitos. Não?
Novamente aquele sorriso torto despontou em seu rosto ─ Me desculpe pela forma que a tratei mais cedo, é que estamos acostumados a entrevistar jovens, digamos que... sem muito escrúpulos ─ Killian estendeu a mão através do espaço entre nós.
─ Não se engane, eu não tenho nenhum também ─ admiti, mantendo nossas mãos unidas por mais tempo que deveria, como se estivesse intoxicada pelo seu toque ─ Mas sei me comportar no ambiente de trabalho.
Uma sensação estranha correu pelo meu corpo e abruptamente puxei minha mão, envergonhada, sentindo um forte calor em minhas bochechas. Se ele soubesse que dormi com meu ex-chefe e foi por isso que deixei o consultório, jamais acreditaria em semelhante mentira.
Dessa vez seu sorriso deu lugar a um semblante caricato, deixando transparecer que entendia meu comentário, mas sem perder a postura séria de homem dos negócios ─ Obrigado pela sinceridade ─ disse simplesmente, embora ficasse visível seu comedimento ─ Holly entrará em contato caso aja interesse da empresa em contratá-la e me desculpe mais uma vez pelo julgamento deselegante.
Assenti e sai da sala, me despedi de Holly, agradecendo por ela ter sido tão simpática e por fim deixei o prédio, dirigindo até em casa, sem conseguir parar de pensar em Killian. Eu queria e precisava daquele emprego, mas não daria para simplesmente ignorar o calor delicioso se concentrando no centro do meu estomago só de imaginar o olhar tão sedutor e aquele cheiro maravilhoso de homem.
À noite, sai para beber com Shawn. Fomos até um barzinho próximo de casa e quando finalmente contei a ele sobre a entrevista, meu amigo ria sem entender o porquê de eu estar tão zangada.
─ Você me mandou para a cova dos leões, desgraçado ─ bebi um gole do meu drink e continuei a brincar com o canudo, enquanto o encarava com as sobrancelhas unidas ─ Ou melhor, do leão. Porque não me disse que seu tio era tão, tão...
─ Tão jovem? Tão gato? Tão gostoso? ─ Shawn se divertia com meu embaraço ─ Eu sei disso, piranha. Só não achei que fosse fazer alguma diferença, afinal você não queria o emprego?
─ Queria e quero, mas..., mas ele foi rude comigo. O que foi que você disse pra ele?
Shawn também sugou sua bebida com a ajuda do canudo, sem esconder o quanto estava se divertindo com minha reação ─ Eu não disse nada demais, só que você é muito gata, competente e que nas horas vagas gosta de dar uma sentada violenta.
Me debrucei sobre a mesa, diminuindo a distância que havia entre nós e o empurrei levemente nos ombros e então caímos na risada, muito por conta da bebida, mas também porque provavelmente ele havia dito isso mesmo ao homem.
─ Relaxa, Allie. É sério! Killian é todo careta, não vai te tratar como Christian fez ─ Shawn falou, agora com seriedade ─ Se você for contratada, não vai correr o risco de passarem a mão na sua bunda em meio ao escritório e além disso, Killian é solteiro, livre e desimpedido, ao contrário do doutor cafajeste.
Suspirei profundamente e sorri sem humor ─ É, mas não acho que ele vá me contratar.
─ Por causa de um vestido? ─ Shawn mantém a expressão divertida no rosto, enquanto pede a conta ao garçom ─ É, Killian é mais careta do que eu pensava, ou talvez ele também seja gay. Isso explicaria o fato dele ser o único membro descente da minha família.
As palavras de Shawn grudaram em minha mente feito chiclete e enquanto íamos para o meu apartamento, eu não conseguia parar de pensar no homem que, apenas com um aperto de mão, trouxe à tona uma pequena faísca de emoção que eu não sentia a muito tempo.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top