4. Velho amigo
Que maneira solitária de mentir
Finja que você está bem
E então, tome um punhado de comprimidos brancos para fazer você sorrir
Você não tem sido você mesmo
Embora eu saiba que não é sua culpa
Eles deixaram você se perguntando quem diabos você é
(Box In a Heart — The Maine)
─ Eu espero que você já esteja pronta, porque eu estou morrendo de fome e sabe, encontrei umas coisas tão incríveis na Macy's que nem parecem de loja de departamento, você tem que ver ─ Shawn adentrou o apartamento feito um furacão, carregado de sacolas e falando sem parar, até se dar conta de que eu não estava sozinha ─ Ahm, desculpa... não sabia que você tinha visita.
─ Shawn, essa é Anne, minha antiga... amiga ─ fiz uma pausa na fala e engoli em seco, desviando o olhar — Amiga da minha mãe, na verdade ─ completei, com a voz cortada ─ Anne, esse é meu melhor amigo Shawn.
Os dois se cumprimentaram cordialmente. Anne ficou visivelmente desconfortável por mim, já Shawn pareceu não ter notado meu constrangimento com a situação, o que eu agradeci mentalmente.
─ Com licença, eu já estava de saída ─ A mulher andou até a porta, se despedindo de mim com um beijo na bochecha e de Shawn com um aceno de cabeça ─ Até mais, querida, obrigada pela gentileza e por favor, prometa que vai considerar o que eu lhe disse.
─ Vou pensar — respondi simplesmente, fechando a porta assim que Anne passou por ela.
Por um momento me mantive imóvel, de costa para Shawn, com um filme rodando dentro da minha mente, a minha história desde o nascimento até agora. Era difícil controlar o choro, mas eu sabia que aquele não era mais meu lugar e chorar representaria fraqueza, então respirei fundo e ainda sem encará-lo, tentei agir com toda a naturalidade, como se o que eu lhe dissera fosse a única verdade.
─ Porra, preciso de uns tacos ─ andei até a janela e acendi um cigarro ─ Sabe se servem comida mexicana no Jen's?
─ Certo, mas não pense que eu engoli essa coisa de amiga da sua mãe ─ Shawn sorriu, sorrateiro, se jogando sobre o meu sofá ─ Agora pode me dizer a verdade, quem é essa mulher?
─ Você confia em mim? — perguntei, fugindo da pergunta e ele assentiu, mantendo o seu sorriso ladino e brincalhão — Então não me pergunte nada sobre isso agora. Pelo menos até eu resolver esse... problema que a visita dela me trouxe.
─ Você é muito louca — Shawn cruzou as pernas sobre a mesa de centro a sua frente e jogou os braços atrás da cabeça — Então vai, me conta tudo sobre o doutor. Ele é gostoso? O sexo é baunilha ou ele prefere algo mais selvagem?
Isso era o que eu mais amava em Shawn, ele sabia respeitar meu espaço e o meu momento, sem nunca me pressionar a falar sobre coisas que eu não me sentia à vontade, tornando nossa amizade muito mais leve e saudável. Meu amigo também adorava ouvir sobre minhas escapadas, diferentemente de Zoey que achava que eu apenas reprimia sentimentos e que precisava urgentemente fazer terapia.
─ Ele é irritantemente gostoso e totalmente selvagem ─ respondi rindo e pegando a garrafa que deixará pela metade — Mas acho que não deveria ter cedido, ele não me parece um homem que aceitaria ser chutado e você me conhece, não sou do tipo que namora, muito menos do tipo que se sujeita a ser amante.
─ E o que você vai fazer agora? — Shawn quis saber.
Passei a garrafa para ele e deixei meu corpo afundar ao seu lado, entre as almofadas do sofá ─ Vou agir como se aquilo nunca tivesse acontecido e torcer para que ele faça o mesmo.
Shawn deu um gole na bebida e fez uma careta — De novo, você é doida, mas é por isso que eu te amo.
Fiz um sinal em retribuição e levantei, tirando a camiseta e o short que vestia, rumando até o quarto em busca de uma roupa mais apropriada do que meu pijama improvisado. Meu amigo me seguiu.
─ Hem, depois do almoço, preciso fazer um favor pra Anne ─ disse, enquanto passava os cabides e avaliava as peças penduradas ─ Quer vir comigo?
─ A amiga da sua mãe? ─ ele inquiriu, fazendo aspas com os dedos e se jogando sobre minha cama ainda desarrumada da noite anterior.
Assenti, ignorando seu sarcasmo e entrando em um dos meus vestidos básicos, justo e preto. O dia estava parcialmente frio, então joguei uma jaqueta sobre os ombros e calcei minhas botas de cano curto.
─ O que precisamos fazer? ─ Shawn perguntou, rumando comigo de volta para a sala.
─ Buscar o filho dela no aeroporto ─ peguei minhas chaves no ar, quando ele as arremessou em minha direção ─ Não o vejo desde... ─ arregalei os olhos com a constatação ─ Bem, minha mãe ainda era viva quando ele se mudou para a Alemanha.
─ E ele é gato? ─ Shawn movimentou as sobrancelhas de modo sugestivo.
Winston sempre foi um nerd. Estudou na Holis, uma das escolas mais conceituadas de Nova York, com bolsa desde que iniciou sua vida acadêmica. Anne sempre se orgulhou muito de o filho ser capaz de perseguir seus sonhos sem a ajuda de ninguém, já que o pai morreu quando ele tinha apenas um ano de idade. Depois da formatura, ele foi indicado para um intercâmbio em Frankfurt e desde então não nos vimos mais, nem sei como ele está fisicamente muito embora tenhamos mantido contato por meio das redes sociais.
─ Sei lá, Shawn! ─ dei de ombros e bati a porta atrás de nós, enquanto deixávamos o loft ─ Ele é um cara comum, pelo que vejo nas poucas fotos que ele posta.
Descemos para o estacionamento do prédio, entramos no meu carro em meio a centenas de papéis de bala e um forte cheiro de maconha que Shawn deixara no pouco tempo em que o veículo esteve com ele e eu dirigi até o Jen's kitchen. Fizemos nosso pedido de sempre, já que o cardápio do restaurante não contava com pratos latinos e os tacos foram só uma desculpa minha para fugir do clima tenso que havia ficado após a saída de Anne.
Contei a Shawn sobre a noite nada convencional de Zoey e como quase peguei o cara saindo do apartamento dela com as calças na mão, literalmente. Claro que acabei por omitir a parte que discutimos sobre o livro e o fato de eu não ser completamente sincera com as pessoas que entraram em minha vida após a saída de Nova York, incluindo ele.
Depois de comermos, fomos dar uma volta pelo Central Park. Senti muita falta disso, coisas simples que eu fazia quando criança, mas que só essa cidade pode me oferecer. Gosto de ser livre, não me prendo a lugares, mas ao mesmo tempo, o aconchego do meu lar é algo que eu não abro mão sempre que sinto que preciso me reconectar.
Na hora combinada, fomos juntos até o aeroporto. Senti medo pelo que poderia vir à tona com aquele encontro, mas Shawn não parava de tagarelar sobre o seu dia e como gostaria de levar o colega de projeto para o quarto escuro de revelação de fotos, me fazendo esquecer meus temores pelo menos por algum tempo.
─ É sério, amiga ─ disse, assim que pisamos no saguão do aeroporto ─ Ele estava me dando mole, mas a vadia ruiva tinha que aparecer como uma assombração.
─ Segura isso ─ entreguei para ele uma plaquinha com o nome Winston Cohen que fiz à mão com coisas que encontrei no carro ─ Já te disse, você precisa ir com calma, Shawn. Se esse cara é mesmo gay, mas ainda não se assumiu, talvez precise descobrir que ficar com uma mulher não vai mudar o que ele é.
─ Tem razão ─ disse, baixando o olhar e erguendo a placa improvisada ─, mas é tão difícil olhar para aquela bunda sem poder encostar.
Ri, varrendo a área com os olhos a procura de alguém que eu nem conhecia mais.
─ Lá está ele! ─ disse, vendo um cartaz com meu nome sendo erguido em meio as pessoas que saiam do portão de desembarque ─ Ai, meu Deus! ─ exclamei, quando finalmente pus os olhos no filho mais novo de Anne.
─ Uau! ─ foi a vez de Shawn subir o olhar e ver o mesmo que eu vi ─ Amiga, se isso é ser comunzinho, não quero nem pensar no que é extraordinário pra você. O cara é um gato!
Shawn tinha razão. Winston se arrastava com dificuldade, em meio as pessoas que também procuravam pelos seus. Camiseta de mangas longas, calças cargo e tênis, um visual simples se não estivesse vestido em um homem alto, com uma pele negra perfeitamente esculpida, barba por fazer, ombros largos e semblante sério.
Observei inebriada o homem andando lentamente, levando uma enorme mala que ele puxava sem nenhum esforço, graças aos seus braços musculosos evidentes mesmo debaixo da camiseta. Ele parou, fazendo o mesmo movimento que eu fizera a pouco, correndo os olhos a procura de alguém. À procura de mim.
Quando percebi que ele viraria para o outro lado no saguão, interpelei-o antes que chegasse a se afastar demasiadamente ─ Winston? Winston Cohen? ─ indaguei, parando em sua frente de supetão, lhe causando um breve susto ─ Sou eu, a Allie.
Ele sorriu timidamente, mas involuntariamente me abraçou. Seus braços me ergueram no ar, num afetuoso abraço, como fazia quando éramos adolescentes e pela primeira vez em muito tempo me senti bem com o meu passado, como se estivesse num curto espaço onde tudo era infinitamente mais feliz. Naquele abraço não haviam mágoas, não existia dor, apenas um carinho e a nostalgia boa de quando se é criança.
─ Baixinha! É tão bom finalmente te ver de novo ─ exclamou, por fim, me pondo de volta no chão.
─ Agradeceria se não me chamasse assim, bobalhão ─ devolvi a provocação com o apelido de infância ─ Ou vou ter que chamar a sua mãe.
Shawn nos observava com certo desentendimento, até que soltamos uma gargalhada e ele riu também, acho que de nervoso, por estar sem jeito com meu novo antigo amigo.
─ Winst, esse é o meu melhor amigo Shawn. Shawn, esse é o Winston.
Os dois se cumprimentaram e seguimos de volta ao carro. Decidi levar Winston para comer algo no nosso bistrô favorito de criança, já que era o primeiro dia dele em Nova York depois de muito tempo, achei que gostaria de algo mais familiar. Ele me disse que faziam exatos dois anos em que ele não viajava para ver a mãe. Anne deveria estar com muita saudade dele.
Pegamos uma mesa no canto, bem próximo a porta e com uma linda vista para o Empire State Building. O local era singelo, nada de luxo, nem bebidas caras como a maioria das coisas no centro, mas quando crianças, nós adorávamos comer naquele lugar, enquanto Anne e minha mãe perambulavam pelas lojas.
Anne sempre foi como uma segunda mãe para mim, Winston e eu crescemos como irmãos e embora a vida nos tivesse separado, meu amor por ele era muito maior do que o que eu tinha por Daniel.
Ele se sentou diante de mim como quem solta o corpo cansado sobre a cadeira. Eu me sentei também, deixando a cadeira vaga ao lado para que Shawn se acomodasse. Uma das garçonetes se aproximou da nossa mesa e interrompeu nosso papo sobre como aquele lugar ainda se parecia o mesmo.
─ Sejam bem-vindos ao La Victoire. Querem ver o cardápio? ─ perguntou a garota, sorridente.
─ Eclair de baunilha e um cappuccino tradicional ─ Winston e eu pedimos em uníssono.
Shawn pediu um café com creme chantilly, enquanto se deliciava com nossas risadas e a forma genuína que parecíamos ter sido transportados para um momento incrivelmente feliz de nossas vidas.
─ Anne vai ficar muito feliz em ver você ─ falei, bebericando o café de Shawn que chegara primeiro.
─ Posso te contar um segredo? ─ assenti e ele prosseguiu — Ela não sabe, mas eu não estou apenas visitando Nova York, minhas coisas chegam na terça ─ um sorriso enrolando nos lábios — Eu vou me mudar pra cá, Allie.
─ É o quê?! ─ gritei, batendo na mesa com as palmas das mãos, chamando a atenção de todos a nossa volta e baixando o tom instantaneamente ─ Caralho! Estou tão feliz, Winst. Anne vai pirar quando você der a notícia.
─ Espero que eu possa contar com você para encontrar um apartamento ─ ele ficava ainda mais bonito sorrindo ─ Saí de Nova York com dezessete, não conheço mais nada além desse bistrô.
Toquei as mãos dele de maneira reconfortante ─ É claro que pode. Né, Shawn?
Shawn finalmente falou ─ Claro. Amigo da Allie é meu amigo também.
─ Então me conta, como anda esse coraçãozinho? ─ perguntei, sem muita pretensão, apenas por conhecer um pouco sobre o assunto e evitar o silêncio constrangedor que se anunciava.
O semblante alegre e descontraído de Winston mudou completamente e seu olhar bonito e descontraído deu lugar a incontidas lágrimas que se acumulavam violentamente em suas pálpebras avermelhadas. A pouca luz do ambiente as fazia brilhar, sendo impossível de esconder seu desassossego.
Levantei-me e fui me sentar ao lado dele. Winston sorriu, esfregando os olhos e tentando reajustar sua postura, quando toquei seu braço afagando-o com ternura.
─ Sinto muito se toquei em um ponto sensível pra você, não queria te chatear ─ falei, encarando Shawn, mesmo sabendo que a ajuda dele não seria possível ─ Não precisamos falar disso se não quiser. Eu mesma não tenho muito com o que me orgulhar, já que sou um verdadeiro fracasso quando o assunto é romance.
Com a dificuldade de quem nunca fala sobre si mas sente vontade de fazê-lo e sem saber exatamente por onde começar, Winston enfim desabafou ─ Ela me traiu! ─ seu olhar cabisbaixo carregado de ressentimento ─ Com uma mulher.
O silêncio voltou a nos envolver e por mais que eu quisesse dizer algo para fazê-lo se sentir melhor, fui pega de surpresa e as palavras me fugiam como folhas soltas ao vento. Shawn aparentava o mesmo embaraço.
─ Eu não a culpo ─ Winston voltou a falar ─ Afinal de contas ela nasceu pra ser o que é e não posso fazer nada quanto a isso, mas estávamos noivos e ela me traiu ─ seu semblante nublou novamente ─ Isso é o que mais machuca, independentemente de ter sido com alguém do mesmo sexo, eu queria que ela ao menos tivesse se aberto comigo.
─ Faz quanto tempo? ─ Shawn foi quem o questionou.
─ Quatro meses ─ o rapaz respondeu, já um tanto quanto mais calmo ─ E pra falar a verdade, esse é o motivo da minha volta a Nova York. Estávamos vivendo no mesmo apartamento e aquele lugar tem me feito muito mal.
─ Novos ares com certeza vão te fazer bem ─ sorri pra ele, tombando minha cabeça em seu braço e lhe acariciando fraternalmente ─ E se não quiser ficar no hotel, pode vir comigo, tenho um quarto no loft, Shawn fica comigo no meu quarto. Né, Shawn?
Meu amigo assentiu com a cabeça ─ É claro! Dormimos agarradinhos quase sempre mesmo, digo quando o álcool nos tira a dignidade.
Winston riu da brincadeira de Shawn ─ Obrigado, gente! Mas estou bem, posso ficar no hotel até encontrar um canto pra me instalar.
Me emocionei e fui tomada de uma certa angústia, por ter que me despedir dele sem saber se ficaria bem sozinho, mas preferi não insistir ─ Está bem, mas tem que me prometer uma coisa.
─ O quê?
─ Que se a Anne fizer torta de maça, você vai guardar uma fatia pra mim.
Ele abriu um belo sorriso ─ Mas é claro que sim, baixinha.
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