1. Welcome back, bitch!

Tô cansada desse povo fingindo,
me usando, me roubando
As pessoas que me chamam de obscena
Vocês me odeiam,
vocês me amam,
vocês só querem me tocar
Eu só tô tentando ficar em paz
Então deixa eu fazer o que quiser
Unholy - Miley Cyrus)

2 meses depois

Cheguei ao loft o mais depressa que pude, dispensei minha inseparável jaqueta rosa sobre o sofá e tirei minhas botas, as jogando num canto do cômodo, correndo para o chuveiro, na esperança de conseguir um banho quente de pelo menos 10 minutos. Aquele lugar era uma droga, mas eu não poderia pagar nada melhor naquele momento e voltar a morar com Zoey não era uma opção.

Desde que retornei a Nova York, minha vida tem sido só trabalho e nada de diversão, por isso decidi que aquela noite seria a melhor do ano. Estava na hora de voltar ao que eu era e principalmente, de criar um novo capítulo para minha história.

Graças a influência de sua família, algo que ele normalmente ignorava, meu melhor amigo Shawn conseguiu nos colocar na lista da maior boate da cidade e eu precisava simplesmente arrasar no look, nem que isso custasse ouvir ele reclamar centenas de vezes por conta da minha demora.

─ Anda logo, Allie! ─ ele falou, me vendo parada em frente ao espelho, enrolada em uma toalha e com outra envolvendo os cabelos ─ Esse é o quinto vestido que você prova. Já estamos atrasados!

─ O vermelho ou rosa? ─ questionei, ignorando seu mau humor repentino.

Ele avaliou rapidamente os dois vestidos que eu segurava ─ Vermelho ─ respondeu, calçando seus espalhafatosos tênis neon verdes ─, mas é sério, Allie. Estamos muito atrasados e Zoey ficou de nos encontrar lá. Você sabe o quando ela odeia ficar sozinha em lugares como aquele.

─ Eu sei, eu sei ─ terminei de descer o vestido que ele escolheu por minhas coxas e puxei os sapatos do armário, me sentando na ponta da cama para calça-los ─ E vai ficar repetindo mil vezes:

─ Eu nem queria vir! ─ dissemos em uníssono.

─ E aí, como estou? ─ perguntei, girando nos saltos.

─ Maravilhosa ─ Shawn falou, dessa vez bem mais entusiasmado, me vendo finalizar o penteado ─ São Chanel?

Assenti ─ Custaram duas noites de trabalho na Sun Rising em São Francisco, mas valeu a pena ─ falei, erguendo o pé para avaliar o salto agulha dourado, num scarpin de couro preto ─ São meus sapatos da sorte. Estava usando eles quando conheci Jared Fallowill no Hard Rock em Las Vegas.

Shawn riu, se jogando sobre a cama, me observando dar os últimos retoques na maquiagem ─ Você é maluca!

Ergui uma sobrancelha, o encarando com uma soberba forjada ─ Maluca ou não, eu transei com o Fallowill mais gato.

─ É, isso é verdade ─ Shawn concordou ─ E por falar em gato, você ainda não me contou, como está sendo trabalhar para o Doutor gostosão?

─ Nada fácil ─ falei, simplesmente ─ Acho que não me encaixo mais nesse tipo de trabalho certinho e o fato dele ser um gostoso é a única coisa boa de trabalhar atrás de um balcão o dia todo.

Eu sempre fui uma mulher livre. Sempre morei em diferentes lugares, trabalhando como bar tender ou hostess em baladas e me considero uma verdadeira nômade, mas quando cheguei de volta a Nova York, confesso que senti uma necessidade absurda de me estabelecer e voltar a criar raízes aqui, então arranjei um trabalho como secretaria pessoal de um renomado cirurgião plástico e no meu tempo livre escrevo como freelance para uma pequena emissora de tv. Mas tenho que dizer que tudo até aqui serviu apenas como paliativo, pois o que eu almejo vai muito além de passar o dia apreciando a beleza do meu chefe e escrever roteiros para canais que ninguém assiste.

Dei uma última conferida no espelho. O vestido vermelho curto, com decote ombro a ombro valorizava cada curva do meu corpo e contrastava perfeitamente com meus longos cabelos loiros, emoldurando meu rosto, deixando minha pele mais iluminada e destacando mais o verde dos meus olhos.

Peguei as chaves do carro, coloquei alguns poucos pertences dentro da bolsa que fora comprada junto com os sapatos e desci ao lado de Shawn. A boate ficava localizada bem próximo ao nosso apartamento, no Upper East Side.

Demos os nomes na porta e entramos.

O local era um verdadeiro luxo. Podia se ver luzes piscando por todos os lados, meninas requebrando seus corpos em mini palcos estrategicamente espalhados em volta da boate e bares que serviam toda e qualquer bebida que você desejasse.

─ Um Grasshopper, por favor! ─ Shawn pediu, enquanto avaliava cuidadosamente o ambiente em que se encontrava, cheio de sorrisos e uma excitação boba por todo e qualquer cara bonito que passasse em sua frente.

Parei ao lado do meu amigo no bar e pedi um Martini. Enquanto brincava com a azeitona presa a um palito dentro da taça, por um momento pensei no que minha mãe costumava dizer: "estar apaixonada é a melhor coisa da vida" e no quanto ela parecia convicta de que eu tinha encontrado em Ethan Storm, o meu príncipe encantado. Me dói saber que ela morreu sem saber a verdade sobre aquele crápula.

Um pesar amargo preencheu minha garganta.

Como se calculasse o momento certo, Shawn pegou o copo das mãos do barman e se virou, cutucando meu braço com o cotovelo e bebericando seu coquetel.

─ Eu quero tocar cada canto daquele gostoso, mesmo que isso queime meus dedos.

─ O quê? ─ Olhei para Shawn, confusa.

Não havia ouvido sequer uma palavra do que ele dissera, mas aos poucos deixei meus pensamentos de lado para finalmente me concentrar no que acontecia a minha volta.

─ Eu disse que... ah, esquece! ─ Shawn deixou o copo vazio sobre o balcão do bar, me puxando para a pista e para perto do cara de quem ele falava ─ Eu já disse e volto a repetir, você precisa mesmo é esquecer essa história de encontro às cegas e focar nos capítulos mais importantes.

─ Best Seller! ─ Dissemos, mais uma vez, em uníssono, o que já estava virando nossa marca registrada.

─ Eu sei que é bobagem, mas essa experiência pode...

─ Esse lugar é uma droga! ─ a voz irritada de Zoey se sobressaiu a música que explodia no interior da boate, me interrompendo e chamando a nossa atenção ─ Acreditam que só agora consegui encontrar uma vaga para estacionar?

─ E os manobristas? ─ franzi a testa, confusa.

Ela bufou ─ Aparentemente meu Fusca não se enquadra nos padrões da casa.

Shawn e eu não conseguimos segurar o riso, deixando a garota ainda mais zangada.

Zoey era uma menina de classe média, nascida no Bronxs e que já havia ralado muito na vida. Seu pai abandonou a família quando ela tinha cinco anos e a mãe decidiu se mudar para Washington, trabalhando como empregada doméstica, na intenção de conquistar uma vida melhor. Quando a patroa da mãe lhe ofereceu uma bolsa de estudos em Nova York, ela mudou-se para a casa da avó e simplesmente se dispôs a ser a melhor; melhores notas, melhores projetos, melhor oratória e muitos cursos extracurriculares. Agora, já quase formada, ela se permite um pouco mais de descontração, muito embora seja difícil ceder ao nosso jeito despreocupado de levar a vida. Seu único objetivo real é dar orgulho a sua mãe.

─ Eu só quero a minha cama e um bom livro ─ ela choramingou.

─ Sem essa, Zoey! ─ Shawn encaixou seu braço no dela e a levou para perto do bar novamente ─ Hoje você está com a gente, a melhor dupla baladeira que essa cidade já conheceu e nós vamos nos divertir muito.

─ Ótimo, mas acontece que eu...

─ Quero conhecer alguém especial! ─ dissemos juntos de novo e Shawn acrescentou uma revirada de olhos, que eu detestava quando direcionada a mim.

─ Você sempre diz a mesma coisa, Zoey. Relaxa. Tá? Você vai conhecer alguém, eu prometo, mas precisa deixar rolar, curtir o momento ─ me voltei para o barman parado atrás do balcão ─ Mais um Martini por favor.

Ela soltou um longo suspiro e então encheu-se de confiança ─ Dois.

─ É assim que se fala, garota! ─ Shawn bateu palmas a encorajando.

Zoey é uma daquelas românticas inveteradas, que tem uma visão bem mais colorida da vida, das pessoas, do mundo e principalmente do amor, o que pode vir a ser um tanto quanto complexo e angustiante, quando você não consegue encontrar o que procura desde sempre e com tanto afinco.

Apesar de sermos muito diferentes, para ser sincera, como música clássica e o bom e velho Rock'n roll, estranhamente. Zoey e eu temos uma conexão. Ela é minha confidente e de vez em quando topamos programas que não gostamos muito, apenas para que possamos passar algum tempo juntas.

Depois de quatro ou cinco drinks, Shawn e eu já dançávamos de maneira insinuante no meio da pista de dança, atraindo todos os olhares em nossa direção, do jeito que adorávamos fazer, enquanto Zoey conversava com algumas pessoas, perto do nosso campo de visão.

Eu amo Shawn de uma maneira quase que inexplicável. Minha amizade com ele era completamente diferente, mas tão intensa quanto a minha com Zoey. Nos conhecemos em uma balada lgbt em Delaware, enquanto dávamos em cima do mesmo cara e desde então nunca mais nos separamos. Transamos a três naquela noite, diga-se de passagem.

Beijei alguns caras, enquanto dançava sensualmente em um dos palcos, sob os olhares acusadores das patricinhas que dominavam a boate e rebolei tanto em um pobre garoto que achei que o pau dele fosse explodir e rasgar as calças, mas nenhum homem ali me deixava instigada, eram todos tão sem graça, sem novidades. Nenhum deles daria uma boa história.

─ Isso daqui está muito parado ─ Shawn sussurrou em meu ouvido.

Frustrado e impaciente, ele me tirou do palco, me arrastando de volta ao bar. Não era como se aquele lugar de riquinhos me deixasse super à vontade, mas viver em uma das cidades mais poderosas economicamente do mundo não é para qualquer um, principalmente para quem prefere um estilo mais Haight-Ashbury, como Shawn.

Meu amigo estudou arte em São Francisco e como eu, foi quando finalmente se sentiu livre dos paradigmas imposto pela família. Shawn adorava falar sobre a emblemática ponte Golden Gate, dos seus bondinhos e das coloridas casas vitorianas. Lojas de discos, livrarias botecos e restaurantes casuais e ecléticos eram sua verdadeira paixão.

─ Acha que conseguimos alguma coisa mais estimulante por aqui? ─ seus brilhantes olhos azuis-escuros implorando por uma resposta satisfatória.

─ Vou dar um jeito! ─ anunciei, me distanciando dele e caminhado até um cara parado em um lugar bastante estratégico.

Torci para que ele fosse o que eu estava imaginando.

─ E aí, bonitão ─ sorri de maneira atraente ─ Tem alguma coisa pra mim?

─ Depende do que você procura, boneca.

─ Dois pinos são suficientes por enquanto ─ mostrei-lhe o dinheiro preso ao meu sutiã.

Ele pôs a mão por dentro do casaco, passando-me a droga e pegando o dinheiro da maneira mais discreta possível.

Sai dali e para não dar na vista, voltei ao bar. Sabia que o dono da casa deveria estar envolvido e que metade daqueles riquinhos já estavam chapados, mas era melhor manter a descrição. Toda a boate, seja ela Glam ou underground tem muita droga rolando às escondidas, isso é fato, mas esse tipo de lugar sempre presa pela hipocrisia do High Society.

─ Me traz um Long Beach Ice, por favor! ─ pedi ao garçom, correndo os olhos pela pista em busca de Shawn.

─ Não prefere algo mais forte?

Surpresa, e reconhecendo aquela voz aveludada, cheia de segundas intenções, olhei para o lado e me deparei com o homem de quase 1.90, sobrancelhas grossa e mandíbula marcada, porte físico bem definido e arrebatadores olhos castanhos. Tinha alguns cabelos brancos, o que o deixava ainda mais charmoso.

─ Doutor Avery?

Diferente de como eu o via diariamente em seu consultório, meu bonito chefe dispensara o jaleco branco e vestia uma calça de sarja caqui e camisa preta, com as mangas levemente dobradas até os cotovelos. Seus olhos brilhavam em minha direção e o seu sorriso sacana me instigava a ter os mais sórdidos pensamentos.

─ Senhorita Parker.

─ É só Allison, ou Allie, se preferir ─ o corrigi, saboreando meu drink de maneira insinuante ─ Afinal, não estamos em horário de trabalho.

─ Perfeitamente ─ seu olhar vagueava discretamente por meu decote ─ Então me chame apenas de Chris.

Eu assenti, mordendo meus lábios, enquanto sustentava seu olhar. Era perigoso flertar com o chefe, mas alguma coisa nele me instigava, me desafiava.

─ Mas você não respondeu minha pergunta ─ disse.

─ Qual pergunta? ─ ergui uma sobrancelha fingindo uma certa confusão.

Um canto de sua boca se elevou, enquanto girava o líquido marrom e seu copo ─ Perguntei se não prefere algo mais forte.

─ Adoro forte, doutor. Mas por agora prefiro me manter tranquila. A noite apenas está começando.

─ Me traz outro scotch ─ o homem pediu ao garçom, depois trouxe seu olhar de volta para mim, me lançando um sorriso ainda mais perverso ─ E está acompanhada ou posso continuar flertando com você, olhos bonitos?

Me aproximei e murmurei em seu ouvido ─ Pode tentar, embora eu goste de homens um pouco mais diretos e não comprometido.

Ao ouvir aquilo, ele toco-me a perna discretamente, subindo os dedos por minha coxa, até quase tocar minha bunda e apertou, me trazendo para junto de si ─ E se eu disser que ando querendo provar cada centímetro desse seu corpinho lindo a algum tempo? ─ sussurrou em meu ouvido, me fazendo estremecer ─ Será que estarei sendo direto o bastante?

─ Acho que sim, mas isso não muda em nada o fato de você ser um homem casado ─ as palavras pularam para fora, ressoando meus pensamentos ─ Sem contar que eu trabalho para o senhor e não estou em condições de perder esse emprego.

─ Não tínhamos combinado de deixar as formalidades de lado essa noite? ─ Christian encurtou a distância entre nós, me fazendo ofegar.

Meus músculos pareceram travar, todos ao mesmo tempo. Abri levemente a boca, mas nenhum som saiu. Eu queria aquele homem, Deus sabe o quanto, mas até que ponto uma boa transa valeria o risco de perder meu emprego e principalmente arruinar um casamento?

─ Seu perfume é tão doce, tão sexy, me atiça senti-lo o tempo todo no escritório ─ confessou, tão próximo de mim que eu podia sentir sua respiração se misturando a minha ─ Te encontrar aqui foi obra do destino.

Por minha cabeça passavam mil coisas, já sentia algo vibrando entre minhas pernas e estava quase cedendo quando Shawn se aproximou.

─ Qual é, cadê a parada, Allie. Eu... ─ ele parou de falar, assim que pôs os olhos em Christian ─ Desculpa! Hora errada. Vou estar do outro lado da pista, torcendo para aquele gato de camisa verde me notar ─ e mexeu os lábios murmurando ─ Vai fundo amiga!

Eu tentei aproveitar a brecha e sair, mas Christian me puxou pelo braço e me beijou, num ato totalmente impulsivo. Sua língua resvalou por meus lábios, fazendo-os abrir de maneira calorosa, enquanto minhas mãos deslizaram subconsciente por seus cabelos, sentindo os braços dele em minha cintura, me apertando mais contra si.

Na intenção de buscar o ar, separei nossas bocas e fechei os braços ao redor de seu pescoço ─ Tem certeza do que está fazendo, doutor? ─ questionei, sem desviar os olhos daquele monumento de homem.

─ Estou finalmente conseguindo fazer o que desejo desde o dia em que te contratei como minha secretaria ─ seus dedos correram discretamente pela bainha do meu vestido ─ É, eu tenho certeza.

Me afastei de seu toque e tentei sair novamente ─, mas isso não é certo! ─ falei em tom sério.

Ele era lindo e obviamente eu adoraria senti-lo dentro de mim, mas de todo modo, doutor Christian Avery era um homem casado e eu estava em uma boate repleta de caras livres e desimpedidos que adorariam uma boa transa.

─ Não finja que não quer também ─ ele me puxou novamente para junto de seu corpo rígido ─ Pois sou capaz de apostar que te deixei molhada.

Não resisti e o beijei outra vez, juntando meus lábios aos dele e girando minha língua macia, abrindo caminho lentamente através da boca do homem, que retribuiu de modo a atiçar até as partes mais difíceis de meu corpo.

Quando nos separamos, Christian deixou recair sobre mim seu olhar mais predatório, percorrendo todo o meu corpo com malícia, antes de finalmente perguntar:

─ Na sua casa ou na minha?

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