Capítulo 3


De azar eu entendo

Eu fiquei totalmente petrificada, não podia ser tão azarada assim. O único momento que não queria ver ninguém, somente conversar com Deus, me aparece justo ele, o homem que me chamou atenção nestes últimos anos tirando o Cassiano. É castigo de Deus por eu ser tão omissa e afastada da igreja, só pode!

— Tem certeza que está tudo bem? Quer conversar um pouco? — insistiu ele.

— Não... Melhor não... São alguns problemas... Mas... Somente isso... — Eu não queria falar, imagina! Falar o que para ele?

— Problema com relacionamento? — perguntou com o olhar tranquilo em mim.

— Não! — falei alto e rápido demais. — Desculpe, não... É com meu trabalho... Mas vai ficar bem.

— Ok... Se precisar conversar — pegou na minha mão e sorriu.

Ele sorriu! Que lindo... Que sorriso... Que dentes certinhos eram aqueles? E aquela barba ralinha? Era um convite a passar a mão. Seus olhos eram num tom quase verde, misturava uma folha seca com um caramelo, quase mel. Os lábios... Ah... Que lábios.

Eu o vi levantar e caminhar em direção a saída da igreja.

Será que ele me viu entrar e veio atrás de mim? Então ele já teria me reparado em mim. Hum... Isto ficava interessante. Olhei para frente e falei com Deus.

É assim? Eu peço uma ajudinha e o Senhor me traz um homem desses? Queria que eu contasse para ele meus problemas? Ah não meu Deus, isso foi uma tremenda sacanagem. — fiquei olhando sem foco para frente perdida, por fim falei:

— Obrigada meu Deus. — Passei as mãos no rosto na tentativa de achar uma explicação.

Fiquei ali mais um tempo com as mãos entrelaçadas.

Levantei. Sai da igreja olhando por todos os lados e fui embora para casa.

— Deia um rapaz trouxe umas compras. Guardei no armário e na geladeira — informou-me Ana, assim que entrei na casa.

— Obrigada, Ana... Vou fazer um macarrão, você almoça comigo? — perguntei.

— Deia obrigada, mas já almocei na Soninha e ela disse para você ir almoçar lá quando chegasse.

— Não... Eu não vou. Desde ontem que estou por conta dela — respondi. — Vou ficar uns dias por aqui melhor não abusar.

— Deixa de bobagem! Você deve comer igual passarinho não dá despesa nenhuma.

Sorri para ela pensando no meu café da manhã.

— Na verdade eu nem devia pensar em comer com o café que tomei na casa dela hoje.

— Mas o dia já correu Deia, está mais para uma merenda que almoço.

Olhei para ela sem entender, peguei meu celular na bolsa e estava desligado.

— Mas que horas são? — quis saber.

— Quase três, eu acho... Trouxe suco de cajá para você.

— Obrigada... Já tão tarde? Então vou fazer um lanche e deixar o macarrão para a noite.

Caminhei para a cozinha prendendo meu cabelo num rabo de cavalo. Montei um lanche e peguei o suco, fui para a varanda dos fundos olhar a praia.

Nossa casa ficava mais no alto com uma vista privilegiada. A frente da casa dava para a rua principal, mas ao fundo tinha uma varanda grande com as redes, uma vista linda da praia e muitos coqueiros. O vilarejo era bem tranquilo, o maior movimento era na Praia do Futuro, bem perto. Por aqui o movimento ficava por conta dos turistas das pousadas e as famílias locais.

— Deia, eu já vou, se você precisar de mais alguma coisa eu volto. Pensei em arrumar suas roupas, mas não achei muita coisa.

— Eu não trouxe nada... Nem ia ficar... Preciso acertar com você, quanto te devo?

— Quer deixar para depois não tem problema.

— Não! Melhor agora — Levantei para pegar minha bolsa.

— Vou fazer um cheque, tem problema? Estou sem muito dinheiro, pois uso mais o cartão. Vou deixar umas diárias a mais Ana, para depois que eu for embora você vir aqui e deixar em ordem.

Ela olhou o cheque e ficou parada.

— Mas quantas vezes você quer que eu volte?

— Depois que eu for...

— Mas aqui tem para mais vezes. — Olhou para mim sem entender.

— Ana... É uma forma de agradecer a sua disponibilidade de vir assim tão pronta, a sua filha ajudou também a Sônia aqui ontem.

— Imagina, Deia, ela não estava fazendo nada. Ajudou por que devemos muita obrigação a Soninha.

— Não pense assim, ninguém tem obrigação a nada, principalmente para mim que ela mal conhece. Aceite com bom agrado.

— Obrigada, Deia. Você saiu seu pai, ele sempre foi um homem bom.

— Quem sabe foi isso — falei voltando para sentar-me novamente.

— Posso te dar um abraço? — perguntou sem jeito. — Não estou mais suada, tomei uma ducha.

— Claro — Abraçamos. —, mesmo que tivesse suada poderia.

Que abraço gostoso. Tão verdadeiro. Reconfortante.

Depois que ela saiu fiquei pensando na vida.

Na vida da Ana. Reparei bem nela, não estava tão velha, mas com as linhas de expressões muito marcadas e uma pele e cabelos ressecados. Um bom tratamento capilar e de pele ajudaria muito. Aqueles antes e depois que passava na TV seria perfeito para ela, pois no fundo era uma mulher bonita, encontrava-se mal tratada.

E eu?

Quando foi a última vez que fui numa esteticista? Devia ter quase dois anos. Até isso o Cassiano me fez mal, puxa vida. Para ele estava tudo sempre bem, desde que eu não gastasse dinheiro, mesmo sendo o meu. Como não reparei nestas coisas antes? Cega e burra essa era outra verdade.

— Burra! — falei me levantando.

E como se houvesse descoberto uma grande tolice eu repeti:

— Burra, burra e burra mesmo! Eu nem perguntei o nome dele! — Lembrei-me do lindo.

Agora que me toquei que o rapaz do meu sonho veio falar comigo e eu nem me apresentei e lhe perguntei o nome. Mas também na situação que ele me pegou não tinha clima. Mas podia ter rolado um...

— Oi obrigada, como é mesmo seu nome? — Ou na hora que ele saía — Oi... Obrigada... Qual seu nome?

Já era! Passou! Dançou! Não posso marcar bobeira da próxima vez.

Deitei na rede e comecei a lembrar de cada feição dele. Seu sorriso lindo, sua voz... E o pé? Que pé lindo. Unhas cortadas rentes.

Eu rolava na areia com ele, rindo, rindo muito. Seu rosto muito próximo do meu sem tocar. Eu queria seus lábios nos meus, mas ele parecia fazer charme. Não deixou eu alcançar seus lábios... Mas sorria.

— Deixe que eu te beijar — eu pedia.

A água do mar estava quase chegando a nós, e ele fazia que rolássemos mais e mais...

— Vamos nos molhar! — eu gritei.

Rolava, rolava, rolava...

— Ah! — Acordei assustada quase caindo da rede.

Sentei e olhei ao redor.

Por um momento eu esqueci onde estava e fiquei um pouco perdida. Sonhava com o rapaz de novo.

O que era isso?

Quando fiquei assim?

Na adolescência?

Eu devia ficar com vergonha dos meus pensamentos e sonhos, uma mulher na minha idade sonhando assim.

Levantei. Peguei minha bolsa e meu celular. Já entardecia e o vento soprava forte, por isso eu entrei na casa.

Verifiquei meus e-mails. Vários escritores perguntavam dos seus originais que estavam comigo, pois queriam saber minha opinião. Eu evitava dar meu contato direto justamente por isso, uma coisa que eu detestava era pressão. Se eu tivesse programado essa ida para casa de praia poderia ter trago para ler alguns. Nem meu tablet trouxera. Mamãe nem um computador para deixar por aqui. Mas na verdade era disto que eu precisava. Ficar longe de qualquer tecnologia, arejar a cabeça. A primeira atitude que fiz quando sai do meu apartamento foi retirar do meu celular a minha localização.

Entrei na rede social do Cassiano. Acho que foi uma ação totalmente automática. Não podia acreditar, ele trocou a foto dele para uma com dois bonequinhos abraçados. Olhei seu perfil. Solteiro, mas não tão livre.

— Cara de pau! – falei.

Fechei tudo!

— O que eu estou querendo?

— A-ca-bou!! O que você não entendeu, Andrea?

Fui para o quarto, entrei no banheiro para uma ducha. Eu tinha intenção de caminhar no final da tarde, pois neste horário o vento era quase insuportável, a areia batia na perna cortante.

**

Fazia um macarrão quando escutei alguém chamar. Era Geise.

— Entra Geise, estou na cozinha — gritei.

— Hein! Maínha está esperando você para o jantar, disse que não apareceu para o almoço. Está tudo bem?

— Sim, está. Eu não quero baldear a sua mãe, ela já tem por demais.

— Biró? Larga disto! Até parece que somos estranhos.

— Também não estou sendo uma boa companhia — Parei de repente olhando para ela. — Quero ficar aqui para esquecer um pouco meus problemas e tentar pensar numa solução.

— Entendi está de lundu e prefere ficar sozinha, é isso? – perguntou com o olhar triste.

— Não é que estou mal humorada, mas não sou uma boa companhia — falei mais perto dela segurando sua mão. — Você me entende?

— Deia, mas desde quando somos amigas somente nas horas boas? Estou aqui e vou comer esse macarrão com você. Veja se isso não é prova de amor! Que amiga faz algo assim? Vou deixar a comida da maínha pela sua. Mas vou lá para avisá-la. Vamos conversar e chorar juntos se precisar.

Falou e saiu sem me deixar argumentar. Quando voltou estava com uma vasilha na mão.

— Pelo menos a sobremesa eu trouxe, pamonha. Não dar para ser amiga demais até na sobremesa, ?

Depois que jantarmos sentamos na área e ficamos conversando. Ela falou durante o jantar do 'varapau' e que, por motivo da diferença de idade deles, ela não queria assumir. Na verdade gostava da companhia dele, mas sentia que não era amor.

— Eu fico falando e você me enrola, agora é sua vez de contar tudo que está te afligindo.

— Nossa Geise... Não é uma história curta, na verdade começou a mais ou menos dois anos quando eu conheci o Cassiano.

— Estou sem pressa. E que tal começar de trás para frente, ou melhor, o que te fez chegar aqui sem rumo?

— Esse é o problema! Eu vim sem rumo e com ódio do Cassiano. Achando-me ser um botão perdido na rua. Mas...

— O que mudou?

— Não sei... Fiquei pensando... Na verdade eu estou cheguei a conclusão que foi um alívio ele sair da minha vida. Estranho, eu sei, porém no lado profissional eu não o quero mais perto de mim.

— Tá! Deixa-me ver se estou te acompanhando. Você achava que ele era o amor de sua vida, estava birolada por causa de terem terminados, mas agora descobriu que ele é um filho de uma égua e está dando graças a Deus.

Somente rindo, a Geise sabe ser engraçada até mesmo na pior das tragédias. Fez um resumão quase perfeito.

— Mais ou menos isso — respondi.

— E o rapaz da capoeira tem algo a ver com isso?

— Geise! Tenho que te contar, menina. Teve mais uma parte hoje. — Levantei e sentei perto dela.

— O viu hoje de novo?

— Vou te contar.

Depois de contar o lance da igreja, ela perguntou:

— Deia, você tem certeza que não é o padre?

— Padre, Gei! Por quê?

— Qual o nome dele? — ela perguntou ressabiada.

— Você acredita que essa tonta aqui se esqueceu de perguntar? Mas no meio de uma crise de choro, não dava, concorda?

— O padre chama Jeremias e é novo, bonito e muito educado. O povo daqui da vila gosta muito dele, mas as turistas enchem a igreja quando descobre ele na praia, mas dizem que é muito tímido.

— Claro que não é — Fiquei quieta. — Será? Não pode ser, eu não posso ser tão azarada assim.


Baldear – Atrapalhar, dar trabalho

Biró - Endoidou

Lundu – Mau humor

- Varapau – pessoa muito alta



Ele quem?
O padre?
O da capoeira? Ou eram o mesmo?
Bjs
Lena...

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