Ato 14

      Algumas pessoas se encontram. Outras se perdem. E há aquelas que sabem o que querem da vida e não medem esforços para atingir seu escopo.

      A passagem do Natal na fria Nova York não esmoreceu os corações das pessoas, que continuaram a comprar nas lojas e shoppings centers. Com a diferença de que a cidade não estava mais tão habitada, já que muita gente saiu para viajar, para o interior ou para o exterior.

      Rebecca foi uma das que ficaram. Em meio aos consumidores que disputavam um espaço para andar no corredor de um dos mais elegantes shoppings, a moça andava com duas sacolas. Vaidosa, estava linda em seu trench coat cinza, combinando com a calça legging e as botas de cano alto.

      As preocupações para o ano vindouro lhe saíam da mente enquanto andava. Tinha sido um bom ano, afinal. Não era da igreja protestante frequentada por Trixie, onde o pastor conclamava os fiéis a agradecerem efusivamente a Deus pelas vitórias obtidas, mas estava agradecida por pelo menos não ter se machucado.

      O Natal nunca lhe tivera importância. Não no sentido religioso. Por que haveria de ter? Era judia. E filha de rabino. Há alguns dias festejara o Hanuká, única celebração importante do mês de dezembro. Todas as sextas após o pôr do sol sua família se fechava dentro de casa para o descanso do Shabat e não faziam nada senão orar.

      Obviamente Rebecca não podia cumprir esse preceito por causa de seu trabalho.

      A dança não para, nem espera, muito menos respeita religião.

      Bailarino não pode ter religião, Margareth lhe dissera um dia.

      Rebecca não se importava com isso. Tinha pouco apego pela religião de seus antepassados, achava o judaísmo antiquado em muitos aspectos. Não fazia questão de comer alimentos Kosher, mas não era tão rebelde a ponto de comer carne de porco.

      A garota se sentia um pouco sozinha por ser uma das poucas judias na companhia de balé. Trixie, Hope e Skylar eram as únicas com quem ela tinha relações de amizade, e ainda assim, começava a achar que as coisas sofreriam mudanças no ano vindouro. Trixie era só uma boa bailarina de corpo de baile, sem grandes ambições. Mas Skylar não. Skylar evoluía de forma impressionante a cada semana, e se o espetáculo Lago dos Cisnes tivesse acontecido duas semanas depois, ela teria ganhado um papel mais importante. Talvez o de Rebecca.

      O fator tempo salvara a moça. O tempo tinha corrido a seu favor, ou melhor, o tempo a mais que Skylar não teve.

      Rebecca deliberava novas variantes para não perder o que havia conquistado com tanto esforço, quem sabe até ganhar mais, mas sem trapacear. Quem sabe aulas particulares, workshops.

      Então, se sentiu ridícula por pensar nessas bobagens e teve medo de estar ficando paranóica. 

      O melhor era esquecer do trabalho e aproveitar os últimos dias gastando. 

      A garota reconheceu alguns de seus colegas, se limitou a cumprimentá-los com discrição. De longe.

      Sabia diferenciar colegas de amigos. E suas amigas estavam naquele momento fazendo coisas mais legais. Skylar estava na casa dos pais na cidadezinha chata de Iowa onde a moeda corrente era o milho, em companhia de Troy Bayle. Hope viajara para o Brasil com os pais. E Trixie estava na costa oeste. Em Miami.

      Só a garota ranzinza neta de Casimere Stelmann ficara.

      Quando já se aproximava da porta giratória do shopping, Becca olhou para o lado. Viu no final do corredor, encostado a amurada, Thomas Leroy.

      O temido diretor da companhia, que construía e destruía carreiras, não tinha companhia e uma ideia surgiu na cabeça da moça.

      — Oi — ela sorriu ao se aproximar.

      Leroy respondeu com outro sorriso.

      — Rebecca — ele a fitou com atenção. — Que surpresa. Não quis viajar?

      — Sou um pouco reclusa e não vejo graça fora de Nova York.

      A moça mordeu os lábios rosados, continuando:

      — E você, também não quis sair de férias?

      Como de hábito, Leroy franziu os lábios.

      — Não gosto de ficar longe do teatro. Aproveito esses dias de férias para ir até lá, tocar o piano, ler um livro, para ver se surge alguma ideia. 

      — Para um balé? Uma coreografia, quem sabe?

      — Sim. Minha cabeça não para um segundo. Tem sempre alguma coisa que eu esteja pensando. E eu tenho ideias novas para a próxima temporada.

      O canto esquerdo da boca do diretor se entortou quando ele notou a curiosidade da bailarina.

      — Uau…! Eu gostaria de saber — ela confessou.

      — Não revelo meus segredos antes da hora.

      — E… por acaso eu faço parte dos seus planos?

      Em segundos as bochechas de Rebecca queimaram. Ela se arrependeu prontamente de ter feito a pergunta, desejando que o chão se abrisse para ela se esconder.

      — Todos vocês fazem.

      Leroy viu a malícia implícita na expressão da moça. Ela tinha ambição. Mas quem em sua companhia não tinha? Muitas de suas contratadas possuíam um senso duvidoso de honestidade e eram capazes de tudo para se dar bem.

      Até se venderem.

      — Estou ansiosa para voltar ao trabalho — Rebecca confessou. — Sabe, começo de ano. Tudo novo.

      — Se quer saber se haverá novidades, cherie, a curto e médio prazo não pretendo começar nada novo. Quando voltarmos das férias, vou dar continuidade a Lago dos Cisnes tal como paramos.

      Um “ah” desanimado escapou por entre os lábios da moça, que se convenceu que podia ter passado sem essa. 

      Mesmo livre do trabalho, o ex-bailarino continuava ríspido, como se pudesse sentir-se sempre acima de todos. Rebecca gostava dessa jactância. Essa empáfia o fazia parecer inabalável, forte, interessante.

      Não é a toa, ela pensou, que Beth faz tudo por ele.

      Mas Rebecca não era de se rebaixar, não era de mendigar atenção de ninguém, pois tinha amor próprio, e além de tudo, era judia. Sustentando o olhar impactante do homem no seu, com o coração aos pulos e a boca sem palavras para continuar uma conversa que nem devia ter conversado, deu um sorriso, simplesmente disse:

      — Algumas mudanças são sempre bem vindas.

      — Às vezes.

      Rebecca riu e o enlevo de sorriso formado pelos lábios do diretor deu-lhe um pouco de coragem.

      — Se me der uma chance, posso mostrar que vale a pena.

      Leroy não respondeu, se limitando a entortar uma das sobrancelhas em desafio.

      — Bem — a garota disse —, preciso ir. Foi bom vê-lo. Caso não nos encontremos mais por aí, te desejo feliz ano novo.

      — Feliz ano novo — a voz dele permaneceu neutra. 

      Mas os olhos, ao contrário, ganharam um estranho brilho que criou uma súbita conexão com a jovem, que andou sensualmente até sair do campo de visão de Thomas Leroy.

      Acendeu um cigarro ao entrar no carro, expeliu a fumaça pelas narinas depois de dar uma boa tragada, e se sentindo de repente confiante, disse a si mesma que o corpo de uma bailarina não é apenas uma linda escultura para ser admirada e uma máquina para dançar.

      O corpo de uma bailarina também seduz.

      Rebecca usou o seu corpo para tentar conseguir um upgrade para sua carreira. Ela e Leroy se deitaram várias vezes, viajaram secretamente para os Alpes Suíços e viveram situações de casais apaixonados que se entregam inconsequentemente aos desejos da carne. 

      A garota acreditou ingenuamente que tinha conquistado o coração do homem que admirava e que a colocaria como estrela de uma de suas futuras produções. Porém, o coração dele era inconstante; ele só queria o corpo da jovem.

      Faltando dois dias para o retorno ao trabalho, Leroy chamou Rebecca em seu escritório. E sem dar explicações, demitiu-a.

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