UM
GISELE
3 ANOS DEPOIS
A música alta leva a voz da cantora Anitta para todos os lugares, o local lotado não está com o cheiro muito agradável depois que um cliente vomitou no chão, mas ninguém parece notar, no palco uma mulher nua faz movimentos sensuais ao som da música latina, tento não olhar muito nessa direção e me concentro em meu trabalho que é basicamente fazer caipirinhas e entregar cervejas. Alguns homens fazem gracejos ou jogam diretas nojentas em minha direção, mas eu finjo não notar, o local está cheio de meninas mais que dispostas a subir com eles para um dos quartos no andar de cima, mas eles parecem sentir prazer em encher a pora do meu saco! A senhora Cora, dona aqui do prostíbulo, diz que o motivo são os meus peitos que são exageradamente grandes ou o fato deu ser uma garota de vinte anos, seja o que for eu só queria que eles parassem de me encarar como se fossem me atacar a qualquer minuto.
– Amiga eu preciso de mais camisinhas, as do meu quarto acabaram – olho para Dix parada com seus saltos 15, de shortinho minúsculo e apenas com um sutiã vermelho chamativo, ela é a única amiga que fiz nesses 2 anos que trabalho aqui.
– Certo, fique de olho aqui no bar que vou até lá atrás – faço um gesto com a cabeça apontando os fundos.
Saio do bar e vou em direção ao estoque, a Dona Cora faz questão que todas as meninas usem preservativos, pois segundo ela "uma puta doente não rende". Ela confiou em mim a chave do estoque, pois eu preciso constantemente abastecer o bar e com isso durante o expediente eu que tenho que pegar camisinhas para as garotas, no início eu me sentia mortificada cada vez que uma delas vinha me pedir pelos preservativos, mas agora eu já me acostumei.
– Isso aqui está uma bagunça – murmuro para mim mesma enquanto tento achar em meio as garrafas de cerveja a caixa de preservativo.
Quando estou prestes a sair a porta da dispensa é aberta e com horror vejo quando uns dos clientes que estava lá no bar passa pelo batente. Ele com toda certeza tem o dobro do meu tamanho, tento pensar rápido no que fazer pois ele olha pra mim com uma cara horrível e assustadora.
– Então gostosinha dizem por aí que você é virgem – ele fala com voz arrastada pelo excesso de bebida – mas eu estou aqui para resolver o seu problema delícia, faço um arraso nesses seus peitos.
– Acho melhor o senhor sair daqui agora, eu não quero machucá-lo – falo com voz mansa, pois é melhor evitar uma briga, mas por dentro estou fervendo.
– Acho melhor você ocupar essa boquinha carnuda chupando meu pau – ele diz e vem para cima de mim, eu não me apavoro ao contrário a adrenalina toma conta do meu corpo pelo confronto iminente quando ele se aproxima o bastante eu levanto o joelho e chuto no meio de suas pernas, quando ele se curva pela dor eu dobro o cotovelo e acerto seu nariz, o sangue escorre imediatamente e ele ura pela dor e cai ajoelhado no chão, suspiro desanimada esse foi muito fácil, nem de longe foi o suficiente descarregar a raiva que está acumulada em meu peito.
Contorno o homem que ainda está no chão e com a caixa de camisinhas nas mãos saio do estoque, quando volto para o bar a Dix me olha com a cara amarrada.
– Poxa Gisele tive que dispensar um cliente porque você demorou demais. Poxa vida
– Não fala assim dona Amanda, eu tive problemas.
– Primeiro é mais importante não e chame de Amanda aqui dentro, segundo o que aconteceu?
– Um idiota me seguiu até lá atras e eu tive que dar um jeito...
– Haha – ela fala apontando um dedo pra mim – eu disse que os noventa reais, das aulas de defesa pessoal não eram dinheiro jogado fora.
Antes que eu responda um homem chega perto dela e chama sua atenção. Diferente de mim que sou negra, gordinha e baixa a Amanda é alta ruiva e com a pele tão branca que por vezes posso ver as marcas que os clientes deixam nela e não é só na aparência que somos diferentes na personalidade também enquanto eu sou toda brincalhona ela é séria e muito fechada acho que por tudo que ela já passou na vida.
– Esse é meu último cliente da noite quando terminar a gente já pode ir – ela me fala antes de ser arrastada para longe pelo homem baixinho e de aparência duvidosa.
Resolvo avisar dona Cora sobre o incidente de mais cedo, ela não gosta muito do que fiz, mas também não me repreende apesar do jeito durão e às vezes super grosso, ela zela muito pelo bem estar de "suas meninas". Depois de resolvido esse assunto volto ao trabalho.
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Já passa das três da madrugada quando Amanda se despede de mim entra no apartamento dela, eu apenas escoro a cabeça na minha porta quando percebo pela pequena fresta embaixo que a luz da televisão ainda está acesa o que significa que meu pai está largado no sofá bebendo, fico um pouco no corredor até ver alguns moleques descendo a escada e sei bem quem são e o que estão fazendo essa hora pelos corredores como não quer me envolver em encrenca e tenho amor a minha vida rapidamente destranco a porta e entro.
– Olha a vagabunda, prostituta finalmente chegou em casa – meu pai fala assim que me ver e respiro fundo constatando que não vai ser hoje que terei uma noite tranquila.
– Pai eu já expliquei que não sou uma prostitua, eu só faço as bebidas.
– Como se eu acreditasse nisso, todo mundo sabe o que você faz todos sabem que não passa de uma rameira. Você sempre foi uma safada, vadia e hoje a gente está aqui nesse muquifo porque você não conseguiu manter essas pernas fechadas e deu pra o filho do patrão, desde sempre uma putinha.
Eu fico apenas calada escutando, há muito tempo aprendi que de nada me adianta retrucar suas palavras é como se ele não ouvisse, meu pai sempre foi um homem turrão, ignorante e difícil, mas depois que fomos expulsos da fazenda, ele começou a beber cada vez mais e com isso se tornou agressivo comigo. Minha mãe no fundo concorda com ele, apesar dela não me agredir fisicamente ela nunca me defendeu nem de suas ofensas nem de suas surras.
– Não vai falar nada sua puta? – ele berra e vem para cima de mim, mas como está bêbado demais acaba caindo de volta no sofá. Eu passo por ele e me tranco no meu quarto bem a tempo das primeiras lágrimas descerem dos meus olhos.
Eu sinto ódio, raiva, vergonha, humilhação e lá no fundo algo que me deixa ainda pior: eu sinto saudades. Abro a gaveta do móvel ao lado da cama e de lá tiro a foto com seu papel já velho e meio desbotado, observo os olhos verdes que um dia foram meu lar e porto seguro, choro ainda mais quando as lembranças de tudo que aconteceu vem a minha mente.
Eu tinha dezessete anos, e me entreguei a ele, ficamos juntos por toda aquela noite curtindo nosso amor juvenil, mas pela manhã os pais dele invadira o quarto, não foi uma cena bonita a mãe dele me ofendeu dizendo que eu era uma aproveitadora barata atrás da fortuna do filho dela, que ele teria capacidade de arrumar uma moça de boa família muito mais bonita e magra que eu. Que uma simples cachorra vira-latas não ia estragar o futuro do filho.
Dona Eugênia me pegou pelos cabelos e ainda nua me tirou do quarto fui sendo arrastada para fora da casa apenas agarrada ao lençol que eu usava para tentar tapar o um corpo, ela me xingava e dizia coisas horríveis para mim me humilhando da pior forma possível. Foi jogada na terra seca da entrada. Me levantei rapidamente e corri pra minha casa tentando não prestar atenção em todas as pessoas que olham pra mim. Achei que era a pior humilhação que já passei na vida, mas eu estava enganada.
O pior estava por vir.
Depois de um tempo a porta da minha casa foi aberta, meu pai entrou igual a um furacão enquanto eu ainda chorava abraçada com meu travesseiro, mais uma vez fui arrancada de cima da cama. Meu pai me puxava pelos cabelos ate me tirar de dentro do pequeno casebre. Quando olhei ao vários funcionários da fazenda estavam ao redor olhando pra mim. Quando a primeira chicotada me atingiu eu urrei pela dor, meu pai usava um chicote de domar cavalos para me bater a cada golpe eu chorava e implorava para que parasse, mas ele não tinha piedade. Minha súplica parecia irritá-lo ainda mais, pois a força que ele usava para descer o chicote em minha pele, que mal estava coberta pelo fino pijama que eu usava, ia aumentando cada vez mais.
Quando levantei o meu rosto eu o vi ele estava lá parado olhando o que acontecia comigo e não falava nada, eu implorei por ajuda, mas ele não moveu um músculo em minha direção. O chicote queimava em minha pele, mas ele não dizia uma palavra em meu favor.
Quando meu pai se deu por satisfeito, meu corpo inteiro doía, mas meu coração sangrava, por que só eu estava sendo punida por uma coisa que fizemos juntos? Mas eu não coloquei essas palavras para fora, pois o senhor Alberto jogou algumas notas aos pés do meu pai e depois disse:
– Vocês têm até o fim da tarde para sair das minhas terras, não quero nunca mais olhar para a cara imunda de vocês.
E assim os três deram as costas, meu pai me encarava com ainda mais ódio enquanto a minha mãe chorava em algum canto, mas eu não prestei atenção nisso,tudo que eu olhava ela pra ele se afastando sem nenhum momento olhar para trás.
Ele se foi enquanto eu fiquei lá destruída.
E eu nunca vou perdoá-lo por isso.
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