TRÊS
GISELE
"JULGAMENTO EM TEMPO RECORDE"
"PESSOAS POR TODA A INTERNET PEDEM POR JUSTIÇA"
"A MAIOR TRAGÉDIA DO ANO PASSADO"
"CENTENAS DE VÍTIMAS E POUCOS SOBREVIVENTES"
"CPI DOS IPÊS: SAIBA TUDO SOBRE A INVESTIGAÇÃO DE DESVIO DE VERBA DOS CONJUNTOS HABITACIONAIS"
Passo pela confusão de repórteres sendo amparada pela minha advogada e por alguns policiais que fazem a segurança em frente ao fórum, já lá dentro respiro fundo e antes de entrar na sala de audiência sou orientada por vários advogados a responder as perguntas de maneira mais sincera possível. Quando me sinto preparada limpo a palma das minhas mãos na calça jeans esfregando incessantemente na minha coxa, estou tão nervosa que poderia vomitar aqui mesmo nesse corredor.
Um policial sai da sala e chama pelo meu nome completo, eu tenho vontade de sair correndo e não olhar para trás, mas a minha advogada coloca a mão sobre meu ombro me dando força.
— Lembre-se que eles armaram esse circo todo por mídia, mas essa é a sua chance de conseguir justiça — Aline fala e eu apenas concordo com a cabeça, tomo coragem e entro.
A sala de audiência está lotada, como a tragédia teve bastante repercussão na mídia, vários jornalistas e curiosos estão no auditório. Passo por todos eles me sentindo mais nervosa a cada passo até chegar a frente onde tudo vai acontecer. No meio da tribuna está o juiz ao lado direito o promotor e mais para o lado os jurados, do lado esquerdo tem um mundaréu de pessoas que eu não sei de quem se trata e no centro de tudo isso uma mesa com duas cadeira e é para lá que minha advogada me encaminha e é com alívio que eu me sento, pois as minhas pernas tremem mais que vara verde e eu poderia facilmente cair de joelhos a qualquer momento.
o Juiz meio carrancudo olha direto para mim e pergunta meu nome é a minha idade e eu rapidamente respondo:
— Meu nome é Gisele Santos Martins e tenho vinte e dois anos.
Ele então me diz algumas coisas que previamente já me foram explicadas pelos advogados e então eu sei que devo dizer somente os fatos que ocorreram há um ano, sem mentir e sem exagerar, quando ele me pergunta se entendi respondo com um sim meio estrangulado e o excelentíssimo dá a palavra a promotora que fica a minha frente e ai começam os questionamentos:
— Você pode nos contar como foi morar no conjunto habitacional jardim dos ipês – a elegante mulher trajada com um terninho cor vinho me pergunta
— Eu nasci no interior, no município de Ribeirão que é meio que a zona rural da cidade de Alvorada. Meus pais também são... quer dizer eram do interior. Quando eu tinha dezoito anos o meu pai foi demitido da fazenda onde ela era capataz e nós viemos para Belo Horizonte, para encurtar a história entramos na lista de assistência a moradia e assim conseguimos o financiamento do apartamento.
— Você foi morar lá de graça?
— Não, como eu disse fizemos um financiamento popular, minha mãe fez tudo corretamente e os papéis estavam no nome dela Rosangela santos Martins, eu pagava a prestações e sempre fui muito correta, nunca atrasei um dia sequer, tinha muito medo de perder nosso unico lugar de viver.
— Quer nos contar o que ocorreu no dia cinco de março?
Não eu não quero, esse é o pensamento que passa pela minha cabeça, eu não quero falar sobre isso eu gostaria só de fechar os olhos e esquecer que esse dia aconteceu, mas não é isso que eu respondo, engulo o no que se faz na minha garganta, o lugar está em total silencio e todas a s pessoas estão me encarando esperando a resposta:
— Eu acordei cedo naquele dia e fui para o trabalho, eu trabalhava em uma sorveteria que ficava na mesma rua do condomínio, chovia forte aquele dia que foi bem tranquilo, mas de repente eu escutei um estrondo o mais alto que já tinha escutado em toda minha vida e então tudo ao meu redor tremeu como se fosse um terremoto, eu me escondi e foi então que o segundo tremor veio acompanhado de mais barulho.
— É o que aconteceu depois disso?
— Eu perdi o meu mundo...
Depois que o segundo tremor aconteceu fiquei por vários, creio que uns vinte, minutos embaixo do balcão da sorveteria, com medo e confusa, eu não queria sair de lá, mas também estava curiosa para saber o que estava acontecendo. Quando me levantei e olhei para fora a chuva ainda caia, mas várias pessoas corriam enlouquecidas pela rua gritando palavras que eu não conseguia entender misturadas a pedidos de socorro. Lentamente fui andando até a porta do pequeno comércio e assim vi a primeira ambulância.
Quando cheguei a calçada era como se estivesse entrado em um filme de guerra a rua estava tomada de poeira, sim poeira em meio a toda chuva que descia implacável, e quando eu olhei para o final da rua eu não vi nada.
Só podia estar ficando louca, não é possível... Não é possível... Não!
No lugar onde antes se estendiam os dois prédios residenciais de dez andares cada agora não tinha nada, apenas a densa poeira. Levantei as mãos e esfreguei os olhos na tentativa, aliás com a esperança que meus olhos estivessem com algum problema ou que eu estivesse enxergando coisas. Fiz isso por diversas vezes e o resultado ainda era o mesmo, apenas o vazio.
Cada vez mais sirenes e gritaria tomava conta das ruas e foi isso que me despertou do choque que me encontrava, me virei desci as postas da sorveteria e corri para casa, mas quando cheguei lá tudo que restava eram escombros entulhados. O desespero em meu peito era tão grande que só consegui ficar lá parada encarando a tragédia a minha frente pessoas passavam por mim chorando e gritando desesperadas, mas eu nem isso conseguia eu só fiquei lá parada deixando o desespero tomar meu corpo.
— E depois o que ouve? — A promotora pergunta e eu meio que volto a realidade, mas o bolo que toma minha garganta dificultando minha respiração não vai embora é como se eu ainda estivesse lá parada respirando toda aquela poeira.
— Eu fiquei lá parada por três dias até cair de exaustão. Não me lembro bem do que aconteceu, a psicóloga diz que eu tive um quadro de amnésia dissociativa devido ao forte trauma que estava passando.
— E o que aconteceu depois?
— Eu não aceitei ir para o hospital, não iria sair dali sem saber dos meus pais e dos meus amigos, fui atendida em uma das ambulâncias, tomei uma medicação e voltei pra perto de onde ocorreu o desabamento.
O primeiro corpo que encontraram foi da minha mãe, mas ela estava irreconhecível, quando o corpo foi retirado eu vi a blusa rosa com o casaco vermelho que ela usava quando a vi pela última vez na cozinha de casa. Só cinco dias depois que o corpo do meu pai foi encontrado, ele estava reconhecível, os bombeiros e voluntários o acharam ainda na cama, foi no mesmo dia que encontraram a Amanda e foi nesse dia que meu coração foi para sempre destroçado eu ainda tinha esperanças...
Esperava que eu não estaria totalmente sozinha neste mundo, meus pais nunca foram amorosos ou carinhosos e nos últimos tempos acho que eles me odiavam mais que tudo, mas ainda sim eles eram os meus pais e eu os amava.
— Eu não tinha nem mesmo dinheiro para enterrá-los a prefeitura que cuidou disso. — falo entre as lágrimas — Foi um velório comunitário o professor joão, Amanda os meus pais... eu velei todos juntos e enterrei com eles meu coração, naquele dia eu perdi tudo e não estou falando das coisas materiais até porque eu não tinha quase nada, eu estou falando do mais importante as pessoas que eu amava.
Um lenço é colocado à minha frente e percebo que falei demais, mergulhei no passado e só coloquei para fora tudo que estava me machucando ao longo desses meses.
– Sem mais perguntas – A promotora fala e então é a vez da minha advogada se pronunciar, ela se levanta e para a minha frente.
— Você quer falar sobre o que aconteceu a três meses? — a advogada me pergunta e eu aceno positivamente.
— Eu fiquei sem casa, sem família e graças aos céus a dona Cora, uma amiga, me abrigou. Mas eu entrei em uma depressão profunda e há três meses tudo se tornou demais para suportar e daí eu tomei uma medida drástica — levanto as mangas da minha blusa e mostrou as marcas em meu pulso.
Minha Advogada então pergunta coisas mais técnicas sobre como era morar no edifício, se eu achava seguro, se eu já tinha notado algo anormal:
– Na parede do meu quarto tinha uma rachadura enorme, até chamamos o síndico pra dar uma olhada, mas não passou disso, eu não sabia que podíamos reclamar, eu morava numa casinha de madeira no interior não sabia que aquilo não era normal.
Repondo sem exitar a bateria de perguntas até todos se darem por satisfeitos.
— A testemunha está dispensada. — o juiz anuncia e eu me levanto mas não quis sair da sala queria ver os desdobramentos da audiência. Um homem, que eu não sei quem é começa a falar:
— Bom senhores, o depoimento da Gisele Martins veio para corroborar o que temos tentado provar desde que começamos esse julgamento, que os eventos ocorridos naquele dia destruíram famílias....
O homem continua a dar seus discursos, mas mente se distrai um pouco quando vejo a única filha da dona Ana, assim como eu estava no trabalho quando os prédios vieram abaixo, a velha senhora de quem eu gostava tanto foi uma das vítimas, aliás o corpo dela foi o primeiro a ser achado. Olho para Franciele e vejo espelhada nela a mesma dor que a minha e isso me faz chorar mais um pouco.
Por horas escuto engenheiros falando dos motivos que levaram à queda dos prédios ipê branco e ipê amarelo e pelo que entendi foram usados materiais de baixa qualidade na construção do prédio. Depois especialistas falaram sobre desvio de verbas e de recursos e isso encadeou um grande alvoroço. Foi falado sobre negligência e omissão do poder público e com isso houve uma confusão entre algumas pessoas presentes e isso fez com que o juiz mandasse esvaziar a sala e tive que sair, mas o julgamento prosseguiu.
Três dias depois a sentença finalmente saiu, várias pessoas foram responsabilizadas, mas segundo a minha advogada provavelmente elas não vão sequer ser presas , pois cabe recursos. Mas a minha vida mudou naquele julgamento, o juiz decidiu que os sobrevivente e as famílias dos mortos seriam indenizados, mas a minha advogada tinha me alertado que isso poderia acontecer, mas que não seria uma quantia grande de dinheiro, mas pra mim que não tinha nada receber meio milhão de reais por parente falecido é uma chance de mudar a minha vida.
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