SEIS
GISELE
Minhas pernas tremem mais que vara verde, dou graças a Deus por ter escolhido uma calça pantalona que é totalmente folgada nas pernas, minha boca está seca e meu coração bate tão forte que juro que consigo ouvi-lo.
— Gisele? — a voz dele me alcança e sinto que posso desmaiar, mas me obrigo a permanecer de pé — é você mesma?
— o que querem aqui? — pergunto a voz tremendo levemente no final e eu amaldiçoo por isso, não quero parecer fraca na frente dessas pessoas.
— Vocês se conhecem? — Alberto Dionisio pergunta e sinto nojo só de ouvir essa voz.
Claro que ele não me reconheceria eu mudei pra caramba ao longo desses anos, além do envelhecimento normal que passei dos dezoito aos trinta anos no período em que estive deprimida eu emagreci bastante e a uns dois anos me submeti a uma cirurgia plástica de lipoaspiração e também realizei uma mamoplastia redutora, pois o peso dos meus seios já estavam atrapalhando a minha saúde, e apesar de agora ainda não ter um corpo considerado padrão, deixei de ser a garota obesa que era no fim da minha adolescência. Também cuidei mais de mim, a madrinha me influenciou até nisso, ela era uma mulher vaidosa que cuidava muito de si mesma e ficava louca quando eu dizia que não gostava de maquiagem. Cora me ensinou a cuidar da pele com cremes, óleos e séruns, me ensinou a me alimentar bem e a fazer exercícios, me mostrou como me maquiar de maneira a valorizar meu rosto e hoje eu amo fazer tudo isso, me tornei uma mulher bastante vaidosa
— Como você.. — Anthony fala mais uma vez e sinto uma mistura de raiva, saudade e ressentimento.
— Eu sou a proprietária dessa fazenda e ainda não me responderam o que fazem aqui. – falo mais incisiva.
— bom, viemos conhecer a nova vizinha e olhando assim você não me é estranha... — Alberto fala, mas eu não consigo desviar meu olhar que está preso ao filho dele.
Anthony faz menção de se aproximar e eu dou um passo para trás de maneira automática e esbarro em alguém atrás de mim. Gabriel coloca a mão em meu ombro e eu olho para ele rapidamente que me encara com o cenho franzido, o coitado não deve estar entendendo nada.
— Quero que vocês vão embora das minhas terras agora — falo com uma firmeza que na verdade eu não estou sentindo.
— O que é isso moça? Que modos são esses? Não é assim que se trata os vizinhos e eu..
— Pai, para com isso agora. Você não está reconhecendo? É a Gisele, a minha... — ele limpa a garganta antes de terminar — quero dizer a filha do Pedro e da Rosa.
— Não pode ser — o pai dele olha para mim com atenção e eu quero me encolher, mas não vou dar a eles esse gostinho então empertigo a coluna e o encaro de volta com altivez. — como a filha do Pedro ia acabar se tornando dona de terras? De tudo isso aqui.
— Creio que não é da sua conta e quero que vocês dois saiam agora daqui, não quero ter o desprazer de ter um Dionisio pisando em minhas terras.
— Como ousa? — Alberto começa e quando estou pronta para literalmente soltar os cachorros em cima deles, Gabe toma a dianteira.
— Vocês escutaram a Gisele, saiam agora e evite confusão não são bem vindos.
— E quem raios é você? — Anthony pergunta com evidente desprazer.
— Realmente creio que isso não é da sua conta — falo e dou as costas olhando para o meu amigo — cuide para que os Dionísios achem a saída.
Caminho com segurança para dentro da casa, com a cabeça erguida e passadas firmes, mas assim que me encontro na proteção das paredes recentemente pintadas de branco eu desabo. Caio ajoelhada no chão com a mão no peito, como se o gesto fosse fazer com que meu coração parasse de doer, minha respiração está entrecortada e o ar tem dificuldade a chegar aos meus pulmões, minha cabeça roda e tenho a impressão que posso desmaiar a qualquer instante, coloco a mão no chão sentindo o gelado gostosos do mármore, sempre que fico assim preciso de alguma coisa sólida para me servir de ancora e impedir que minha mente se perca.
— Respira fundo, eu to aqui com você. Não se perca Gisele — Gabe me abraça e sussurra as palavras no meu ouvido e assim ficamos por vários e vários minutos, ele tentando me ajudar a passar pela crise de ansiedade.
Eu sempre fico muito mal durante as crises que começaram pouco depois do desabamento, mas o problema principal é que às vezes eu tenho apagões onde minha mente fica completamente em branco, a psicóloga, Doutora Mariana, diz que eu tenho algo chamado stress pós traumático e também sofro de ansiedade além da depressão que por hora está estabilizada.
Quando termina eu me sinto exausta e acho que não sou capaz nem mesmo de ficar em pé, Gabriel já meio que se acostumou com meus momento e por isso já sabe o que fazer, ele então passa os braços em volta de mim e abaixo do meu joelho e me levanta do chão frio, subimos as escadas e ele me leva para o quarto. Gabe pega o meu remédio me dá um comprimido pequeno que engulo mesmo sem água, depois eu me deito me cobrindo até a cabeça e em segundos pego no sono.
***
Acordo atordoada é por alguns segundos nãos sei onde estou, me sento sobre a cama e passo os olhos ao redor me lembrando que estou no meu quarto novo, olho pela janela e percebo que já é noite, meu estômago ronca e me lembro que não cheguei nem mesmo a almoçar hoje. Levanto da cama acabada e vou me arrastando até o banheiro, dou graças a Deus quando encontro uma pilha de toalhas limpas sobre a pia. Retiro minha roupa e entro no chuveiro de cabeça e tudo na tentativa de tirar do meu corpo da letargia que me abraça.
Fico por longos minutos no banho e quando termino me sinto quase decente outra vez, volto para o quarto e gemo frustrada quando me lembro que minhas roupas ainda estão na mala, pego a menor dela que sei ser a de itens íntimos e tiro de dentro um pijama confortável e um hobby, e meu primeiro dia e não me sinto confortável de andar pela casa a vontade. É uma sensação estranha como se esse lugar não fosse realmente o meu.
— O que tanto pensa ai Gisa — Gabriel entra e me encontra parada no meio do quarto perdida em pensamentos.
— Que me sinto como uma hóspede dentro da minha própria casa, é tão estranho.
— Na verdade é bem normal, quando me mudei para Belo Horizonte comprei meu apartamento eu me sinti exatamente assim, demorei alguns dias para comprar itens de decoração para minha casa, como se alguém fosse aparecer e brigar comigo. Mas me diz como você está se sentindo depois da crise?
— Bem, dentro do normal.
— Você se lembra do que aconteceu antes de dormir? — pergunta cauteloso, meus apagões apesar de serem raros hoje em dia, podem ocorrer ocasionalmente de eu ter alguns eem algum momento.
— Eu me lembro sim, mas preferia ter esquecido.
Ainda está bastante vivo na minha cabeça o encontro com o Anthony, mesmo sem querer me vi presa aos olhos verdes que um dia amei, a cada palavra minha atenção era cativada por sua boca perfeitamente delineada e vermelha.
— Como pode o filho da mãe ter ficado ainda mais lindo com o passar dos anos? — resmungo
— Amiga eu não ia falar nada, mas que homem gostoso e aqueles músculos saltando pela camisa, a calça jeans apertada e o chapéu de cowboy o deixa ainda mais charmoso.
— A gente odeia ele esqueceu?
— Não esqueci, mas até os crápulas podem ser gostosos e esse é o caso do seu ex.
— Meu ex nada, só ficamos juntos uma vez e vamos mudar de assunto, não quero pensar nisso hoje .
— e no que minha linda amiga quer pensar hoje?
— A gente podia sair né? Tipo ir encher a cara, você sabe os bares de Alvorada são lendários, quando eu vivia aqui via os peões e trabalhadores da fazenda indo para esses lugares e só voltavam de madrugada muito loucos, eu amava ouvir as histórias, mas nunca fui porque eu era menor de idade.
— É isso mesmo que quer fazer? mesmo depois do dia de hoje?
— Sim, eu preciso me distrair e encher a cara de cachaça.
— Então bora, quem sabe a gente não consiga arrumar um agroboy bem gato.
— Amigo você é uma piranha — falo me sentando no chão e puxando uma das malas para buscar algo pra vestir
— E você é bem pior, minha Gisele.
— Credo não fala isso — faço bico — vai lá se trocar e aproveita para perguntar a Ana se algum funcionário pode nos levar, assim a gente pode beber.
Ele balança a cabeça concordando e sai do quarto, enquanto isso começo a tirar as roupas da mala jogando no chão formando um montinho, nada do que eu vejo me agrada, mas no caminho encontro minha necessaire de maquiagem e a deixo separada. Quando estou prestes a perder as esperanças de achar um look legal, encontro um vestido que amo, mas que faz tempo que não usava. Me levanto do chão animada e me livro do pijama que tinha acabado de vestir. Pego um sutiã preto sem alças e o visto logo depois e a vez do vestido de alças finas e que bate até embaixo dos joelhos, ele é branco com pequenos corações estampados, mas a meiguice do vestido é quebrada com um fenda matadora que vem até metade da minha coxa.
Vou para o banheiro a fim de ajeitar meu cabelo, como dormi a tarde inteira ele está todo desgrenhado então resolvo fazer um coque, deixando alguns cachos ficarem soltos o que dá um charme ao visual. Faço uma maquiagem leve, mas opto por um batom vermelho lindo que deixa minha boca carnuda em evidência.
— já está pronta? — Gabriel grita da porta e eu saio do banheiro:
— Só falta os sapatos. — falo e vou em direção das caixas que vieram de BH, alcanço a que está escrito "botas" e a abro jogando o conteúdo no chão, pego uma bota branca de salto quadrado e baixo, que vai ficar perfeita com o vestido.
— Passou um furacão por aqui foi? — Gabriel perguntou rindo.
— Tá tudo em caixa ou nas malas e difícil me arrumar assim, mas amanhã eu dou um jeito hoje eu quero me divertir. — falo animada e saio do quarto arrastando meu amigo.
Aliás falsamente animada, no fundo sei que o que estou fazendo é só uma camuflagem para tentar engabelar minha mente e não passar a noite inteira pensando em Anthony Dionísio e no meu passado.
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