QUINZE


Eu precisava me distrair, ficar em casa pensando sobre o que aconteceu ontem estava me enlouquecendo e sei bem o que, alias quem, vai ser a distração perfeita para essa noite. Saio da estrada pavimentada e entro no acesso que dá para um caminho de terra que ficou bem familiar para mim, mas apesar disso e do carro ser alto, dirijo com cuidado pela estrada de terra já que os buracos podem aparecer a qualquer momento.

Quando chegou à clareira onde a cabana do Bento está localizada vejo que ele está na varanda e não está sozinho, em um piscar de olhos a porta é aberta e a mulher que estava com ele entra correndo o que me deixa intrigada. Desço do carro e vou até ele assim que me aproximo me inclino para beijá-lo, mas Bento se afasta e eu o olho tentando entender o que está acontecendo por aqui.

— Ei, o que ouve? — pergunto ao Bento quando ele se afasta de mim.

— Gi, lembra que a gente combinou que esse lance só iria rolar até você voltar com o inominável ou até que eu conhecesse alguém? — ele me pergunta de maneira delicada.

Assim que começamos a ficar, nós já sabíamos que o lance entre nós seria apenas casual, o Bento é uma ótima pessoa que tem um passado tão conturbado quanto o meu e acho que isso foi o que mais nos aproximou, pude confessar a ele sobre os meus problemas e ele me contou como era sua vida e o que fez com que ele saísse de Curitiba e viesse se esconder aqui no interior de Minas, eu confessei a ele meus maiores medos e angústias contei sobre minha família e tudo que passei até aqui.

— Lembro sim, e já que eu não voltei pros braços do diabo — falo me lembrando do Anthony e do que aconteceu ontem — isso significa que você encontrou alguém?

— Isso — fala olhando em meus olhos.

— Eu bem que achei que tinha visto alguém quando cheguei, então quem é ela? — pergunto curiosa.

— É alguém que conheci recentemente e meio que estou me apaixonando, mas ainda não temos nada. — ele conta me surpreendendo, quer dizer que o senhor "eu preciso viver sozinho, relacionamentos não são para mim" arrumou alguém?

— Quero conhecê-la. — praticamente grito empolgada, dando pequenos pulinhos na frente dele, a mulher que conquistou o coração peludo de Bento Monteiro só pode ser uma pessoa extraordinária.

— Depois, ainda não falei de você pra ela — fala meio encabulado e isso acende um alerta em minha cabeça, eu já perdi tantas pessoas na minha vida que não quero perder o único amigo verdadeiro que fiz nessa cidade.

— Certo, mas vamos continuar sendo amigos?

— Claro que sim pimentinha, não te abandonaria. E assim que possível vou te apresentar a ela — fala enquanto passo a mão pelo meu braço direito e depois bagunça meus cachos que estavam perfeitos hoje, me afasto dele e dou o dedo do meio o que faz ele emburrar a cara.

— Bom vou pra casa chorar minhas mágoas, já que além de não ter o homem que eu amo ainda fiquei sem o homem gostosão com quem eu fodia —brinco de forma explícita, só pra ver o Bento ficar corado, ele é tão certinho e previsível que amo tirar com a cara dele — tô largada às traças.

— Porque você não quer perdoar logo o Anto...?

— Não ouse tocar nesse nome já não me basta você literalmente me deixar na mão, vou ter que resolver meu problema com meus dedinhos — falo e ele gargalha, mas me lembro do motivo que me fez vir aqui em primeiro lugar desfazendo meu sorriso — mas sabia que ele apareceu ontem?

— Estava demorando para isso acontecer... — sempre contei ao Bento sobre minha conturbada relação com o Anthony ao longo do tempo, então ele conhece cada canto dessa história.

O Bento tem seus próprios motivos para pedir perdão há algumas pessoas importantes na vida dele, por isso ele sempre me incentivou a dar uma chance e ouvir o que o Anthony tem a dizer, segundo o Bento todos podemos em algum momento cometer erros imperdoáveis então devemos pelo menos uma vez dar a outra pessoa a oportunidade de se redimir. Eu sempre fui muito reticente a essa ideia, o que no fim só me machuca mais, eu sei, o problema é que eu não sei como deixar ele entrara na minha vida, pois sempre acho que ele vai me machucar outra vez e não sei se eu seria capaz de me reerguer de mais um golpe. Eu estou cansada de sofrer.

— Ele não foi lá por mim, foi pela água. A seca está castigando as fazendas da região e eu tenho água abundante graças ao lago e as outras medidas que toei durante esses anos, além disso fiz todo o projeto de combate a seca.

— Mas choveu no mês passado — comenta e a memória furtiva do que aconteceu comigo e Anthony naquele dia passa pela minha cabeça, eu não falei com o Bento sobre isso, por algum motivo quero guardar só pra mim o fato que estava disposta a me entregar ao Anthony de maneira tão fácil.

— Só choveu uma noite e um dia Bento, não foi nem perto de ser minimamente suficiente para o que as plantações precisam.

— Mas não foi só isso, posso ver. — ele comenta sondando meu rosto, o que me faz suspirar.

— A gente se beijou, mas aí o seu telefone tocou e me disse que estava na cidade resolvendo algumas coisas. Ele estava me escondendo da família dele Bento, o desgraçado estava ali pedindo a minha ajuda, mas não foi capaz de admitir isso.

— Sinto muito, querida.

— Eu o expulsei, mas sinto que vai voltar.

— Ele sempre volta — comenta e faço uma careta em resposta.

— Vou embora agora e deixar de ser uma empata foda, a gente conversa depois, oh poderoso Thor filho de Odin — falo fazendo um gracejo, alias zoando com a cara dele, pois sei que o bento detesta quando eu o chamo assim.

— Você sabe que odeio esse apelido. — Reclama, tão previsível.

— Então toma vergonha e corta esse cabelo e faz essa barba, você sabe que barbearias existem né? — ralho com ele enquanto nos dirigimos ao carro estacionado logo à frente.

— É o meu charme — afirma eu entro no carro e ele bate à porta por mim, depois coloco o cinto de segurança.

— Verdade sem o cabelo e a barba só ia te sobrar os músculos, a inteligência, o sorriso sedutor e o pau... — ele faz cara feia me fazendo frear a língua — realmente você não tem nada que possa interessar uma garota.

— Você vai ficar bem? — ele indaga e posso ver a preocupação rondando os olhos dele, tento dar a ele o melhor sorriso que tenho antes de responder

— Vou sim, eu sempre fico bem no final. Me liga depois pra me contar como o amor te encontrou no meio desse mato.

— Ok, dirija com cuidado.

— Tá bem, eu chego rapidinho a fazenda é logo ali, até vizinho.

— Até — responde apenas e dou partida no carro, deixando a propriedade dele logo em seguida.

Estou no caminho para casa, mas sinceramente não quero passar minha noite sozinha no meu quarto, por isso dou a volta no carro e resolvo ir ate a cidade comer alguma coisa e ver o movimento das pessoa já que é noite de sexta feira e as coisas costumam ser agitadas por lá, pena que não vou poder beber já que estou dirigindo.

Não estou a fim de toda a agitação do Uaibar, por isso escolho um bar restaurante que parece ser mais tranquilo para quem quer jantar, como nas ruas centrais não têm lugar nenhum para estacionar, tenho que rodar com o carro por algum tempo na ruas secundárias até encontrar um cantinho que caiba a caminhonete. Olho pelo espelho retrovisor e ajeito meu cabelo que o Bento bagunçou, pego minha bolsa e passo uma generosa camada de batom vermelho sobre os lábios. Pego apenas a carteira e o celular antes de descer do carro.

Aciono o alarme do carro e caminho em direção a rua principal, mas algo chama minha atenção e olho para os lados tentando descobrir de onde vem o choro baixinho que escuto, mas não vejo ninguém por perto, continuei caminhando e perceber que o barulho fica mais forte e então ao olhar entre dois carros estacionados vejo uma garota sentada sobre o meio fio da calçada.

— Ei você, está tudo bem por aí? — Pergunto de maneira suave para não a assustar muito.

Ao perceber que não está sozinha, a garota rapidamente se levanta e então enxuga os olhos com o dorso das mãos antes de responder.

— Eu estou bem sim, só preciso ir para casa — fala tentando ser educada, mas vejo tanta vulnerabilidade em seu olhar que me reconheço neles.

Ela deve ter por volta de quinze anos, os cabelos cacheados parecidos com os meus caem em volta de sus rostos que esta vermelho pelo choro, ela é muito bonita com seus olhos negros em contraste com a pele branca. Quando estava prestes a oferecer minha ajuda um grupo de adolescentes vem descendo a rua, eles parecem estar indo há alguma festa deduzo pelo modo como estão vestidos e as garrafas de bebidas ainda fechadas, como adolescentes andam por aí com bebida assim sem ninguém falar nada? No meu tempo os guardinhas paravam a rapaziada por muito menos; nossa mas eu soei bem velha agora credo.

Noto a menina à minha frente mudando sua postura, ela limpa melhor o rosto e ajeita o cabelo jogando os fios para o lado deixando o rosto parcialmente escondido. O grupo de jovens está mais perto de nós e eles param observando a garota com desdém, o que me deixa intrigada.

— Maripaz? — a menina loira do grupo fala e fico abismada com o quanto de desdém ela destila em uma única palavra — a querida você veio mesmo?

— Ela achou que o convite era sério — uma das garotas morena, a que tem cabelo longo, fala e todo o grupo incluindo quatro rapazes começam a rir e meu ódio sobe.

A menina Maripaz fica completamente pálida e sorri sem graça, ela olha para a outra menina morena do grupo e parece implorar com os olhos, mas a garota de cabelos curtos e pele negra apenas desvia o olhar e abraça um dos garotos.

— são seus amigos Maripaz? — me intrometo na interação tóxica que está rolando a minha frente.

— Ela não é nossa amiga, credo — a loira volta a falar e tenho vontade de voltar a ser a moleca que eu era, só pra dar uns cascudos nessa insuportável.

— Ainda bem — respondo com o mesmo desdém que ela usa — não quero a minha menina andando por aí com qualquer um, vamos Maripaz nossa reserva não pode esperar.

Me viro pra menina que me olha como se uma outra cabeça tivesse brotado em meu pescoço e eu pisco pra ela sorrindo que me devolve um olhar aliviado.

— Vamos, só viemos para o centro jantar então não podemos nos atrasar — Garota esperta, penso enquanto deixamos os seus não amigos para trás com cara de tacho.

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Participação especial de Bento Monteiro para você S2

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