QUATRO
10 anos depois
TONY
Cavalgo pelas terras da fazenda sentindo o vento bater em meu rosto e a sensação é libertadora, um dos poucos momentos do dia onde eu sou livre de todas as obrigações que tomam conta da minha vida, como sempre me vi indo para o lago, meu lugar favorito no mundo todo. Desço do cavalo e o amarro em uma árvore próxima, me sento no chão mesmo que esteja húmido, tiro o chapéu da cabeça e o coloco ao meu lado e passo as mãos nos cabelos antes de respirar fundo.
Quando mais novo eu não saia desse lugar, chegava do colégio e vinha correndo para cá sempre acompanhado por ela. Minha melhor amiga Gisele. Um aperto toma meu peito como acontece todas as vezes que penso nela, éramos inseparáveis quando criança, eu a arrastava para todos os lugares por onde ia, era zoado pelos outros moleques por preferir andar com uma garota a ficar de bobeira com eles, mas o que fazer se ela sempre foi minha alma gêmea? Combinavámos em tudo: nos gostos, nas brincadeira, no lugar favorito até nas traquinagens.
Não existia Tony sem Gigizele.
A medida que fomos crescendo meus sentimentos por ela foram mudando eu não entendia bem o que estava acontecendo comigo, mas um dia um dos meus colegas de turma estava comigo pela fazenda andando a cavalo quando a avistamos saindo dos estábulos, Gisele estava vestida apenas com um vestido leve, as curvas do seu corpo já chamavam a atenção e o sorriso lindo e os cabelos volumosos só corroboram com a imagem de mulher que ela estava se tornando com seus dezesseis anos.
Meu colega comentou que adoraria uma oportunidade de pôr as mãos nela e isso me deixou ensandecido. Lembro de sair no soco com ele é como eu era maior e mais forte quase desmaiei o coitado é o proibi de sequer chegar perto dela e avisei que valia para qualquer garoto, todos ali sabiam da minha força e no quanto eu era bom de briga é por isso nenhum dos meus amigos ou colegas de colégio ousaram tentar alguma coisa com ela.
Eu sabia que estava apaixonado e guardei esse sentimento por dois anos inteiros, a Gisele era muito nova para lidar com isso, mesmo que teoricamente tivéssemos a mesma idade eu sempre a achei mais frágil e que precisava de proteção. Mas quando eu fiz dezoito anos isso mudou ela se declarou pra mim e eu não pude resistir e fiz o mesmo. Naquele dia perdemos nossa virgindade juntos e esse foi o melhor momento da minha vida, mas a manhã chegou e com ela a minha família e todos os problemas que carregavamos.
Eu nunca vou me perdoar pelo que aconteceu com ela, mas eu era um idota e fiza escolha errada.
Quando dou por mim estou chorando, quão vergonhoso é um homem da minha idade ainda chorar pelo primeiro amor? Mas a verdade é que mesmo depois de todos esses anos eu ainda não fui capaz de superar. Irritado pelo meu descontrole me levanto, pego meu cavalo e volto pra casa
***
— Por onde você andava Tony? — a pergunta me atinge antes que eu tenha a chance de sequer entrar dentro de casa.
— Por aí — respondo apenas e passo pela Eugenia, batendo as botas no carpete ante de entrar em casa, mas a mulher não desiste e vem atrás de mim:
— Você não pode sumir dessa maneira, você sempre faz isso e some sem nem mesmo atender o celular....
— Eu sou um homem de trinta e dois anos, não tenho que dar satisfação da minha vida pra ninguém, muito menos para você Eugênia.
— Não entendo por que me trata com tamanha estupidez e agora é sempre assim Eugenia, nunca mais me chamou de mãe.
— Não vamos entrar nesse assunto outra vez, não se faça de vítima você quis ir por esse caminho. Eu amava e respeitava você, mas você mesma acabou com tudo isso quando fez aquilo então não venha me cobrar, principalmente hoje.
Como sempre acontece quando o assunto vem à tona, ela não fala nada e desvia o foco.
— A Laura vem almoçar hoje, para comemorar o seu aniversário e..
— Eu não comemoro mais meu aniversário — falo sucinto — e para de tentar me empurrar a Laura, nunca vai acontecer.
Subo as escadas e passo para o meu quarto trancando a porta às minhas costas. Retiro as botas e toda roupa e vou para o banheiro e tomo um banho demorado tentando fazer com que os meus pensamentos não se prendam ao passado mais uma vez, ela nunca vai voltar e eu tenho que me concentrar nisso. Talvez eu tenha mesmo que encontrar uma boa mulher para me casar e enterrar para sempre o passado. Enrolado em uma toalha, saio do banheiro e dou de cara com minha irmã Maripaz jogada sobre a minha cama.
— Eu ainda vou descobrir como você consegue entrar no meu quarto mesmo com a porta trancada.
— Tenho meus segredos irmão — ela ri faceira e eu apenas reviro os olhos e passo para o meu closet indo trocar de roupa.
— A mamãe não está nada feliz com você — Paz grita de dentro do quarto.
— Diacho, ela acha que eu ainda tenho dezoito anos — grito de volta — ou então acha que ainda tem com o que manipular — falo essa parte só para mim mesmo.
— Nós não manipulamos você Anthony
— Puta merda, todo mundo decidiu invadir o meu quarto agora? – me assusto com a presença do meu pai atrás de mim – Vocês conhecem o conceito de privacidade por acaso? Eu to pelado pora.
— Larga de frescura, nada que eu já não tenha visto quando trocava suas fraldas cheia de bosta. — meu pai fala como se fosse a coisa mais normal do mundo, me apresso em pegar uma calça de moletom, mas meu pai me interrompe — não coloca isso não, nós vamos sair, por isso eu vim.
— Pode me dar privacidade por favor? — ele me olha como se eu fosse a criatura mais fresca do mundo e dá meia volta saindo do cômodo.
Opto por uma calça jeans, camiseta básica e uma jaqueta por cima, como fiquei com as botas marrons o dia todo e elas estão sujas de barro, pego as botas pretas e levo para o quarto para calça–las sentado na cama.
— onde nós vamos? — questiono ao meu pai que está perto da janela, não tem nem sinal da minha irmã mais por aqui, aposto que o velho subornou a pestinha para abrir minha porta.
— fiquei sabendo que há novidades na fazenda Vida Verde, parece que finalmente a dona veio tomar posse e vai passar a morar por lá.
— A tal da Cora? – Indago realmente surpreso pois já faz quase cinco anos.
— A mesma, alguns dos homens viram um caminhão de mudança passando para aqueles lados e como nessas terras as notícias correm rápido logo fiquei sabendo do que se tratava.
Há muitos anos nossos vizinhos eram os Alencar, as terras deles não eram muito produtivas é o casal já idoso morreu com diferença de alguns meses, a filha deles nunca foi muito chegada na vida do campo e mora há alguns anos no exterior. Com a morte dos pais ela resolveu vender a fazenda. Nós aqui da Fazenda Céu Vermelho tentamos comparar as terras seria a oportunidade de expansão perfeita, mas alguém cobriu a nossa oferta, mas mesmo pegando um generoso empréstimo com o banco não seríamos capazes de fazer uma contraproposta, então a fazenda foi vendida para alguém desconhecido. Cerca de um ano depois começaram as reformas e o plantio por lá. Mudaram o nome da fazenda Ouro Branco para Vida Verde e começaram a plantar hortaliças e em pouco tempo as terras que estavam praticamente sem vida começaram a produzir em um nível frenético, eles adquiriram mais terras vizinhas e fizeram até um lago artificial, um reservatório para períodos de seca o que foi muito revolucionário aqui para a região o que fez com com que os donos de terra mais conservadores torceram ainda mais o nariz para quem quer que fossem os novos proprietários.
Por anos o povo tanto da cidade de Ribeirão quanto de Alvorada comentavam sobre quem seria os donos daquela que estava aos poucos se tornando a fazenda mais rentável da região, nem mesmo os trabalhadores que foram contatados sabiam quem era o empregador, pois tudo era feito por meio de terceiros, Há alguns anos um nome surgiu "Cora" uma mulher que vez ou outra vinha supervisionar as coisas por lá, mas sem nem mesmo sabermos o sobrenome ficou difícil de mandar investigar de quem se tratava, mas pelo visto hoje o mistério seria solucionado.
— Os trabalhadores estão em polvorosa, as fofocas se alastram feito fogo pela fazenda. — meu pai comenta ainda olhando lá para fora.
— E o que o senhor quer fazer? — pergunto terminando de calçar as botas e entrando no closet para pegar outro chapéu, o sol aqui na região não perdoa.
— Vamos até lá, somos os vizinhos mais próximos e é o nosso dever dar boas vindas.
— E a sua curiosidade não tem nada a ver com isso? — pergunto irônico.
— Me respeita, moleque ainda sou seu pai. Não tem nada a ver com curiosidade e sim com fazer boas conexões, não te ensinei nada? Em breve vou me aposentar e você finalmente vai gerenciar a Céu Vermelho, tem que ficar mais esperto. Vamos logo que já são dez e meia e é falta de educação chegar na casa dos outros perto do horário do almoço.
Sem me dar tempo para contestar meu pai sai do quarto e só me resta segui- lo, descemos as escadas e saímos direto para o pátio a caminhonete já nos aguardando e meu pai se adianta e toma o volante. Vamos o caminho inteiro em silêncio e quando entramos nas terras da Vida verde percebo que o nome casa bem com o lugar. Por onde eu passo os olhos tem plantação da janela ao meu lado infinitos pés de couve, plantados a se perder de vista, as várias hortaliças plantadas dá a impressão que é um gigante tapete verde sobre o solo.
Chegamos a sede da fazenda e paramos a nossa caminhonete próximo a entrada, não vimos nenhum funcionário por perto que pudesse anunciar nossa presença então recorremos a modos antigos.
— ô de casa — meu pai bate palma três vezes chamado atenção para a nossa presença.
Instantes depois um homem sai lá de dentro, ele não se parece com os cabras que estamos acostumados a ver por aqui vestido com uma roupa casual, mas de aparência cara, toda em tom de preto, o cabelo perfeitamente arrumado e sapatos esportivos.
— Posso ajudá-los? — questiona de forma polida e meu pai limpa agarganta antes de responder:
— Somos os vizinhos da fazenda Céu vermelho, ficamos sabendo que a nova dona enfim chegou e viemos fazer a frente.
— Certo só um minuto, vou avisar a Giza que temos visitas. — concordamos com a cabeça e o homem da meia volta entrando na casa, mas deixando a porta aberta, por ela vemos alguns funcionários passando com várias caixas.
— Giza? — pergunto retoricamente — não falaram que o nome da proprietária era Cora?
— pois era o que o povo dizia por aí, eu mesmo nunca a vi pessoalmente pra saber.
Percebo alguém se aproximando vindo de dentro da casa e não sei o porquê, mas meu coração acelera um pouco. Levanto a cabeça para ver melhor o olhar protegido do sol pela aba do chapéu, quando a mulher finalmente sai da casa meu peito se aperta, meu coração erra uma batida.
Nossos olhares se cruzam ela espelhando o mesmo sentimento de surpresa que eu. Não consigo acreditar no que estou vendo.
Há quatorze anos eu barganhei minha felicidade
Há quatorze anos eu fiz a escolha que dilacerou meu coração
Há quatorze anos ela partiu, mas agora Gisele está de volta.
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