OITO


Gisele

Assim que estacionamos conseguimos escutar a música sertaneja que toma conta do ambiente e me animo por saber que o bar tem música ao vivo, Felipe o rapaz que veio dirigindo o carro afirmou que esse é o lugar que está em alta no momento e que todo mundo da região que quer se divertir vem para cá,Uaisô, o nome do local, brilha em uma placa enorme com luzes de neon em volta. Desço do carro eufórica e meu amigo me acompanha, dou um boa olhada em Gabriel que está vestido com uma calça jeans apertada e camisa de manga longa com vários tons de azul formando um padrão bonito de xadrez.

— Você esta um gato, Gabe. Juro que se você gostasse de mulher eu dava em cima de você.

— Se eu gostasse da fruta eu iria aceitar, você ta gostosa com esse vestido, veio preparada pra tacar.

— Que nada, só quero beber e curtir umas músicas para arrastar minha dor no asfalto.

— Então vamos a tequila — ele grita me arrastando para dentro do bar que alias esta lotado.

Várias caminhonetes tomam o estacionamento , alguns grupinhos de pessoas espalhados pelo local olham pra gente quando passamos e algumas mulheres lançam olhares sugestivos para o meu amigo o que me faz sorrir. Gabriel é alto e tem o corpo todo esculpido graças as inúmeras hoaras que ele passa na academia, sua pele marrom e a mistura perfeita de seu pai que é negro e sua mãe que é branca, para completar o charme do meu amigo tem seus olhos que são de um tom perfeito de verde.

Entramos no lugar que mais parece um galpão, a frente vejo a banda onde uma dupla de rapazes que canta animando a galera, algumas pessoas estão a frente dançando, mas a maioria estava sentada nas mesas espalhadas pelo local, procuramos uma mesa para sentar e só encontramos uma nos fundo o que para mim era perfeito já que não queria achar a atenção e sim beber um pouco, muito, beber muito.

— vamos começar pegando leve com algumas cervejas? — Gabe pergunta e eu faço bico.

— Nem pensar vamos começar pegando pesado, eu quero sal, tequila e limão.

— Sabe que eu não dou conta de te acompanhar, coração.

Dou risada do que ele fala, pelo tempo que passei trabalhando como bartender eu aprendi a beber, não só isso eu aprendi a beber muito e de tudo um pouco, durante a faculdade o Gabriel sempre ficava chocado quando íamos para alguma calourada e eu bebia mais que qualquer um. Confesso que beber também foi como uma válvula de escape para os meus problemas, só diminui o ritmo quando percebi que eu poderia acabar no mesmo caminho que meu pai e isso é uma coisa que eu não quero jamais. Mas hoje depois de encontrar o Anthony sinto que preciso beber algo bem forte.

— Prometo me comportar hoje.

— Por que será que eu não confio nessa sua promessa? Mas vamos lá, hoje você merece e que venha a tequila.

A medida que a noite foi passando a gente ficava mais bêbados e mais animados, chegou ao ponto de cantarmos a plenos pulmões os modões sertanejos que a dupla no palco tocava e eu que quase subi na mesa porém Gabriel super sensato não permitiu, mas quando os cantores começaram a cantar uma música mais lenta chorei no ombro do meu amigo admitindo para mim mesma que a visita que recebi mais cedo mexeu com algo no fundo do meu coração.

Eu achei que estava preparada, pensei que era mais dona de mim e das minhas emoções e que rever o Anthony não iria doer tanto, que seria como uma cena de novela onde a protagonista descia as escadas imponente e botava medo nos inimigos, fantasiei na minha cabeça que seria como a clara tavares descendo as escadas e dizendo "vocês não sabem o prazer que é estar de volta"*, mas a verdade é que eu voltei a me senti como aquela garota que foi humilhada e escorraçada, me senti pequena e insignificante.

— Droga! — resmungo enquanto viro mais uma dose de cachaça.

— E acho que tá na hora de parar né querida, você sempre fica péssima no dia seguinte, vou pedir uma água para você.

— Não pode deixar que eu vou buscar, sei bem que aquele carinha ali de chapéu não tira os olhos da nossa mesa e não é pra mim que ele tá olhando.

— Que carinha de chapéu? Todo mundo aqui está de chapéu.

— Não se faça de sonso Gabriel Oliveira Nunes, eu sei quando você está sutilmente tentando seduzir alguém. Pode ir, vou tomar uma água sentada no bar lá de fora.

Não dou a ele a chance de responder e percebo que assim que levanto da mesa o tal carinha de chapéu se aproxima o que me faz rir. O galpão tem um bar interno onde as bebidas rápidas saem e alguns bartenders preparam bebidas coloridos para as pessoas em volta, mas lá não tem lugar nenhum para sentar então saio para fora onde mais cedo e meu amigo vimos que tinha um local mais calmo e sem a muvuca do que estava acontecendo lá dentro entendo por que é um lugar procurado, atende a dois tipos de público os que querem estar no batidão do show ao vivo e os que querem relaxar tomando uma cerveja.

Entro no lugar e vou direto para o balcão onde várias banquetas estão espalhadas ao redor eu me sento em uma delas e peço uma água entregando o barman minha comanda que estava pendurada em meu pulso por uma cordinha. Só quando comecei tomar a água que percebi que estava como muita sede e por isso tomo todo o conteúdo da garrafinha plástica, quando me dou por satisfeita me viro na banqueta e começo a sondar o ambiente e é quando eu o vejo, num canto escuro do bar tem um homem sentado, ele me parece totalmente deslocado do ambiente tanto por sua aparência quanto pela carranca que ostenta. Não sei o que dá em mim, mas no momento seguinte estou caminhando em direção ao desconhecido.

— Sabia que você parece o Thor? — Falo com ele e me jogo na cadeira vazia à sua frente apoiando os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos encarando o homem que tem um longo cabelo em tons de loiro e a barba comprida, mas de alguma maneira a aparência dele não parece desleixada ao contrário o homem tem uma aura sexy e sombria.

— Thor? — ele diz carrancudo e levanta uma das sobrancelhas.

— E aquele dos vingadores, acho que ele é de alguma mitologia mas não to lembrando agora, mas é aquele "poderoso thor filho de Odin" — faço graça engrossando a voz e pela primeira vez ele movimenta a boca em um esboço de sorriso — olha só o Thor sabe sorrir.

— Não me chama de Thor garota. – fala bravo mas não parece ofendido, com certeza sabe que é sim parecido com o Vingador.

— Então me diz qual seu nome grandão

— Bento — diz apenas

— Bento — testo o nome em meus lábios — gostei, meu nome é Gisele.

Eu não sabia naquele momento, mas conhecer Bento Monteiro mudaria minha vida.

***

"Misericórdia, meu pai amado" penso assim que abro os olhos e sinto minha cabeça girar, pra que eu fui beber tanto assim? Já odeio os Dionísio um pouco mais só porque foi por causa deles que eu me embebedei tanto. Praticamente me arrasto até o banheiro, só me sinto humana novamente quando estou de banho tomado, dentes escovados e cabelos penteados.

Pego meu celular e vejo que já passa do meio dia e reclamo comigo mesma por ter dormido tanto que perdi minha primeira manhã na minha fazenda. Desço as escadas e vou direto para a cozinha, pois de lá vem um cheiro maravilhoso e meu estômago está reclamando de fome.

— Bom dia, ou devo dizer boa tarde — falo assim que entro na cozinha e Ana sorri para mim e junto dela está uma moça que ainda não conheço.

— Boa tarde dona Gisele o almoço já está pronto, eu não sabia o que a senhora gostaria de comer e por isso fiz duas opções: galinhada e uma carne assada. Não sabia também se a senhora era vegetariana e por isso eu fiz uma lasanha de berinjela.

— Primeiro já pedi para não me chamar da senhora, dona ou patroa, segundo não precisava de tudo isso eu não sou fresca para comer, a única coisa que não como de jeito nenhum e quiabo, de resto pode fazer que eu como.

— É assim que eu gosto — ela fala e fica vermelha logo em seguida me pedindo desculpas, mas garanto que não me importo.

— Bom dia senhoras — Gabriel entra na cozinha com a cara mais acabada que a minha, riu da situação que ele se encontra e meu amigo mostra o dedo do meio pra mim antes de se jogar na mesa da cozinha , pegando a garrafa de café e uma xícara.

— Sua noite foi boa, Gabriel? — pergunto irônica pois bem vi ele se agarrando com um carinha escorado na nossa caminhonete.

— Não melhor que a sua — rebate e eu sinto meu rosto ficar quente.

— Não sei do que você está falando? – Desconverso.

— Tô falando de ver você entrando numa caminhonete com um cara alto e cabeludo...

— Cala a boca Gabriel — ralho olhando para as duas mulheres que estão na frente do fogão.

— Você é espertinha né, na hora de falar da minha vida você quer, mas na hora de falar da sua é "cala a boca Gabriel" — ele me imita e eu fecho a cara só pro desgraçado rir.

A verdade é que ontem fiquei algum tempo conversando com o Bento e até trocamos telefones, mas no final da noite rolou um clima entre a gente e acabamos ficando lá mesmo, na caminhonete dele, eu nunca tinha feito nada como isso e confesso que gostei de me perder por algum tempo de um modo completamente diferente do qual estou habituada. 

.

.

* Referencia a novela O outro lado do paraíso da Rede Globo de televisão. 

.

.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top