CINCO


 Gisele

— Tem certeza que quer voltar? — Gabriel me pergunta, assim que entra no meu quarto e nota as malas que estão na porta.

— Tenho sim, os seus pais já devem estar doidos para se livrarem de mim.

— sabe que não é verdade, você e o filho macho que meu pai não teve — comenta divertido e caímos na risada.

Virou uma piada entre nós o fato de eu gostar de fazer coisas ditas masculinas, como jogar futebol, tocar o gado, auxiliar em parto de vacas e tocar o terror bagunçando pela fazenda. Bem diferente do meu amigo que é todo contido, polido e detesta a vida no campo e só fica aqui por amor aos pais, mas se pudesse viveria em um apartamento em uma grande metrópole bem longe do cheiro de coco de vaca.

— Eu amo os seus pais e agradeço por terem me recebido depois da morte da Madrinha e por me ensinarem tanto sobre como gerir uma fazenda, mas tá na hora de eu tomar as rédeas da minha vida, acho que sou a primeira milionária que mora de favor na casa dos outros.

Em dez anos minha vida mudou de maneira que eu jamais esperaria. Depois que meus pais morreram, a Dona Cora me deu abrigo, aliás mais que isso ela meio que me adotou e me recebeu na vida dela. Quando recebi a indenização pela morte dos meus pais a madrinha me ajudou a investir o dinheiro, não me permitiu voltar a trabalhar no prostíbulo, ao contrário ela meio que me obrigou a terminar os estudos e a fazer faculdade é o curso que escolhi foi agronomia. Quando estava prestes a terminar a faculdade resolvi que gostaria de ter minha própria terra, mas o dinheiro que tinha ainda não era o suficiente foi quando a Cora se ofereceu para ser minha sócia.

Foi por total coincidência que o local escolhido foi na cidade de Ribeirão. Naquela época Gabe e eu já éramos amigos e eu passava as férias na fazenda deles quando o seu Josué, pai do Gabriel, comentou que uma conhecida havia falecido e a filha estava vendendo as terras por um preço muito abaixo do que o mercado pede, naquele mesmo dia entrei em contato e descobri que ela já tinha uma oferta, mas que estava disposta a negociar e foi isso que fiz, confesso que pensei em desistir quando descobri a localização exata da fazenda, mas minha madrinha não permitiu que eu fizesse isso.

"Ninguém vai tirar mais nada de você Gisele, mesmo que indiretamente. Se é isso que você quer não deixe que o teu passado te impeça" foi o que ela me disse quando contei que aquelas terras faziam divisa com o local onde nasci.

Mas eu ainda tinha medo de voltar, por isso administrei a fazenda a distância, consegui colocar em prática tudo que eu queria na plantação de hortaliças orgânicas, surpreendentemente os produtos venderam bem desde a primeira colheita. Madrinha Cora parecia uma senhora inocente, mas seus contatos eram inimagináveis.

"Eu já fiz muita coisa na vida querida, já servi a vários homens ricos e pobres. Vendi sim o meu corpo e não consegui apenas dinheiro com isso eu consegui algo muito mais importante: contatos" Cora não falava muito sobre sua vida ou como terminou dona de um prostíbulo, mas descobri que aquele não era o único e que ela não levava uma vida modesta ao contrário a casa dela era cercada de Luxo e foi ela quem pagou por toda minha graduação insistindo que eu não deveria gastar o meu dinheiro antes dele render o bastante. A madrinha pediu que eu cuidasse da parte administrativa e do plantio que ela iria dar um jeito de vender os produtos, segundo ela ter boa lábia era sua maior habilidade.

Ela conseguiu que a agora FAZENDA VIDA VERDE, se tornasse fornecedora de uma pequena rede de supermercados e isso foi o pontapé perfeito para alavancar o nosso negócio e de lá para cá só crescemos e até consegui expandir a fazenda.

— Vou acompanhar você então..

— Gabe, não precisa, você não tem que voltar para a capital para ver como estão as coisas no escritório?

— Tenho sim, mas esse é o lado bom de ser filho de fazendeiros ricos e ter o próprio negócio. — Se gaba e eu reviro os olhos.

A família Valença e dona de um dos maiores frigoríficos do estado e o Gabriel gerencia o escritório de distribuição que fica em Belo horizonte, os pais sabem que a vida no campo não é o forte dele, mas sabem também que meu amigo é um gênio nos negócios e consegue gerir tudo de forma impecável.

— Olha pra gente, éramos os párias na faculdade e agora temos negócios de sucesso — falo quando penso nisso.

A faculdade para mim não foi fácil, eu ainda estava muito traumatizada pelos acontecimentos da minha vida e socialização não era o meu forte já o Gabriel sofria muita homofobia por parte de grande parte dos alunos. Nós começamos a conversar, pois vivíamos nos escondendo na biblioteca.

— Vencemos na vida baby. — Ele brinca e pega as malas que estão ao lado da porta e sai do quarto. Eu pego o resto das minhas coisas e o acompanho.

— Querida fique mais um pouco, não estou confiante que você vai ficar bem sozinha — Dona Marli, mãe do Gabriel vem ao nosso encontro quando estamos chegando à sala.

— Eu juro que estou bem tia, agora que a madrinha morreu não posso mais me esconder e vou ter que tomar a frente dos negócios, como o tio Josué diz "o olho do dono que engorda o gado".

Há noventa dias a Madrinha coroa teve um infarto e veio a falecer, foi mais uma das grandes perdas da minha vida e doi quando eu penso nela e ainda não consegui dormir sem chorar antes.

Dias depois que a madrinha morreu um advogado veio me procurar e contou que ela havia deixado um testamento e que salvo alguns bens que ela doou para as meninas que trabalhavam para ela todo o resto era meu, já que a única filha que ela teve morreu ainda na infância. Eu sabia que Dona Cora tinha um dinheirinho e que ela era boa em investimentos, mas quando o advogado leu a quantia eu fiquei desacreditada a mulher era podre de rica e nunca me disse nada e para minha total surpresa tudo foi me passado de forma limpa e legalizada, inclusive ela me deixou a parte dela da fazenda.

Já os negócios ilegais da madrinha eu não tenho noção de como ficaram o advogado não quis me dizer nada só deixou claro que tudo havia sido encaminhado exatamente do jeito que ela queria e eu não deveria me preocupar com isso e pelo nível de algumas pessoas que já havia visto na companhia da madrinha eu segui a risca as orientações do advogado.

Como estava muito abalada pela morte dela, o Gabe me perguntou se eu não gostaria de passar uma temporada na fazenda de seus pais e eu prontamente aceitei, pois o campo sempre foi o lugar que eu amo. Achei que chegaria aqui e ficaria tudo bem e tranquila, ledo engano, o senhor Josué me colocou para trabalhar desde o primeiro dia, segundo ele para manter minha cabeça ocupada e ela não poderia estar mais certo.

— Obrigada por tudo que vocês fizeram por mim Tia Marli, tornou esse momento bem mais fácil para mim.

— Querida, as portas de casa estarão sempre abertas para você, o meu nego não está aqui pra se despedir porque uma vaca está prestes a parir mas mandou dizer que qualquer coisa você pode ligar que a gente pega o carro e chega em Ribeirão em duas horinhas.

Nos despedimos e me despeço de alguns funcionários de quem fiquei próxima nos últimos tempos e em seguida pegamos a estrada. Ribeirão não fica longe da cidade de Lisboa de Minas então por volta da hora do almoço já chegamos à fazenda Vida verde e meus olhos se enchem de lágrimas assim que passo pela porteira.

— Pare o carro Gabe — peço e ele me obedece.

Desço do carro tentando fortemente segurar as lágrimas que querem descer por meus olhos aliada com uma vontade insana de sair correndo olhando tudo ao meu redor

Eu só tinha visto esse lugar por fotos e não consigo acreditar que toda essa grandiosidade é minha, eu que um dia não tive nem onde morar que já passei fome nas ruas e que não tinha perspectiva de futuro agora sou dona de tudo isso.

— Vamos sua maluca, entra no carro que o sol está rachando, você vai ter a chance de conhecer tudo depois. — Gabe grita e eu faço o que ele pede, mas coloco a cabeça para fora da janela igual um cachorro, só para poder ver mais um pouco da fazenda.

Demora uns bons minutos até que chegamos a sede e meu sorriso se amplia ainda mais por ver que a fachada ficou do jeito que eu sonhei o que mostra que os arquitetos fizeram um bom trabalho o caminhão com todas as minhas coisas que mandei trazer da capital ainda estava aqui e algumas pessoas entravam e saiam da casa. Desço do carro a animação correndo por cada veia do meu corpo.

— Dona Gisele? — uma voz feminina fala e vejo uma senhora de uns quarenta anos saindo do casarão — sou a Ana, responsável pela casa e esposa do capataz.

— Dona Ana finalmente um rosto para o nome, pode me chamar só de Gisele.

— Que isso patroa eu tenho modos — fala envergonhada e eu sorrio.

— Não me importo com essas coisas, esse é o meu amigo Gabriel — os apresento — vejo que minhas coisas chegaram.

— Sim os rapazes já estão terminando de descarregar a senhora pode entrar e ver como tudo ficou;

E é isso que eu faço pela próxima hora, ando pela casa inteira me inteirando de tudo, olho cada cômodo e quando chego ao meu quarto só falto delirar de tanta felicidade. Desço correndo as escadas para chamar o Gabe e o encontro no meio do caminho.

— Você tem visitas — ele diz e eu franzo o cenho, como assim visitas eu acabei de chegar. — estão te esperando lá fora.

Vou saindo para a varanda fazendo perguntas ao meu amigo, mas todas elas morrem na minha garganta quando dou de cara com o meu passado. 

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