8ºCapítulo
Atualmente - 7 de janeiro
Sorvo um pouco do meu cacau quente, como um rapazinho prestes a ir para a cama. O vento assobia lá fora, por entre o céu escurecido, e, aqui dentro, em frente ao computador, com os pés aquecidos por uma carpete macia e felpuda, sinto-me em segurança, como um rapazinho, novamente.
Na verdade, alguma vez terei crescido? Não terei sido como a Morte que, ao se deparar com a perda de uma vida por viver, nunca terá enfrentado os verdadeiros desgostos e as verdadeiras felicidades? Porque eu sinto-me assim, inseguro e inexperiente, trémulo apenas com o suspirar de uma brisa.
Volto a concentrar-me no ecrã luminoso à minha frente, ainda que esteja, lentamente, a ser dominado pelo sono.
Fotossensibilidade: É uma «alergia ao sol», caracterizada por sintomas de comichão ou de manchas na pele, sendo que algumas destas pessoas podem demonstrar herdar estas tendências fotossensíveis.
Entre outros, existem vários tipos de fotossensibilidade da pele:
Urticária solar, que surge logo após alguns minutos de exposição solar e que dura entre horas a alguns minutos. O seu tratamento é complexo, sendo prescritos por vezes medicamentos que suavizam os sintomas. Alguns sintomas da urticária solar são náuseas e fraquezas.
Fotossensibilidade química, onde algumas substâncias químicas ingeridas ou aplicadas (plantas, perfumes, entre outros) sensibilizam a pele, causando vermelhidão e escamação.
Erupção por luz polimórfica, em que a não regular exposição ao sol resulta numa sensibilidade solar que vai sendo combatida com a gradual exposição, que torna essas pessoas menos sensíveis.
«Urticária solar – imagens»
A imagem assemelha-se à marca que Diana possui no ombro, um intermédio entre escaldão e queimadura, como se o próprio sol tivesse atingido aquelas peles pálidas com os seus raios de fogo, deixando marcas eternas.
É doloroso, e queima como fogo. Penso, reprimindo um bocejo, antes de me afundar na cadeira almofadada e cair num sono profundo, feito de sonhos.
* * *
Abro os olhos, o fogo que outrora me queimara a dissipar-se da minha pele. Observo os meus braços, brancos e lisos como sempre. Pestanejo pateticamente, completamente incrédulo, enquanto penso se não passou tudo de uma ilusão.
Depois desse momento de pura estupefação, volto a concentrar-me no cenário a meu redor, mas, com o meu cérebro ainda confuso, apenas consigo associar aos objetos imagens hipnóticas: umas riscas de zebra aqui (uma zebra gigante, para dizer a verdade), uma poça de água ali... (na parede?), uma lâmpada gigante a sobressair no estreito buraco de uma parede desinteressadamente pálida (mas a luz é mais pálida do que a de uma lâmpada).
Onde é que eu estou?
Uma zebra? Decerto isto não é um jardim zoológico. E uma poça de água não se costuma rebelar quanto às leis da gravidade e uma lâmpada... Grades, espelho, janela – a lógica atinge-me inesperadamente, impaciente pelo meu despertar. Coro pela minha idiotice, e coro novamente pelo pensamento que me trespassa a mente: talvez eu tenha dito tudo isto em voz alta.
Mas isso é irónico, porque não há aqui alguém que me oiça. O único barulho provém de uma torneira a pingar, erguida por cima de um lavatório rachado.
Não. Para além desse leve ruído, algo ainda mais impercetível, começa agora a ganhar voz: um colchão range lentamente, um barulho não muito alto ou incómodo, mas desconhecido e, por consequência, apavorante. Rodo o meu pescoço sob o meu tronco inflexível, que por sua vez se encontra assente numa cadeira de metal frio e duro.
O colchão, percebo de imediato, é a cama por de baixo do beliche e alguém se encontra lá, tapado por diversos lençóis, todos brancos, limpos e enigmáticos.
Oiço um murmúrio, ou melhor, um gemido. Um gemido rouco e profundo, igualmente queixoso. Os pelos dos meus braços eriçam-se e levanto-me abruptamente da cadeira, absolutamente desperto.
A alma encosta-se às grades, apavorada. Mas desvia-se imediatamente delas, com medo do que possa estar atrás dela. Nada mais que a negrura do breu se encontra do lado de fora e alma, um rapaz, nada mais pode fazer que avançar para o gemido.
Ao início hesito, afastando-me das grades, olhando cuidadosamente para a forma indistinta sob os lençóis. Passo o peso de um pé para o outro atabalhoadamente. Depois, decido que a minha respiração nervosa, se não outros gestos igualmente ruidosos, já denunciaram a minha presença e que só me resta avançar até ao corpo tremelicante.
Os gemidos agravam-se a meio do meu tremelicante caminho e penso em fugir. Mas depois lembro-me que não há fuga possível e que só me resta avançar.
- Está bem? Você está...- Pouso, hesitantemente, a mão no lençol, tentando sentir o corpo por debaixo dele e um braço começa então a ganhar contornos cada vez mais magros e frágeis a cada segundo.- ... bem?
Os gemidos são interrompidos por uma tosse rouca. Depois, um silêncio, apenas perturbado pelo leve gotejar da torneira. Maldita seja essa torneira.
Inspiro, encorajadoramente, e desembrulho o embrulho feito de lençóis, para descobrir uma face velha e adoentada por debaixo destes. A visão da sua pele ressequida e amarelada, do seu cabelo ralo e grisalho e dos seus dedos finos, afiados e rugosos, firmemente agarrados à borda da cama, atingem-me de imediato. Ou melhor, atingem esta alma de imediato.
Porque para mim tudo isto é tão familiar...
A alma não consegue reprimir um esgar. É tudo tão nojento, frágil, fraco.
O cheiro amargo da antiguidade atinge-me, e o cheiro de doença também. A velha agarra-me o pulso com a sua mão enrugada, mas eu afasto-a abruptamente.
- Tira essa mão nojenta de cima de mim!
Dou um impulso para trás, cambaleio, e volto a focar o meu olhar na velha. Os seus braços continuam a mover-se por debaixo dos lençóis e os seus dedos, como aranhas apressadas, percorreu cada milímetro da berma do lençol.
O brilho do seu anel desperta-me a atenção: de prata, luz perante a pouca claridade de um feixe de luz. Os gemidos queixosos continuam a corromper os meus ouvidos, mas de uma forma calma e hipnotizadora. É impossível ignorá-los.
Mas agora... A voz rouca... A voz rouca está cada vez mais baixa e mais doce. Melodiosos, até. Já não é uma voz fraca e antiga, se é que alguma vez o foi. Mas claro que não foi, porque esta voz sempre foi jovem e indefesa.
Desvio a minha atenção do anel e concentro-a novamente nos dedos finos e afiados. Agora, macios e pálidos, parecem hipnotizar-me, clamar o meu nome. E eu vou a seu encontro, desmontando novamente o muro de lençóis e cruzando-me com o rosto jovem e frágil de uma rapariga com os seus... dezoito? Não mais do que isso, decerto.
E coro novamente, por ter sido tão idiota ao ponto de achá-la velha, fraca e nojenta. O seu cheiro não é amargo e sim doce e refrescante. E os seus olhos não transparecem desespero e sim fragilidade. Uma fragilidade que me apresso a socorrer, quando ela parece murmurar algo por entre o emaranhado de cabelos negros junto à sua boca encarnada.
Aproximo o meu ouvido dos seus lábios e, com a voz calma e triunfante assemelhando-se às ondas pacíficas do mar, ela sussurra-me:
- Se sou tão asquerosa como velha, porque não o sou também enquanto nova?
O quê?
Não, aquela face encovada e enrugada foi simplesmente uma ilusão, certo? Esta rapariga não pode ter duas faces. Para além disso, nem tenho realmente a certeza de ter visto uma velha asquerosa antes.
A mente costuma pregar muitas partidas.
A rapariga olha fixamente para mim: um olhar escuro e penetrante que me arrepia por completo. Sem deixar de fixar o meu olhar, ela liberta-se lenta e agilmente do emaranhado de lençóis e caminha na minha direção, inclinando cuidadosamente a cabeça ao mesmo tempo que transformações radicais começam a ocorrer no seu rosto.
Como uma serpente, ela concentra o seu olhar na presa. E, de uma forma hipnotizadora, rugas vão tomando o seu lugar como crateras bem vincadas, cada vez mais bem vincadas, e os cabelos vão perdendo a sua força, o seu brilho, a sua escuridão.
E, quando para a centímetros da minha face e me afaga a maçã do rosto, posso sentir a rugosidade da sua mão.
E eu já não sinto nojo. Sinto medo.
E esta velha sabe isso.
- Quem... é... você...?- Pergunto sem fôlego, com cada pelo da minha nuca eriçado e com uma vontade incessante de correr para o canto mais longínquo desta cela, mas com medo de que esta - feiticeira? – me apanhe de um só salto e me dilacere lentamente, como numa tortura. Por isso, apenas assento no meu lugar, todo eu feito de tremeliques apavorantes.
- Tu sabes quem eu sou.- Ela sorri face a minha confusão, de um modo maternal.- Já manchei as minhas roupas de sangue, de sofrimento, de pavor. Todos acham que venho vestida de preto e com uma foice na mão, como se ceifasse vidas e estivesse de luto por elas. Mas visto-me de branco e nem por uma vez assassinei alguém. Apenas recolhi a sua alma.
Engulo em seco.
- Adivinha, adivinha, quem sou eu.- Murmura mais para si própria do que para mim, esboçando um sorriso, mas nem por uma única vez feliz.
- A Morte.- Ela suspira quando confrontada com a minha resposta.- Estou morto?- Ela assente. Lembro-me do fogo, do calor, dos gritos, e compreendo que estou a ficar bastante pálido.- É mentira! Ainda há pouco... ainda há pouco...- Silêncio. Um silêncio pesado. Sinto tonturas, o suor a agrupar-se na minha testa, a minha respiração.- Estou morto.
- O teu corpo e a tua alma. Separaram-se. Seguiram rumos diferentes.- Continua ela a explicar, serena e neutra, como se isso me fizesse esquecer o calor, os gritos, a minha própria morte.
- E, não me diga, estou pronto para rumar à paz eterna?- A minha voz distorce-se, tão pesado é o sarcasmo contido.
- O termo paz é relativo. O que interessa é que partiste, já não precisas de viver naquele mundo, por vezes tão cruel, não achas?
- E se eu quiser ficar aqui, onde estou, apenas a olhar para os passarinhos e a cantar músicas infantis?! Nada me impede de o fazer.- Protesto, semicerrando os olhos na direção desta mulher misteriosamente compassiva.
- Pois não. Mas o tempo vai passar, as pessoas irão seguir a sua vida e tu ficarás aqui, eternamente. Não terás nenhuma função neste mundo e não poderás perturbar os caminhos de outras almas vivas. Ficarás invisível e isolado.- Reviro os olhos, tal é o dramatismo nas palavras dela que, ironicamente, em nada se encaixam na sua expressão natural, de olhos fixos e calmos: sinceramente, começo a sentir-me assustado com essa expressão.
- E você vai-me levar para a paz?- Ela assente.- Como é que eu sei que não é o próprio Diabo?- É impossível conter um tom acusador.
- Porque nem o Diabo nem Deus existem. Para mim todas almas merecem paz.
- Mesmo depois de fazer as coisas mais cruéis de sempre?- Replico, num tom indignado.
- A crueldade é apenas um resultado de circunstâncias injustas da vida.- Finaliza ela.- Podes confiar em mim. Nada de mal te irá acontecer. O sofrimento, a tristeza e todas as sensações repulsivas da vida vão desaparecer. Se me seguires.
Ela estende-me a mão e eu agarro-a.
Enquanto começa a flutuar, ele pensa na sua vida, nas suas memórias passadas: na mãe, demasiado ocupada em amar outras pessoas que não o próprio filho; no seu sentimento de injustiça a diminuir de cada vez que obrigava Madalena a jogar aquele jogo assustador por entre os trilhos da floresta; o seu desapontamento dissimulado sempre que Madalena não completava o jogo e no seu divertimento quando o jogo, pelo contrário, era completado e levado às últimas consequências. Depois recorda-se dos outros elementos da família menos fracos, menos dissimulados: a avó, uma idosa resmungona mas com um coração mole e caloroso no fundo; e o pai, o mais especial de toda aquela família desequilibrada: aquele que havia mostrado interesse no filho, aquele que todas as noites ficara acordado a contar-lhe histórias da sua infância, aquele que, mesmo depois de ter partido para um lugar angustiante, continuava a mandar-lhe cartas, mostrando-se definitivamente preocupado.
O pai, a única pessoa que ele não quer abandonar. A única pessoa que realmente merece ser salva. A única pessoa que, apesar de ir contra as regras da sociedade, ama com o verdadeiro sentido da palavra amor.
E o rapaz sabe que não o pode abandonar e por isso larga aquela mão e grita:
- Pai!
E o rosto do pai surge, e ele para de flutuar. Mas nem por um momento volta ao seu corpo original: sabe que está condenado, eternamente
* * *
Acordo ofegante como me havia acontecido no primeiro sonho, sentindo ainda a inquietação alucinante desta alma.
O rapaz. Só pode ser Rodrigo, o filho da família.
No entanto, apesar de ter apenas treze anos, algo na sua inquietação e nas suas memórias me faz perceber que, por detrás do seu ar forte e impenetrável, ele esconde um segredo demasiado grandioso. Um segredo desencadeado pela raiva, pela angústia e pela injustiça.
E, apavorado, percebo que o rapaz se parece comigo, com as minhas próprias memórias da vida que vivi, e isso é horrendo: porque o que eu fiz foi uma coisa sem igual. O mais dramático dos crimes, talvez.
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