7ºCapítulo
Atualmente - 7 de janeiro
- Devo desde já dizer-lhe que a sua curiosidade é um pouco mórbida.- A empregada, Eloisa, esbugalha agora os olhos, salientando o facto com um ar hesitante mas carinhoso.- E estranha. E particularmente assustadora.
- Continua a ser uma curiosidade.
Decidi perguntar a Eloisa sobre a mansão vizinha pois, pelo seu sorriso permanente e o seu andar atabalhoado, consigo perceber que é uma pessoa que, ainda que tímida, me dará as informações que quero, alegremente.
Ela suspira e, aclarando a garganta, responde:
- Bem, eu só comecei a cuidar da Diana há pouco tempo, por isso nunca cá estive no tempo em que a família que lá vivia era viva.- A família... morreu. Concluo, no meu pensamento.- Também não sei o que lhes aconteceu, no entanto...
- Era uma família de cinco? De cinco membros?
- Não sei...- Pigarreia, levemente irritada com o meu intervir no seu discurso.- No entanto, a Diana, embora disfarce, sempre mostrou um estranho interesse sobre o caso. Ainda há pouco tempo encontrei no seu quarto um artigo de jornal desse ano que relatava o acontecimento pormenorizadamente. Ela guardou-o muito cuidadosamente... Por isso julgo que ela seja a pessoa mais indicada para satisfazer essa curiosidade...
- Já sei.- Interrompo, com um sorriso estampado nos lábios.- Mórbida, estranha e particularmente assustadora.- Ela esboça por sua vez um sorriso, não tendo mesmo assim noção da sua grandiosidade, ao dispor aquela pequena informação aos meus ouvidos.
Dirijo-me rapidamente para o meu quarto temporário e apenas quando oiço os passos de Eloisa a descerem o lance de escadas, me atrevo a caminhar em direção ao quarto de Diana.
Por fim, abro lentamente a porta de madeira, deparando-me com Diana deitada numa cama digna de uma rainha, com um véu suave e transparente caído pelos extremos da cama. Os seus cabelos dourados estão espalhados pela almofada branca e o seu vestido de dormir é semelhante aos vestidos das bonecas de porcelana.
Em silêncio, obrigo-me a avançar até à sua secretária. Existem várias gavetas, iguais e monótonas e eu questiono-me qual será a que esconde aquele papel tão importante.
Depois de uma avaliação minuciosa a cada gaveta, decido abrir a do meio, mais como um instinto supersticioso do que racional.
Na gaveta só encontro cadernos e manuais e, num suspiro abro a gaveta de baixo, olhando de relance para Diana que até ao momento continua a dormir, do outro lado deste quarto particularmente grande.
Um artigo? Pergunto, como se tivesse levado uma injeção de sarcasmo neste momento.
Não é só um artigo. São vários: artigos e jornais, e ainda um álbum de fotografias. Retiro o álbum de fotografias e um jornal que, pela capa, parece dedicar-se inteiramente ao assunto, sendo o título deste «Família consumida pelas chamas».
Por fim, saio cuidadosamente do quarto, certificando-me que Diana ainda continua a dormir e que as gavetas estão fechadas, a repousar na mesma posição em que as tinha encontrado.
* * *
«9 De Março De 2007
Ontem, dia 8 de março, quinta-feira, foram encontrados os restos mortais da família Mateus, entre as cinzas. Ao que tudo indica, o incêndio facilmente controlado e extinto pelos bombeiros, deflagrou no primeiro andar, num dos quartos da casa.
As vítimas deste incêndio são o casal Emília, 49 anos, e Óscar Mateus, 50, que tinham dois filhos: Rodrigo, 13, e Madalena, 8. A última vítima foi uma idosa de 84 anos, Josefa, a avó materna dos dois jovens.
Os vizinhos mais próximos, Vasco Marques e a sua sobrinha Diana, asseguram não terem ouvido quaisquer barulhos vindos da casa, o que é natural, tendo em conta que as casas se encontram a uma considerável distância uma da outra.
Quanto à razão do incêndio, é ainda desconhecida e os polícias julgam não chegar a desvendá-la, já que os indícios são misteriosos.
Quanto à opção de fogo posto, os polícias metem essa opção de parte, recordando que "as vítimas em causa não tinham quaisquer relações problemáticas".
Porém, entre as vítimas em causa, havia uma com um alto comportamento de risco: Óscar Mateus, paciente da unidade psiquiátrica da vila em questão.
Poderá assim, Óscar Mateus ter assassinado quatro membros da sua família?
Esperemos que, contrariando as indicações dadas acima, a polícia consiga descobrir o verdadeiro motivo por detrás deste incêndio misterioso.»
Folheio o álbum de fotografias, tentando encontrar algum sentido nas fotografias e, passado pouco tempo, consigo compreender o que está diante de mim: Fotografias da família que morreu, pousando ao lado de outros dois elementos, alternados e em conjunto – Diana e o tio.
Compreendo. Afinal, eram vizinhos. Podiam até ser amigos. Mas há uma certa intimidade duma mulher com Diana, um presentear de olhares carinhosos e felizes àquela Diana que naquele tempo nada mais era que uma pequena e indefesa menina de caracóis dourados.
Por fim, no fim do álbum, existe uma última foto em estado lastimável – rasgada e como que pisada – mas que atrai particularmente a minha atenção:
Na foto está a mulher, que, surpreendam-se agora pela minha incrível revelação, é Emília, a mulher que eu vira de olhos raivosos fitando a idosa naquela mansão destruída, há um dia atrás.
A mulher, de cachos igualmente dourados e uns olhos pequenos e escuros, segura Diana nos braços. Diana tem os olhos virados para a câmara, a cabeça inclinada para trás como que prestes a soltar uma gargalhada e o seu tom infantil e natural sobressai na foto, num gesto encantador.
Mas o olhar da mulher. Note-se no olhar da mulher: Um olhar orgulhoso, confiante, como se segura-se no colo o maior diamante do mundo, a estrela mais luminosa da noite, o deus mais poderoso do universo.
Pergunto-me quem será a mulher, de facto. Mãe de Rodrigo e Madalena, mas igualmente mãe de Diana?
Ou apenas uma amiga da família?
E se a ligação entre as duas era tão íntima, o que aconteceu para Diana não querer tocar no assunto? Será meramente pelo tom doloroso que as memórias ganharam após o incêndio ou será algo mais?
Ou será algo mais?
* * *
Nas traseiras da mansão, junto ao muro que a cerca, sento-me num banco de madeira simples e retirado de todo o espaço triste e assombroso a seu redor. Hoje, surpreendentemente, o dia está luminoso e este sítio parece um pouco menos mórbido: observando o sol que ruge imperioso no céu azul, exibindo o seu brilho e a sua alegria, podemos detetar um vislumbre de... felicidade.
No passado, antes de as almas perdidas governarem este lugar, terá sido assim?
Avisto algo ao longe, não na direção da floresta mas sim da mansão vizinha que, ainda agora, me causa calafrios. Junto a um carvalho, próximo da casa, encontra-se um baloiço que parece ter lá... alguém. E, mesmo a seu lado, existe outro vulto, baixo e elegante.
Caminho na sua direção, apressando o passo mas sentindo um vento forte a vir contra mim, a bater-me no rosto e a revolver-me o cabelo, como se dissesse para eu parar, para eu recuar. Mas eu não paro, nem recuo, apenas corro pela colina, parando somente quando me encontro a apenas alguns metros de distância do carvalho.
E é aí que percebo o que realmente é o alguém que baloiça com a ajuda do vento, tão leve e frágil, prestes a voar.
Esse alguém nada mais é que ninguém, nada mais é que uma boneca de trapos, de pele branca e um vestido cor-de-rosa. Possui um rosto infantil e um olhar tristonho e eu posso imaginar, ou melhor, observar, a causa da sua tristeza: sentada no baloiço, a boneca está presa e costurada com linhas de lã, negras como a asa de um corvo. Parece um fantoche, os membros eternizados numa posição rígida bem conseguida pelos fios negros de costura: as pernas possuem ligações nos joelhos para permanecerem dobradas e sentadas no banco, enquanto os braços possuem ligações nos dedos para continuarem a agarrar os suportes do baloiço.
A cabeça levemente inclinada e os lábios cerrados por outra linha de lã preta sedosa, num gesto eterno de silêncio. E os olhos, arrancados das suas posições confortantes, foram substituídos por botões pretos, brilhantes e macabros.
E o vulto a seu lado, sentado na relva e observando a macabra cena nada mais é que uma boneca de cabelos negros e pele branca e polida: a boneca do meu sonho e a filha de Madalena, Beatriz.
E algo no olhar de Beatriz parece feliz, divertido com a cena à sua frente.
Como um mau presságio, recuo um passo, sem querer olhar mais para tal cena. Como se toda a coragem que eu tivesse arrecadado ao longo dos séculos como anjo da guarda se tivessem reduzido a este momento terrorífico.
Tenho medo, mas não consigo partir, quero erguer-me por entre as sombras e desvendar este mistério, mas isso parece-me agora impossível. Na verdade, sou só eu, sozinho, a enfrentar algo que me é completamente desconhecido: desta vez, não tenho ninguém que me guie.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top