30º Capítulo

9 de janeiro – Uma última vez, a Prisão

Abro os olhos e sinto a luz adentrar na minha íris dorida. Sinto uma enorme dor de cabeça, que agora acompanha a dor do punhal cravado em mim.

Estou numa sala cinzenta e escura, pois apenas um feixe de luz a ilumina e, separando-me do mundo lá fora, estão inúmeras grades, que refletem o meu cabelo deslavado, a minha camisola preta lamacenta, o meu rosto demasiado...

Num dia distante - fevereiro de 1798

... fino. É um dedo demasiado fino, realmente.

Foi a única coisa em que pensei quando aquela mão pálida se estendeu para mim. E, estando eu nas profundezas daquele rio, começando já a sentir a dor do punhal tornar-se mais suave, não tinha vontade alguma de emergir, de me deparar com um alguém preocupado, a perguntar-me se estava bem, se precisava de uma sopa quente para me aquecer. «Sim, estou bem, e não, não preciso de uma sopa. Eu nem sequer gosto de sopa.» Responderia eu, enquanto aquele alguém despiria o seu casaco e o enrolaria à minha volta, encenando alguma compaixão de uma forma exagerada.

Continuei imóvel nas profundezas do rio, mas aquela pálida mão aproximava-se, gloriosa.

Já não posso tentar morrer em paz? Pensei para mim, com uma frustração talvez só um pouco desnecessária.

Mas nem por isso a mão se demoveu. Aliás, continuou estática, voltada para mim, à espera que eu a agarrasse. E eu olhei para ela, cada vez mais desconfiado, até que o vi, pelo canto do olho. Até que vi um pequeno pedaço de tecido branco luminoso que compunha o vestido branco daquela mulher.

De repente, a minha frustração desapareceu e...

Atualmente - 9 de janeiro

... sinto as lágrimas a escorrerem pelo meu rosto. Fecho os olhos. Tantas são as memórias que me iludem, tanto é o meu desejo de a ver novamente, que a minha imaginação começa a tomar conta do meu corpo. Porque, agora, sinto a cadeira de metal fria, onde imagino estar sentado. E é tão fria, e parece tão real. E consigo ouvir o cântico da bela Morte, suave, na minha imaginação. Apenas na minha imaginação.

Como eu adoro imaginar! Imaginar, imaginar, imaginar.

Desde quando é que eu sou um louco a alucinar? Desde quando é que passei a ser comandado pela saudade e pela...

Num dia distante - fevereiro de 1798

... luz que emanava dela fazia-me querer continuar a segui-la, embora eu estivesse completamente encharcado e gelado. Porque eu estava hipnotizado por ela. A luz esbranquiçada do seu vestido parecia o único caminho, parecia mais acolhedora, e eu corria, tentando alcançá-la na noite cerrada, mas sem sucesso. Nem por uma única vez consegui roçar os meus dedos no belo vestido que a envolvia.

Só ela me poderia salvar, só ela me poderia salvar e apenas se eu a seguisse.

E sim, permitam-me dizer que eu sabia a ironia impregnada nestas últimas palavras: «Só ela me podia salvar. A Morte era a minha única salvação.» Mas, na verdade, já não tinha sentimento algum pela vida. Apenas queria alcançá-la e... Para onde quer que ela me levasse...

De repente, ela pareceu-me mais longínqua, demasiado longínqua. Corri, corri até estar ofegante, até sentir os meus pés cederem. Mas continuei a correr e a correr e... afinal, há quanto tempo estava a correr? Há muito, eu sabia.

Mas ela não corria e, no entanto, parecia cada vez mais distante. Eu estava novamente na ponte, a correr sobre ela, mas não para ganhar balanço e saltar para o rio, mergulhar nas suas águas profundas, e sim para a apanhar. Para agarrar a sua mão. Para que depois ela...

Atualmente - 9 de janeiro

... tome conta de mim. Não posso deixar que a minha loucura me engane, muito menos tomando a forma de uma jovem de pele branca e cabelos negros, tomando a forma da minha amada Morte. Tenho de acabar com isto, com estas alucinações fantasmagóricas e cruéis. Não quero mais sentir a dor, a saudade que tenho dela, mas não me vou permitir entrar neste mundo de falsas esperanças. Não vou permitir que...

Num dia distante - fevereiro de 1798

... ela desaparecesse. Ela distanciava-se mais e mais e, naquele momento, era apenas um ponto luminoso ao fundo daquela estreita estrada. E estava tão escuro, e ela estava tão clara. Continuei a correr e a correr, até que percebi que estava sozinho, que ela me abandonara.

Olhei novamente em frente, com um vazio no meu peito, tão grande que caí de joelhos no asfalto da estrada. E, para lá da estrada e do céu escuro, vi apenas um ponto branco: afinal, era uma estrela.

Olhei para trás, derrotado, e percebi que há muito me afastara da ponte. Agora, estava num sítio escuro e isolado, e a ponte estava demasiado longe para me apetecer levantar e encaminhar-me para lá. Para me atirar novamente.

Agora que pensava bem, isso seria tão estúpido.

E, agora que repensava bem, também não teria sido estúpido da primeira vez, quando me atirei realmente da ponte?

Malditas ilusões que me fazem pensar.

                                                                                                * * *

Atualmente - 9 de janeiro

Cerro os olhos e as lágrimas escorrem-me pela face descontroladamente, enquanto relembro aquela noite no rio, quando tentei brincar aos afogados: o vazio que havia dentro de mim alastrou-se nesse momento longínquo e expandiu-se e esborratou-se no meu peito, tal e qual a estrela que preenchia o céu escuro se expandiu e esborratou naquela noite, mas apenas pelos meus olhos chorosos, demasiado chorosos.

Foi nessa noite que percebi o quão perigosas são a saudade e a culpa juntas.

E agora, o que me resta? Ser um louco, assolado por alucinações? É este o meu trágico fim? Porque, sinceramente, esperava algo mais original, mais doloroso, que fizesse jus ao meu nome, a quem eu fui e sou. Um covarde. Um monstro.

E, por entre estes pensamentos, continuo com os olhos cerrados, esperando que tudo isto não passe de um sonho, mas também desejando que tudo isto seja real. E que, depois, venha Ela. A minha doce e amada Morte.

Sim! Sim, eu posso ser um covarde, um monstro, um amedrontado e um afligido por alucinações, mas... deixai-me uma última vez vê-la, Deus! Que não seja apenas a minha imaginação, imaginação, imaginação! Faça com que seja real, dai-me um sinal, apenas um...

Uma mão pousa na minha face, na minha bochecha lamacenta. O meu coração acelera e depois desacelera, tentando acompanhar o ritmo dos meus pensamentos que ora decidem que tudo isto é real, ora decidem que tudo isto é mentira.

Mas a sensação macia da mão, o perfume único e desconhecido do ar, a melodia silenciosa de tudo à minha volta. Tudo isto é demasiado real para eu decidir que é uma ilusão.

Por favor Deus, faz com que, quando eu abrir os olhos, não veja apenas uma pequena estrela, no meio de toda uma escuridão! E, depois, as lágrimas transformam-se num riso entredentes que apenas demonstra o meu desejo desesperado, a prova que tudo isto é mais um dos delírios que Ela me causa. Porque, afinal, eu nem sequer sou religioso, eu nem sequer acredito em Deus. Penso para mim, com o meu sádico sarcasmo a resultar numa estranha mistura de choro e gargalhada.

Mas enfim, agora que esta mão fria e macia está na minha bochecha, e tudo isso põe em causa as minhas alucinações. Porque, quando abrir os olhos posso ver um pesadelo inédito, construído pela minha mente. Ou então posso encontrá-la, o seu estranho sorriso voltado para mim.

É uma questão de tempo até descobrir do que realmente de trata.

Ganho coragem e inspiro. Perco a coragem e expiro. Ganho coragem e inspiro e, antes que a possa perder novamente, e para sempre, abro os olhos. Esbugalho-os, é o termo mais correto. Mas, depois...

Depois lá está Ela, à minha frente, com a mão pousada no meu rosto, e a sua face, irradiando uma compreensão sensata e nada encenada, sorrindo para mim como outrora sorriu. Está mais próxima que nunca, mais bela que nunca.

E quando o seu sorriso se torna mais acolhedor e mais familiar, o punhal no meu peito acentua-se.

- Eu não te mereço.- As lágrimas no meu rosto correm mais depressa, enquanto a dor se torna impossível de suportar. Se eu não fosse um Anjo, se eu pudesse morrer, há muito que estaria morto por esta dor.- Eu não te mereço...

Deixo-me cair de joelhos, os meus braços enrolados à volta da minha barriga, enquanto a ferida aumenta, rasga a minha pele numa dor imaginária.

Procuro desesperado aquele tecido luminoso, os seus braços mágicos e pálidos, mas sem sucesso. As lágrimas turvam-me a vista, e é como se ela não existisse mais.


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