28ºCapítulo
Atualmente - 9 de janeiro
Encolho-me na cama de Diana quando a dor lancinante do punhal me ataca de novo. Sinto-me a tremer, a vacilar, e sei o que preciso de fazer para ganhar coragem, para dar o passo seguinte.
Preciso da minha droga, a minha tão essencial droga.
Abro o caderno, que outrora Diana abriu sem minha permissão, mas, desta vez, mais aliviado que nunca.
15 de março de 182o – Um presente generoso
Tinha a barba por aparar, a roupa esfarrapada e um cheiro a imundice, que o perseguia para onde quer que ele fosse.
As pessoas passavam por ele, suficiente mesquinhas para repararem no seu cheiro repugnante e na sua aparência horrorosa, e suficiente ignorantes para deixarem escapar de vista o vislumbre de bondade nos olhos daquele homem e o sorriso humilde no seu rosto.
A cidade por onde Paulo deambulava era grande, no entanto, ele apenas reservava um pequeno canto, numa pequena rua, para estender a sua manta coçada e lá dormir por entre a escuridão fria da noite.
Era um mendigo: tão desgraçado no dinheiro, como no amor, como, digamos de passagem, na vida.
Mas ele era um homem esperto, com uma atenção discreta para os mais pequenos pormenores e uns dedos talentosos, possuidores de um talento esvoaçante que lhe permitiam chegar à carteira mais próxima. Mas não só a uma carteira próxima. Paulo esforçava-se para que essa carteira fosse igualmente importante.
Porque ele não era um simples ladrão como eu: ele escolhia as suas vítimas que, deixem-me que vos diga com bastante sinceridade, tinham tanto de ricas como de avarentas, com as suas manias ricalhaças e os seus olhares indolentes. Arrastavam-se pela rua com um ar comprometido, cientes da sua riqueza e mesmo assim forretas; e era isso que Paulo detestava: por mais que o tivessem, nunca dariam a ninguém um pouco do seu infinito.
Não que Paulo ansiasse por um pouco desse infinito. Aliás, ele era feliz apesar de tudo, entretido na sua paixão que era pintar. Não pintava numa tela como os pintores ricos e avarentos faziam, mas sim nas paredes do seu pequeno canto, na sua pequena rua.
Pintava luas e sóis, e animais e flores e, também, coisas que nunca antes ele vira, mas que no entanto imaginara. Porque Paulo era um homem de sonhos que, apesar de ir envelhecendo e envelhecendo, nunca deixara os seus sonhos envelhecerem com ele.
E uns trocos aqui e ali, postos no seu chapéu roto pela piedade dos mais pobres, ironicamente. Menos miseráveis que ele, claro, mas, mesmo assim miseráveis.
Até que, um dia, Paulo saiu do seu canto pequeno, na sua rua pequena, para se aventurar pelas lojas que não eram nem a mercearia, nem o supermercado mais barato daquela zona: era a loja que ele tanto admirara, postado do lado de fora, olhando sempre para a montra. Era a digna loja de pintores.
O jovem da caixa, incrédulo, viu passar o homem esfarrapado pela frente dos seus olhos e vi-o comprar, com toda a dignidade que lhe restava, pincéis, cola, cera, uma paleta e um cavalete. Artigos baratos mas que, mesmo assim, seriam caros para o mais rico dos pobres, se é que me faço entender.
Vendeu-lhe tudo, claro, e recebeu o dinheiro que era, sem dúvida, mesmo à justa para as compras do vagabundo. E, quando Paulo saiu da loja, um pivete a imundice apoderou-se da loja, mas estavam todos demasiado incrédulos para sequer notar nisso.
E, por isso, surpresos, ofendidos e magoados, os pobres trabalhadores que lhe haviam dado tanto dinheiro, começaram, rapidamente, a odiá-lo: eram, decerto, idiotas ao darem dinheiro a um velho homem que, em vez de gastá-lo em comida, gastava-o a comprar bugigangas, para depois, como dizia ele, «fazer arte».
O pobre Paulo não recebeu mais solidariedade dos pobres trabalhadores, mas, substituindo esse tão caridoso dinheiro, tinha a sua tela que, aos poucos, se foi enchendo de cor e significado. E claro que neste momento pensam que, num quadro, se pinta. Mas estão enganados. Paulo não pintou. Ele criou uma bela arte, de significado e beleza tão raros que, de facto era um dom.
Porque todos os furtos que ele havia feito aos homens e mulheres ricos ainda estavam guardados por baixo da sua manta desgastada. E ele continuou a roubar e a roubar e, no fim, a guardar debaixo dessa sua manta. Às tantas, imagino, essas notas todas já faziam de almofada à noite.
Humor negro, eu sei. Desculpem.
Continuando, Paulo trabalhou na sua valiosa obra até não poder mais, gastando o dinheiro no seu quadro de uma forma... original. E de dia para dia ia ficando cada vez mais faminto. Mas de dia para dia a sua convicção em não gastar nem um pouco do dinheiro roubado aumentava.
No fim, quando o terminou, o resultado era incrível.
Chamou ao quadro de «Um presente generoso» e sorriu para consigo ao ler, uma e outra vez, esse nome.
No entanto, o velho Paulo não havia de durar muito mais. Faminto como estava, mas disposto a resguardar a sua obra, guardou o quadro numa casa há muito abandonada, num dos extremos da cidade. No fim, foi-se embora, abandonou a casa, com a nova esperança de que, ali, a sua obra viesse a ser entendida. À sua saída, olhou apenas de relance para uma tabuleta no jardim desta, que bastante bem desenhada, dizia: «Vende-se».
Morreu no dia seguinte.
E ele teria agarrado a mão da bela Morte se não fosse aquele simples mas desconcertante problema: ele por fim lembrara-se, com a lembrança a ecoar na sua mente velha e esquecida, que vira naquela noite, algo por baixo de um «Vende-se» riscado.
Ele vira: «Vendido a Gustavo Alves».
Gustavo. Gustavo. Gus... tavo!
E ele largara a mão ao perceber de onde vinha aquele nome: era um daqueles homens rechonchudos, feios, ricos e avarentos que se galanteava pela rua, orgulhoso da sua riqueza. E ele não podia deixar o seu tão belo quadro chegar àquelas mãos imundas, imundas pela quantidade de dinheiro em que tocavam: afinal, o quadro tinha outro propósito.
Assim, ele largou a mão da Morte, obcecado pelas mãos de um rico idiota.
* * *
Quando eu vi Paulo pela primeira vez, ele estava esfarrapado como sempre estivera, mas não estava feliz: estava triste, desesperado, assolado por fantasmas medonhos. Porque ele estava morto, e por isso era incapaz de guardar o segredo que ele próprio criara.
Mas o que verdadeiramente me emocionou foi o seu quadro. Quando vi o quadro pela primeira vez, fiquei fascinado.
E, perguntam vocês desde o início, o que é que o quadro tinha, afinal?
Bem, o «Um presente generoso» era nem mais nem menos que uma tela onde camadas e camadas de notas sobrepostas e coladas umas às outras, numa pasta mole, repousavam. E, no fim, a última camada estava completamente encerada, luminosa e atrativa.
O quadro era belo, apesar do que possam dizer, pois, por cima da cera, ele desenhara com o pincel vários esboços de pessoas desesperadas, consumidas pelo egoísmo, a tentar chegar a todas as notas. Braços e mãos e pernas e pés estendiam-se pelo quadro, dispostos a apanhar o dinheiro, sendo que alguns excediam os limites do quadro, transbordavam para fora dele.
- Por favor, Anjo, ajuda-me.- Os seus olhos quase saltavam das órbitas, tão magro era o seu rosto e tão esbugalhadas eram aquelas bolas mirabolantes.
- Como?
- Durante todo este tempo ele não lhe tem tocado porque despreza a existência desta cave, mas o meu quadro... se ele apanha o quadro e esbanja todo este dinheiro, a razão da minha existência foi completamente inútil...- Ofegante, voltava-se para todo o lado, a toda a hora, aterrorizado com a possibilidade de o gordo do Gustavo nos conseguir ouvir.- Faz como eu te digo.
E eu fiz. Escapei com o quadro.
E fim da história? Claro que não, se não, seria tão desinteressante.
Demorou dois dias inteiros para eu conseguir descascar a cera brilhante que revestia o quadro e prendia as notas mas, por fim, soltei-as da cera e, também, da cola, que havia sido cuidadosamente utilizada de modo a ser tirada. E, por fim, com as notas livres, Paulo também se libertou, em paz.
Não sem antes, claro, observar as notas a serem entregues em cestos, uma pequena fortuna a cada pobre trabalhador. Porque, apesar de o terem deixado morrer à fome, Paulo sabia que eles não eram maus e que, agora, eles compreendiam a sua arte e a sua estranha paixão por ela.
Porque a arte era tudo o que ele tinha. E tudo o que restou dele, para o relembrar aos outros.
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