20ºCapítulo

Atualmente - 9 de janeiro

Quando acordo do meu estado de sonolência, despertando das memórias partilhadas por Madalena, sou apanhado de surpresa pela visão desta à minha frente, fitando-me como se, a qualquer momento, me fosse dilacerar.

- Agora compreendes?- Acaba por questionar, com a agulha fina, fria, afiada e comprida a brilhar junto ao sangue seco no meu braço.

Observo o meu próprio braço: vários picos, sete ao todo, marcas profundas de uma agulha que, ao se afundar na minha pele, demonstra tudo menos finura. Como se fosse algo bem mais grosso que se tivesse entranhado na pele, desenhando golpes profundos.

Uma ilusão de leveza.

No entanto, apenas sinto um leve ardor, numa das marcas, como um destaque doloroso. E, inconscientemente, percebo qual o seu significado: Madalena decerto desejava que eu sentisse a sua mais profunda memória de forma mais intensa. Mesmo que isso apenas significasse um simples e leve ardor no meu braço.

«Agora compreendes?» Ecoam agora na minha mente as suas palavras, recordando-me outrora de mim próprio, com o meu queixo erguido numa postura arrogante e cruel. «Agora compreendes?» Lembro-me de articular essas palavras num tom calmo mas frio.

- Mesmo assim. Tu ouviste a tua avó: eles amam-te.

Noto, nesse instante, descendo um pouco o olhar até ao nível do seu queixo, que a boneca, entrelaçada nos braços de Madalena como uma criança obediente, parece ter um olhar mais vivo que nunca. Ligeiras rugas preenchem o seu rosto e os cabelos... os cabelos estão notavelmente mais claros agora, do que no início da conversa, possuindo um tom... grisalho?

Algo nesse seu novo aspeto fraco e envelhecido me recorda a avó de Madalena.

- Se me amassem, não me teriam morto no meio de chamas.- Com estas palavras, Madalena puxa-me para a realidade.- Como deves saber, outrora, o método mais usado para aliviar uma aldeia da magia negra e matar uma bruxa, era consumir o seu corpo por entre as chamas. Queimavam-na para se verem livres dela.- Suspira, sorrindo debilmente.- O ser humano sempre foi muito criativo. Por isso, talvez tenha criado esse método por ver nas chamas o próprio Inferno.

- Estás a dizer que a tua família te considerava uma bruxa?- Pergunto, revirando os olhos no mesmo instante.

- Óbvio que não. Não sou assim tão egocêntrica: foram apenas devaneios. O que eu quero na verdade salientar é que, quem quer que tenha começado o incêndio, sabia que este seria uma forma dolorosa de morrer. No entanto, não teve compaixão suficiente para me poupar.- Por breves instantes, chego mesmo a sentir o cheiro a chamuscado invadir a sala.- Vais dizer que isso é amor?

Não vou dizer o que quer que seja, na verdade. Os meus pensamentos ainda estão confusos, ainda não chegaram sequer a uma conclusão, pelo que seria no mínimo perigoso transformá-los em palavras.

- Bem me parecia.- Conclui aquela rapariga de cabelos negros.- Sabes... apesar de tudo... apesar do que me fizeram, eu nunca a magoei. Eu sempre lhe cantei canções bonitas, sempre lhe fiz os melhores penteados e sempre lhe ensinei a esboçar os mais bonitos sorrisos. Demasiado poético para o dizer, mas foi o que eu fiz. Eu fui uma boa mãe, sabes? Apesar de tudo.

- Uma boa mãe?

- Para a Beatriz. Sempre a amei. Por isso nunca hei de perceber como é que uma mãe não ama os próprios filhos e é capaz de amar uma perfeita desconhecida. Ou melhor, uma desconhecida perfeita.

- Talvez não a amasse. Talvez não amasse ninguém.- Só me apercebo que resumi os meus pensamentos a palavras quando estas já ultrapassaram o limite dos meus lábios.

- Então admites. Admites que ela não me amava.- Para minha surpresa, ela assente desiludida, como se esperasse terminar este confronto de maneira diferente. Talvez esperasse que eu saísse vencedor desta batalha, porque isso significava que eu tinha descoberto... alguém que a amava.

Senta-se pesarosamente numa das poltronas onde o forro se começa a desprender. Durante breves instantes mantém-se assim, imóvel e triste e cansada. Mas, por fim, algo na sua expressão começa a endurecer e, para minha surpresa, o seu rosto sofre uma alteração radical, sendo que, agora, ela ri com uma frieza desumana e chora como uma criança solitária, abandonada pela família.

E a boneca: volto a reparar na boneca. Agora o seu cabelo tornou-se ainda mais claro, apropriando-se de um loiro deslavado, pertencente indiscutivelmente a Diana. A tonalidade azul nos seus olhos também se torna mais pálida, mas a pele ganha um tom rosado. Agora, revejo no rosto da boneca o rosto de Diana.

Consigo imaginar a boneca questionar-me, como outrora a Morte me questionou: «Espantado com as minhas alterações lentas, as minhas transformações perspicazes?»

E essa lembrança recusa-se a abandonar-me.

Oiço um débil riso oriundo de Madalena.

- A Beatriz consegue deixar todos incrédulos, não é? Todos fogem dela, como se o seu dom para se alterar fosse um defeito. Ninguém a aceita tal como é mas... eu aceito, sabes? Eu aceito-a tal como ela é, porque, apesar de tudo, uma mãe deve amar uma filha.- Sorri, olhando orgulhosa e apaixonadamente para a boneca que adula no seu colo.- Tens de entender que o seu poder é um dom.

- Ou uma maldição.- Ignoro o olhar furibundo que Madalena me dirige.- É ela, ela.- Repito lentamente, como que a tentar despertar uma compreensão por parte da rapariga. Não sei se acabei de encontrar a causa ou apenas procuro desesperadamente atirar as culpas a alguém.- Ela não te deixa partir. Vives agarrada a este mundo por essa... essa coisa maligna.

Sinto o rugir raivoso de Madalena quando esta, num ápice, se levanta da poltrona e se posta firmemente à minha frente, balançando um dedo comprido, fino e decidido à minha frente.

- A Beatriz não é uma coisa, muito menos maligna! Ela é o reflexo de tudo o que eu senti, de tudo o que eu vivi. E por isso eu a amo tanto: porque ela sentiu e viveu tudo o que eu outrora senti e vivi.

- Uma memória?- Sinto-me compelido a perguntar.

- Várias. Ela é o reflexo de todas as minhas memórias, por isso as suas alterações ao longo da minha conversa contigo: quando eu recordo algo, ela reflete o rosto que protagoniza essa recordação.

- Vês? Ela não te deixa partir. Enquanto tu recordares as mesmas coisas da mesma forma, nunca conseguirás partir.- Contraponho, mas agora Madalena já não me ouve, aparentando abeirar-se do limite de uma explosão cada vez mais.

- Tu não sabes o que eu vi, o que eu senti. Não sabes! Por isso sai. Sai! Ela estragou tudo, e tu nunca hás de perceber como. Nunca.- Choraminga, arrastando as suas palavras com gritos descontrolados.- Mas ela sabe o que fez. E ela vai sofrer. Vai sofrer.- Fecho os olhos, procurando uma solução temporária, um penso rápido para o rumo que esta conversa tomou.

Mas quando abro os olhos, a criança, cujo rosto alternara entre raiva e desespero, não está mais aqui. No entanto, sei onde está.

E é para lá que corro.

* * *

Quando por fim me deparo com a porta do quarto de Diana, hesito em abri-la: tenho medo do que possa encontrar. Pergunto-me se, o quer que tenha acontecido na minha ausência, seja alguma vez possível de aligeirar com o meu perdão. Penso que não.

Num instinto, rodo a maçaneta dourada que adorna cuidadosamente a porta do quarto de Diana. E, para minha surpresa, a porta de madeira abre-se suavemente, sem um único ruído, sem uma única resistência.

Reparo no corpo pálido rigidamente deitado na cama luxuosa, com o seu cabelo ondulado a cair em cascata até tocar no chão de madeira, sempre luzente. Por momentos, sustenho a respiração, tentando ver aquele breve indício de vida: aquele sobe e desce do peito, numa respiração regular e contínua.

Corro para Diana, sem ter certezas que esse indício ainda esteja lá mas, para meu estranho alívio, oiço um soluço abafado vindo dela. Viro o seu rosto para mim, lentamente, e estremeço quando os seus olhos vermelhos e inchados encontram os meus.

- O que aconteceu?- Pergunto.

O olhar dela vacila e sinto a vulnerabilidade que o assola. Sento-me na beira da sua cama, não deixando nunca de corresponder a esse olhar.

De repente, algo me desperta a atenção: um breve vislumbre de algo encarnado por entre os lençóis.

Instintivamente, levo a mão a essa mancha vermelha e, assim que aperto o lençol humedecido, compreendo que se trata do braço fino de Diana. Lanço-lhe um curto olhar e Diana, compreendendo o meu pedido, retira com uma obediência involuntária o braço debaixo do lençol, expondo uma ferida macabra: uma linha preta, em contraste evidente com a sua pele branca, está cosida estrategicamente na ligação do braço e do antebraço, relembrando aquela boneca de pano cosida no baloiço.

- Não achas que já chega de guardar segredos?

Diana assente tristemente e entreabre os lábios. Entre a respiração ofegante e o matraquear incessante das suas unhas na cabeceira da cama, ela pronuncia as suas primeiras palavras.

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