18ºCapítulo
Atualmente - 9 de janeiro
- Não era bem assim.- Um sorriso indecifrável apossou-se dos seus lábios.
Sinto um sabor esturricado na boca e não contenho uma careta, dando por mim a trincar uma daquelas bolachas de chocolate com recheio de morango: parecem estar... queimadas. Volto a pousar a bolacha no tabuleiro, compreendendo que tudo naquele sítio não passa de uma ilusão, uma máscara a disfarçar os restos chamuscados daquela casa.
- Então como era?- Pergunto a custo, com o sabor delirantemente desagradável a preencher todos os espaços vazios na minha boca.
- Bem,- Começa ela novamente, entrelaçando os joelhos e compondo as mãos em cima destes, com uma postura adulta, mas com um sorriso juvenil.- não sei porquê, ele sempre me detestou. Desde que eu havia nascido, me olhava com aquele olhar dilacerante, desejando que eu nunca tivesse vindo ao mundo. Mas, depois, quando fui substituída pela Diana, digamos que me tornei apenas uma escapatória para ele: sempre que se sentia inconformado, injustiçado, vinha ter comigo e obrigava-me a jogar um jogo.- E, ao transpor o limite das memórias e ao começar a revivê-las, ela reprime um esgar de dor, e um olhar tristonho consome-a.
Desço ligeiramente o meu olhar, centrando-me no rosto da boneca mesmo abaixo do queixo de Madalena. A boneca encontra-se no colo da menina, como uma criança incrivelmente obediente.
Mas algo na boneca se modificou: o rosto tornou-se mais infantil, rechonchudo e confuso, com um cabelo levemente mais revolto. Mas é a expressão que me chama realmente a atenção: o seu ar monocórdico, visível no seu rosto, foi, lentamente, substituído por um trejeito apavorado e sofrido nos lábios.
Engolindo seco e obrigando-me a ignorar Beatriz, devolvo a minha atenção à sua réplica humana, questionando-a:
- Que jogo?
Ela hesita, mas, perante o meu olhar insistente, decide responder:
- Na primeira vez, eu desconfiei logo que algo de mal se acercava: ele nunca me convidava para brincar com ele. Mas, por fim, aceitei e ele levou-me até à floresta mesmo em frente à nossa casa.- De repente, um içar nas pontas dos seus lábios rosados prende-me a atenção: ela parece... divertida, por momentos.- O Rodrigo adorava contar-me histórias assustadoras sobre ela. Sobre as almas que lá habitavam e em como, à noite, as árvores ganhavam as suas verdadeiras formas: uma velha que se erguia do seu túmulo para castigar todas as crianças que olhassem para as suas rugas empoadas; um jovem que sibilava os segredos da era antiga, segredos desconhecidos que haviam acabado com a sua vida; uma mulher de lábios azuis e pele pálida, afogada pelo seu maior medo, um medo que ainda habitava em cada esquina, em cada árvore, em cada trilho daquela floresta, segundo o meu irmão.
Enquanto ela fala, lenta e agilmente, eu vou criando esse espaço da floresta na minha mente, como se fosse uma criança a imaginar o mundo apenas guiada pelas palavras do irmão. E o que vejo são sombras de árvores monstruosas, risos apavorantes, um céu negro e um mundo sombrio.
- Assustador, não é?- Acordo do meu transe, surpreendendo-me com a rapariga que, quebrando a nossa distância relutantemente segura, se aproxima e me pousa a mão na face: uma mão pálida e gélida, de dedos finos que, ao afagarem a maçã do meu rosto, parecem uma aranha em movimento. Reprimo um arrepio.- Mas eu era cega o que, embora pareça o contrário, é muito mais perigoso: na minha mente, eu posso criar uma imagem completamente diferente do mundo, com as cores e as histórias que me contavam. No entanto, como já deves ter percebido, as histórias que eu ouvia não eram as mais... felizes de sempre, digamos assim.
- E tu criaste a imagem de um mundo sombrio, assustador e solitário.- Concluo.
Ela assente e afasta-se de mim, com o olhar modificado: tristonho e vazio. A boneca pende num dos seus braços, apertada contra o corpo, com um olhar vidrado e a pele cada vez mais pálida. Os seus lábios parecem formar um esgar de tristeza e, durante um momento, parece mexer-se.
- E o jogo...- A sua voz fraqueja, o seu lábio inferior treme.- O jogo consistia em confiar, em deixar-me ser guiada por entre a... floresta. Ele guiava-me até a uma clareira, mesmo no centro da densa floresta, e obrigava-me a contar... Um...- A boneca pende chorosa, com o cabelo a bilhar, e vejo o lampejo de algo afiado e brilhante por entre as suas madeixas.- ... Dois...- Uma contagem lenta o suficiente para eu reparar numa lágrima que escorre, cintilante e veloz, pela face lisa e pálida da rapariga.- ... Três.- A lágrima escorrega pelo seu queixo, cai no olho da boneca e, numa réplica macabra da mãe, a boneca também parece chorar, deixando a lágrima escorregar pela sua face macia.
O que brilha mais: a lágrima partilhada entre ambas ou aquele metal afiado, saliente no cabelo da boneca? E o que será aquele objeto?
O que será?
- E quando eu acabava de contar,- continua, reprimindo um soluço.- reparava que tinha deixado de sentir a sua presença e que o jogo tinha começado: tinha que o encontrar. E então, ficava incessantes horas à sua procura, assustada ao tropeçar nas raízes das sinistras árvores, apavorada ao ouvir barulhos de animais desconhecidos, vulnerável ao cair em encostas ligeiras e arbustos feitos de picos. E eu chorava e desesperava e por fim, quando pensava que me tinha perdido, Rodrigo aparecia, com uma gargalha desprezível, indicando-me o caminho para casa e sussurrando: «Linda menina, obrigada por me procurares, agora sim tenho a certeza que, no dia em que me perder, me irás ajudar. Não irás?». E as palavras dele, de tão assustadoras, obrigavam-me a assentir.
- Mas... e se tu simplesmente desistisses de o procurar e voltasses para casa?
Ela estremeceu, confrontada com a minha suposição.
- Nas raras vezes em que o tentava, na maior parte delas não conseguia, pois estava completamente perdida. Mas, nas que conseguia voltar para casa, os castigos eram tremendos: da primeira vez, quando voltei, Rodrigo chorou e disse que, quando ele caíra numa encosta coberta de arbustos feitos de picos afiados, eu não o socorrera. E, da segunda vez, salientou o facto de eu estar esfarrapado e suja, pois chovera nesse dia. E isso só me fazia descer na consideração da minha mãe.
- Mesmo assim. Tenho a certeza que a tua mãe e o teu irmão gostavam de ti. Apesar de tudo, a família gosta sempre de nós.
Madalena revira os olhos.
- Está visto que a tua família te adorava.
- Eu cresci sem família.- Corrijo.
Ela encolhe os ombros, pouco impressionada, muito menos sensibilizada. Depois, fita-me durante um longo tempo: ao início retribuo o olhar invasivo mas, aos poucos, a nossa troca de olhares vai-se tornando desconfortável. Claro está, apenas para mim.
Por momentos, volto a fixar a minha atenção na boneca e na coisa metálica e brilhante presa no seu cabelo. Uma coisa fina, afiada. Uma... agulha?
- Não compreendes, pois não?- Acaba Madalena por sibilar. Depois, algo que oscila entre um esgar e um sorriso de desprezo invade-lhe o rosto por breves segundos.- Claro que não entendes. Porque tu não estavas lá.- Ela eleva-se da poltrona, parecendo mais alta e mais magra do que antes. O seu vestido azulado cria agora um efeito estranho, deixando transparecer um corpo esquelético.- Mas eu estava, Rafael, eu estava.- A sua voz esforça-se por sair límpida e infantil e o seu corpo balança, frágil, enquanto caminha na minha direção.
O objecto metálico no cabelo da boneca cintila também na minha direção, fino e imóvel.
Madalena caminha agora voraz para mim, e o brilho também se aproxima, cada vez mais intenso. A boneca luz, o brilho nos seus olhos azulados. O brilho contagia Madalena e o metal.
Descubro que a agulha para além de fina é fria, quando por fim se entranha na minha pele.
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