16ºCapítulo

Atualmente - 8 de janeiro

Quando acabo de ler a história, Diana dorme profundamente.

Sorrio, observando o seu rosto frágil mas menos defensivo, mais caloroso. E então, enquanto reparo em cada detalhe, reparo que a sua face brilha com algo que decerto serão lágrimas.

Por fim, afasto-me lentamente dela, tentando não acordá-la. Mas, para minha consternação, algo se move por debaixo dos lençóis e oiço algo semelhante a um bocejo abafado.

- Rafa...- Não me lembro da última vez que me trataram assim.

- Dorme.- Sussurro.- Já é tarde.

Ela ri-se, abanando a cabeça com um ar divertido, que em nada se assemelha às lágrimas que agora secam na sua face pálida, que já começa a ganhar um tom rosado natural.

- Eu vivo de noite, lembras-te? Ou ainda não te contaram?

Lembro-me: a sua doença que, pelas minhas pesquisas, tem cura. No entanto, as lesões que pode deixar são pesarosas nos casos mais extremos. E quanto aos traumas psicológicos, apesar de não registados em todas as minhas procuras, consigo eu próprio percecionar que poderão ser bastante graves.

- Sim. Eu sei: fotossensibilidade. Mas... tem cura, certo?

Ela encolhe os ombros, com um olhar angustiado.

- Cura não mas... se tomar todos os comprimidos que me receitam, diariamente... sim, pode-se dizer que fico curada durante vinte e quatro horas.- Ela hesita, olhando de relance para a janela fechada e cerrada pelas cortinas.- No entanto...

- No entanto não és capaz pois não?- Lanço-lhe um sorriso compreensivo.- Depois de tudo porque passaste.

Repentinamente, o seu olhar altera-se para uma expressão acusadora.

- E porque passei eu?- Inquere, com os olhos semicerrados na minha direção.

- Suponho eu. É o que o teu ombro diz.- Aponto para o seu ombro e ela revira os olhos, furiosa.

- Detesto suposições.- O seu olhar suaviza-se, alternando entre desconfiança e um sentimento abafado que ela própria necessita de desabafar.- No entanto, sim, essa queimadura foi a minha principal fonte de... medo. Medo de voltar a sair à rua. Durante muito tempo, se calhar até hoje.- O seu olhar tranquiliza-se por completo, absorto pelas memórias.- No início, foi esquisito. Depois daquilo acontecer, como eu era uma criança, não fui capaz de ver as coisas de uma forma clara e, sempre que olhava para esta ferida sentia como se... não fizesse parte do meu corpo. Como se fosse um ser estranho cheio de rugas e crateras.

- O que aconteceu... para ficares tão ferida?- Pergunto hesitante, preocupado que, desta fez, a sua mudança de humor seja negativa e permanente.

Mas, ao contrário do que penso, o meu medo não se concretiza e, por sua vez, Diana sorri, como que aliviada.

- Afinal a Eloisa não to contou.- Apesar de fofoqueira, Eloisa sabe respeitar segredos, fechando-se como um túmulo e voltando a lavar a loiça quando me excedo nas perguntas.

- E o que é que ela me podia ter contado?- Insisto.

- Nada que te interesse. A razão não é importante, o importante é o resultado que, como vês, não é muito bonito.- Desce a blusa até ficar abaixo do seu ombro: um pedaço de pele rugosa e queimada, oriundo do cimo do seu pescoço até a um fim bem delineado no seu ombro, contrasta com o resto de pele liso e suave.

- Para mim interessa-me o passado, antes de tudo acontecer.

- E a mim o futuro.

Sorrio com a teimosia de uma rapariga que, se soubesse que idade eu tenho ao certo, não se atreveria a contestar factos. E ela sorri com o rapaz que, decerto se conhecesse todos os seus segredos, não se atreveria a provocá-la deste modo.

- Só estou curiosa quanto a uma coisa.- Replica ela, ainda com um ténue sorriso no seu rosto rosado e nos seus olhos que, agora, demonstram um olhar travesso.- Na história que me leste... e que não me pareceu toda ela imaginada... tu ajudaste o Gabriel...- Lança-me um olhar contido.- Ajudaste-o?

- Sim.- Já sei o que vai questionar: a parte sobrenatural que, apesar de Diana se esforçar por entender, nunca lhe poderei explicar na sua totalidade.

- Mas ele... estava morto. Ele era, supostamente, um fantasma. E eu gostava de saber em que te inspiraste para fazer a história.- Inclina a cabeça e o cabelo loiro escorrega-lhe pelos ombros.- Sempre ouvi dizer que existe um cúmulo de verdade em todas as histórias.

- A história é, toda ela, verdadeira.- Replico sorrindo, e ela, como eu havia esperado, revira os olhos, cética, mas de um modo caloroso.

- Então estás-me a dizer que és um rapaz de dezanove anos sobredotado que guia os fantasmas para a paz?- Assinto e ela ri-se.- És apenas um mentiroso compulsivo, para que saibas.

De repente, algo explode dentro de mim de um modo abafado: uma portinhola que se abre no meu coração e que me demonstra sentimentos que nunca julguei possuir. Sinto um repentino arrependimento pelo que fiz há tanto tempo atrás; sinto aquele sentimento quente, intitulado de «amor», por aquela que recuso chamar de Morte; e, mais que tudo, sinto aquele desejo de contar, a alguém, quem eu sou. E, neste momento, esse alguém torna-se Diana e o sentimento torna-se impossível de abafar.

- Diana.- Pouso as mãos nos seus ombros, percebendo que sou bastante mais entroncado e alto que ela apesar de, fisicamente, possuirmos a mesma idade.- Eu vejo coisas que muitos de vocês não veem e todos os dias sou confrontado com o facto de ter de ajudar esses... fantasmas. E de ter de ajudar os que vivem em redor deles, como tu. Eu estou aqui para te ajudar.

- Ajudar-me?- Replica ela, de um modo atónito.

- Sim. É por isso que te faço todas estas perguntas: para te ajudar a superar os fantasmas que vivem a teu redor. Para te libertar.

- É ridículo.- A voz dela ecoa fria por todo o quarto – um sussurro frio e rouco.

- Mas verdade.- Contraponho e isso parece despontar aquele sentimento adormecido, mas bastante conhecido por mim, em Diana: raiva.

- Achas que será assim que vais descobrir coisas acerca do meu passado, acerca da família vizinha? Achas-te que eu era vulnerável a esse ponto? Deuses... eu sei que fui muito fraca no passado, mas por nada deste mundo iria acreditar numa coisa dessas.

Abro a boca para argumentar, mas ela suspira de um modo agressivo, perdendo as estribeiras:

- Ouve-me. Não confio em ti nem nas tuas intenções, e não tenho a mínima empatia por ti, por isso podes ser sincero comigo agora: não vieste aqui por acaso, pois não? Não perdeste pertences. Apenas queres saber sobre a família do lado. Ou talvez só me queiras importunar. De qualquer modo, faz-me uma pergunta, responder-te-ei e depois irás embora.

- Embora?!- Protesto.

- Como eu já disse: eu sei quais são as tuas intenções. Por isso, se cada um tiver o que quer agora, será o melhor.

- E o que é que tu queres?- Pergunto, tentando disfarçar a minha indignação.

- Quero que me deixes de importunar.

- Eu não te estou a importunar. Apenas sou curioso.

- Curioso?! Então aqui vai: A família da casa ao lado está morta depois de um incêndio misterioso e aquela menina que tu viste nada mais é que a filha da família. E sim, a filha também está morta. Contente? Já me achas uma louca?

- Não. Acho-te sincera, mas na verdade não disseste nada que fosse novidade para mim. Diz-me algo que eu não saiba. Sobre, talvez, a mãe ou...

- Já não viste o suficiente no álbum de família e nos artigos de jornal que me vieste roubar a meio do meu suave e facilmente perturbável sono?- Provoca ela e compreendo que ela sabe da minha escapatória.- Mas aqui está uma informação a que tu não tiveste acesso: Eu odeio-a! A mulher que dizia ser a minha mãe de coração nada mais era que uma desprezível e odiosa pessoa!- O seu tom vai crescendo, até se transformar em gritos.- Odeio-a! Odeio-a!

- Diana...- Tento aproximar-me dela, mas ela afasta-me com movimentos agressivos e tresloucados.

- Odeio-a! Odeio-a! Ela estragou tudo!- Grita, avançado até mim, enquanto eu me retraio, caminhando para trás até ao corredor, onde ela me fecha a porta sem o mínimo de hesitação, continuando ainda a gritar isolada, no interior do seu quarto.

Está sozinha, aterrorizada e furiosa, e eu não sei se ficará bem. Mas, aconteça o que acontecer, sei apenas uma coisa: Preciso de travá-los.

Lamento se não sou o que esperavam, mas não irei consolá-la. Em vez disso irei travá-los: isso trará paz e sossegará muito mais o seu coração descompassado. Porque, por vezes, a melhor coisa é seguir em frente, sem ser compreensivo.

Por vezes.

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