14ºCapítulo
Atualmente - 8 de janeiro
Alguns vão culpar a pera, outros irão culpar a maçã e outros ainda irão achar todo este debate uma discussão fútil. Eu, por minha vez, decido atiçar as culpas à maçã, a origem de tudo.
No entanto, apenas no dia seguinte a roubar a maçã é que fui julgado. Ao invés de roubar uma segunda maçã decidi roubar uma pera, já que esta, de um verde luzente, brilhava euforicamente na minha direção.
Escondido por entre as sombras de uma casa, – que, apesar de apenas ser um monte de pedras sobrepostas umas nas outras, seria de facto o edifício mais luxuoso daquele século XVIII – observava relutante a banca, não deixando de, por vezes, olhar aleatoriamente para o pai inchado e vermelho e para a filha, o oposto, algo magra, porém bronzeada.
E eis que o momento perfeito surgiu: a rapariguinha havia-se voltado de costas para a banca, inteiramente concentrada nas suas bonecas, e o pai estava agora envolto no dilema de venda para duas idosas hesitantes.
Corri velozmente, saindo das sombras dominantes e percorrendo as poucas pedras de calçada que nos separavam até chegar à banca e, com a extrema cobiça que sempre me acompanhara desde jovem, decidi pegar em três peras, em vez de seguir o plano inicial de apenas uma. Continuando a minha corrida furtiva, permiti-me sorrir ao constatar que não tinham enxergado o meu rosto, no entanto, ao longe, ouvia o homem a gritar:
- Hei!- E ri-me como o miúdo pequeno que era, imaginando a sua cara que, naquele momento, decerto seria um tomate gigante.
Mas, repentinamente, senti algo embater contra mim e uma dor lancinante na minha orelha esquerda. Escorregando nas pedras de calçada, húmidas da chuva, embati violentamente no chão, sendo que os músculos que compunham a metade direita da minha face pulsavam agora dolorosamente, ao ritmo do coração.
- Já te apanhei, meu ladrão atrevido!- Gritou o homem rechonchudo, louco de fúria, mas com uma alegria ocultada na voz rouca por eu ter sido travado por um embate numa carroça pobremente composta.
E, sem que tivesse tempo de me levantar, o homem rechonchudo postou-se em cima de mim, dando socos na minha face dorida e por fim pontapés nas minhas pernas que se esperneavam instintivamente.
Enquanto isso, ouvia as frases entrecortadas dos aldeões que se acercavam junto de nós dois: «eu conheço o rapaz...», «é aquele sem-abrigo sem humildade... nem esmola pede», «coitado do homem...», «... pois, ser roubado por este miúdo...».
Por fim, levantei-me atabalhoadamente, sem por um único momento desviar o meu olhar raivoso e animalesco do olhar do homem. Lançando-me na sua direção, comecei a pontapeá-lo, acompanhando o confronto com murros, numa disputa sem resistência da parte dele.
- Para!- Gritou uma mulher no meio da multidão, sendo por fim acompanhada num coro, o que só despoletou ainda mais a minha raiva: as pessoas apenas protestavam quando o ladrão vindo das sombras estava prestes a proclamar a sua vitória.
Com um vigoroso murro, o homem desequilibrou-se, embatendo com a cabeça numa pedra saliente da calçada. E, embora durante a luta ele não tivesse mostrado uma resistência forte, naquele momento eu soube que era diferente, porque ele não se movia.
A multidão silenciou-se e, enquanto o sangue do homem encarnado escorria pela calçada, toda a gente, inclusive eu, ponderou o que deveria fazer: chorar a sua morte ou seguir em frente, ignorando a culpa de ter presenciado o momento.
Eu escolhi fugir, como o excelente covarde que sempre fui.
* * *
A lembrança atinge-me no preciso momento em que relembro o rosto suave da Morte e os seus cabelos negros, atinge-me quando penso, esperançoso, que talvez seja a minha vez de ser guiado para a paz, como um golpe inesperado vindo do meu pior inimigo: eu próprio.
Depois de tudo o que fiz, do covarde que fui há três séculos e de todos os crimes que cometi, decerto não haverá paz para mim. Nunca serei perdoado. Por isso, decido substituir uma esperança incerta de liberdade pela esperança certa de que conseguirei ajudar Diana e a família de Madalena.
E sei exatamente por onde começar. * * *
Preciso de encontrar Diana: ela parece ser a única chave para desvendar todo este mistério. Ela sabe mais acerca deste mistério, mais do que qualquer outra alma e, por isso, apesar de Diana continuar cética, fria e inacessível, eu vou ajudá-la: por vezes a ajuda não vem como um pedido.
Por isso, após o jantar, abandono a mansão, entrado na floresta quando já é noite cerrada. Caminho por entre a vegetação e, ao longe, acabo por avistar a casa desfeita dos Mateus. Uma casa que, decerto, seria bela e vigorosa no tempo da sua glória.
Mas tudo tem um fim, repito para mim mesmo, lembrando-me das palavras da Morte.
Finalmente Diana avista-se, caminhando não pelo trilho de areia e sim pelo meio da vegetação. Escondo-me rapidamente, nunca desviando o meu olhar do seu vulto esguio, confirmando sempre que nos encontramos a uma distância respeitável.
Ela inspeciona cada milímetro da floresta minuciosamente, ganhando terreno de uma forma melindrada.
E é quando decido confrontá-la, sabendo previamente que a irei assustar, seja esse o meu intuito ou não, que oiço uma voz suave no meio da escuridão.
- Diana... Diana...- O nome parece sair fluentemente da boca daquela menina, onde quer que ela esteja: no breu, apenas consigo distinguir a sua voz suave e infantil e nada mais que isso.
Diana sobressalta-se, olhando para todos os lados, tremendo e vacilando.
- Diana, Diana, tanto tempo que passou.- A voz infantil, que cantarola estas palavras, parece aproximar-se cada vez mais.- Diana, Diana, não é verdade que és perfeita?- O tom vai-se elevando de um modo estranhamente mórbido.- Diana, Diana, mas a perfeição não existe.- A voz ecoa por todos os recantos, nas copas das árvores, por entre os ramos, preenchendo os espaços vazios deste assombroso lugar.- Diana, Diana, tu existes sequer? ... Quem me dera que não.- A crueldade daquela voz rouca de ódio atinge-me, como um exército de facas.
- Sai... vai-te embora, por favor.- Naquele momento, vejo o lampejo de uma menina de cachos dourado e de um olhar assustado. Bela e fraca, vulnerável mas doce. Tudo o que Diana finge não ser.
Diana olha em redor, com lágrimas nos olhos que eu sei aflorarem o seu rosto devido aos seus soluços desesperados.
- Vai-te embora.- De repente, Diana senta-se no chão, as pernas enroscadas junto ao corpo, os braços envolvidos num abraço protetor destinado a si própria.
- Diana.- A menina encontra-se junto de Diana, na sua primeira aparição.
Corro para Diana, parando a apenas alguns centímetros do seu corpo frágil e trémulo. Observo a rapariga à sua frente com atenção para descobrir que é a menina do meu sonho: Madalena Mateus.
- O que está a acontecer?!- A menina lança-me um olhar gélido, mas Diana, surpreendendo-se com a minha voz, ergue o seu rosto desprovido de cor, encontrando por fim o meu olhar.
Surpreendo-me ao constatar que a menina espectro vê: Madalena, inicialmente cega, já não o é. Relembro as palavras da Morte: Quando a alma se separa do corpo, todos os problemas físicos que a impedem de desfrutar do mundo desaparecem.
- Não precisamos de ti para brincar.- Diz aquele espectro terrorífico.
- Quem és tu?
Sinto o corpo de Diana acalmar-se ao ouvir novamente a minha voz. Sei o que pensa neste momento: Não estou sozinha.
- Queremos brincar. Sem ti.
Diana estremece, o seu rosto mais pálido que nunca.
- Não me parece que a Diana queira brincar.- Contraponho, baixando-me até ficar ao nível da cabeça de Diana.
Agarro-lhe na mão, elevando-a do chão.
- Ela não está a ser convidada para ter que querer.
- Então, eu também quero brincar.- O espectro semicerra os olhos, como um predador prestes a caçar a sua presa.- Não me vais explicar o jogo?
Reparo agora na rapariga que, com um vestido celeste e o seu cabelo negro encaracolado e rebelde preso com uma fita da mesma cor, agarra na boneca de porcelana com que eu já me deparara antes. As duas, de tão idênticas, provocam em mim uma sensação de duplicado, como se uma fosse apenas o prolongamento da outra.
- Mas tu não vais jogar.- Prossegue ela.
- Mas quero saber como é o jogo.
Ela parece ponderar as minhas palavras durante um momento, entrelaçando os dedos de uma das suas pequenas e pálidas mãos na mão da sua macabra boneca. Por fim, com um olhar vidrado, ergue a boneca até ao nível dos seus lábios, sussurrando algo impercetível ao ouvido desta. De seguida, dirige os lábios encarnados da boneca até ao seu ouvido, como que a ouvir atentamente palavras que esta lhe tem a dizer, por sua vez.
- Sendo assim, terei toda a honra em to explicar.- Responde finalmente, com as pontas dos seus lábios a erguerem-se, prestes a despoletar num sorriso assombroso.
Os dedos finos e ágeis do espectro correm o fecho traseiro do vestido da boneca, retirando do seu interior uma agulha comprida e afiada, dois botões pretos e uma linha comprida e preta de lã. Volta a correr o fecho do vestido e fica a olhar, num olhar vidrado, como que hipnotizada, para a linha que, com os seus movimentos vigorosos e delicados, parece serpentear em frente do seu olhar.
- Vamos brincar às costureiras?- Pergunto sarcasticamente, tentando disfarçar o meu nervosismo crescendo, e acabo por me arrepender da minha intervenção.
- «A Diana é perfeita», dizia ela: «A Diana é uma linda bonequinha de porcelana.»- A voz doce de Madalena começa a ganhar um tom mórbido.- Talvez devêssemos tornar a Diana numa boneca de verdade para ver se a mãe continua a amá-la.- Os seus dedos extremamente finos e compridos prendem agilmente a lã na agulha, preparando-se para coser algo.- Primeiro os lábios.- Prossegue a rapariga, que agora se assemelha à própria encarnação do ódio.- Depois os olhos. Depois os braços e as pernas e por fim os dedos. E talvez te cosa num belo vestido vermelho, a cor preferida da mãe.- A rapariga fixa o olhar em Diana, esquecendo-se da minha existência.- Vou-te coser sentada num baloiço para que fiques lá sem te mover, sem te poderes mover. Presa por fios de lã, incapaz de sair do lugar, sem poder cometer um único erro, tal como a mãe quereria que eu fosse.- Recordo a boneca, que Madalena agarra agora protetoramente, naquele dia de sol: sentada na relva, sorridente, observando a boneca de pano cozida numa posição rígida no baloiço, «incapaz de sair do lugar, sem poder cometer um único erro».- Serás tão perfeita como uma bonequinha de porcelana!- O seu olhar brilha com um entusiasmo mórbido.- Não será, Beatriz?- E até a boneca que ela segura ao colo parece luzir com essa ideia.- E, por cada vez que a agulha se cravar na tua pele, irei obrigar-te a recordar, em pequeníssimas porções, o sofrimento que outrora me assolou. Lentamente, irás partilhar as mesmas memórias que eu. A mesma dor que eu. Iremos ser... irmãs.- O mesmo sorriso macabro, perturbador, hipnótico.- E irmãs são iguais, não são? Então, se tu és perfeita, após este nosso pacto, após toda uma dor partilhada, quando formos irmãs, eu serei igualmente perfeita. Deixarei de ser apenas uma louca a dizer palavras sem sentido.
O espectro avança para Diana, mas eu irrompo o feitiço de paralisia que parece ter-me sido concebido nestes últimos instantes pelo estado hipnótico de Madalena, pondo o meu braço em frente de uma Diana paralisada, de modo protetor.
- Para quê o ódio? Tu precisas de paz. Na paz, não terás sofrimento algum, ultrapassarás tudo isto. Será... será muito melhor, não achas?!- Interrompo.- Sem crueldade, sem...- As palavras parecem ser levadas por um vento cada vez mais uivante, deixando-me sem algo para dizer.
Mas, apesar do meu esforço, o olhar da rapariga espectro continua vidrado e, só quando reparo no estremecer do corpo de Diana, me apercebo que Madalena acaba de perfurar, com a agulha, a ponta de um dedo fino e comprido de Diana, que segura com a sua pequena mão.
- Chega!- Grito, mas isso não parece quebrar o feitiço que apossa das duas.
Por fim, desisto das palavras persuasivas, agarrando na mão de Diana e guiando-a por entre a floresta, com passos rápidos e desesperados, desejando que o fantasma desta sôfrega menina desista, ainda que apenas por breves instantes, desta macabra perseguição.
Olho de relance para Diana, adentrando nos seus olhos azuis claros e podendo ver um pouco dos seus pensamentos: uma memória de Madalena foi partilhada com ela a partir da agulha cravada. E, pela lágrima que aflora os seus olhos, não é uma memória boa.
A lágrima escorre. A lágrima cai.
Mas nós não iremos cair com ela.
* * *
O tio e Eloisa não se alarmaram quando eu entrei pela porta principal da casa com um estrondo, arrastando Diana atrás de mim, enquanto esta continuava praticamente paralisada, por vezes abafando um soluço. Aliás, penso que ninguém sequer deu pela nossa entrada, de tão absortos que estavam nas suas vidas.
Por fim, eu e Diana subimos as escadas e entrámos no quarto Diana, onde nos encontramos até agora, deitados lado a lado, ainda sem proferir palavra alguma.
- Tu... vê-la...- Acabo por articular, tentando também dar som a essas palavras.- Como?
Diana encolhe os ombros, absorta nos seus pensamentos, paralisada pelo medo e aliviada pela minha companhia. Mas, mesmo não querendo quebrar este momento, um momento único em que Diana abdicou da frieza para se proteger a meu lado, sei que tenho de insistir. Por bem daquelas almas inquietas.
- Como?
- Não... perguntes...- Sibila ela, com lágrimas na voz e o corpo trémulo.
- Mas...- Desisto a meio da frase, sabendo que, agora, Diana apenas precisa de descanso. Mais tarde precisará de desabafar, com certeza, mas mais tarde. Não agora.
- Por favor...- Repentinamente, ela ergue a cabeça e os nossos olhos cruzam-se.- Não prometo tratar-te de forma diferente amanhã, nem contar-te o porquê de ver o que vejo, apenas... Faz algo que não me faça pensar... naquilo...- A voz fraca, o olhar vacilante.
Pondero por momentos o que poderei fazer para a sossegar, agora que as memórias de Madalena se dissiparam. Ainda consigo vislumbrar um olhar sôfrego e trémulo pelas experiências desvendadas pela agulha de Madalena mas... como poderei quebrar esse encanto e... devolver um pouco de felicidade a Diana?
- Uma história... do meu caderno?- Pergunto e ela assente.
- Pode ser...
Sorrio, um sorriso meigo.
- Talvez esta história até te faça pensar.- Digo, abrindo o caderno, folheando-o até chegar ao meu objetivo.- Espero que te faça pensar.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top