12ºCapítulo

Atualmente - 9 de janeiro

«Ela está a fazê-la sofrer» Disse-me o rapazinho de olhos verdes brilhantes.

Mas quem será «ela»?

Volto a analisar aquele artigo de jornal antigo, observando cuidadosamente os nomes, soletrando-os na minha mente: «As vítimas deste incêndio são o casal Emília, 49 anos, e Óscar Mateus, 50, que tinham dois filhos: Rodrigo, 13, e Madalena, 8. A última vítima foi uma idosa de 84 anos, Josefa, a avó materna dos dois jovens.»

«Ela»

Quais seriam os seus segredos, as suas razões?

Quais?                                                                                                 * * *

Reviro vezes sem conta aquele pedaço de papel impresso, sem encontrar qualquer pista. Mas na verdade que espero eu? Eles eram jornalistas e não amigos da família. Eles não me podem dar quaisquer informações para além de factos.

Algo escorrega pelo papel áspero do jornal, improvisando uma dança de rodopios e saltos no ar e, finalmente, pousando no chão frio do meu quarto. Vejo-me obrigado a acender um candelabro para conseguir ler as letras que, escritas numa caligrafia cuidada e considerada bonita, formam palavras e de seguidas frases, estranhas e pouco lúcidas.

1- Não falar com a Madalena;

2- Apenas sair de casa com a permissão da mamã;

3- Apenas vestir os vestidos que a mamã dá;

4- Apenas brincar com a mamã;

5- Nunca perguntar por «eles».

Questiono-me sobre o que significa aquela lista. Quem é a mamã e quem são «eles». E se algo nestas letras redondas e detalhadas tem que ver com «ela».

Ela... A menina de cabelos ruivos cujo o amigo, embora morto, ainda continuava a protegê-la, junto à lareira...

Porque me lembrei disto afinal?

Porque... a lareira... o fogo... a lenha chamuscada... a bengala chamuscada. De repente, vislumbro a bengala, os cabelos cinzas e aquele ar pacífico mas reservado, como que guardando um grande segredo. A velha que, de alguma forma, me leva a franzir o sobrolho.

«Ela está a fazê-la sofrer».

Só me resta saber porquê.

                                                                                         * * *

- Diana!- Chamo-a, enquanto inspiro os mais variados perfumes naquele jardim que, embora quando contemplado pela primeira vez pareça abandonado, está na verdade bastante cuidado, em alguns sítios. Por vezes, quando afasto um arbusto ou adenso na folhagem de uma árvore expansiva, consigo ver vestígios de rosas cuidadosamente embelezadas, de arbustos delicadamente esculpidos e de flores estrategicamente semeadas para criar um efeito incrível, cheio de sensações novas e de cores que parecem cintilar a cada pulsação.

Preciso de encontrar Diana, perguntar-lhe o que, de facto, está a acontecer. Só ela me pode ajudar.

Na verdade, sei que é pouco provável Diana se encontrar no jardim mas, não a tendo encontrando dentro a mansão, começo a pensar que talvez ela se tenha aventurado um pouco: o dia está nublado e, por vezes, eu reparo que ela olha de relance para as janelas com cortinas entreabertas, curiosa para constatar se será um dia com muita ou pouca luz. Eu sei que ela quer sair, aventurar-se a escapar daquela casa escura feita de quadros poeirentos e sofás antigos. E hoje é a oportunidade perfeita para ela fazê-lo, tal como é a oportunidade perfeita para eu a questionar.

Talvez hoje ela... se abra. Talvez hoje saía daqueles lábios sempre encerrados e desprovidos de cor alguma palavra que faça a diferença. Porque hoje acredito que seja um bom-dia.

E, por entre os meus pensamentos e por entre este paraíso secreto, oiço algo, como que um resmungo seco e rouco. Afasto a folhagem que se parece querer encerrar diante de mim, tendo a perfeita noção que mais alguém se encontra aqui.

- Quem está aí?- Pergunto, mas apenas as folhas do arbusto que acabei de afastar respondem, num leve estremecer embalado pela brisa, como que a resmungar com a minha intervenção.- Olá?- Insisto, mas, de novo, silêncio.- Eu ouvi-te...

Percorro o jardim, afastando a folhagem e olhando em redor, afastando a folhagem e olhando em redor, num ciclo viciante. Por fim, oiço uma respiração ruidosa, a pouca distância de mim e, sem sequer afastar a folhagem, estendo o braço por entre algumas heras em forma de cortinas rodopiantes, agarrando um braço frágil e algo seco como que com... rugas?

A Morte.

Afasto esse pensamento impulsivo e maravilhado, para sucumbir à realidade:

- Apanhei-te!- Como um mero rapaz a brincar à apanhada. Nunca irei crescer?

- Estamos a jogar um jogo?- Afasto a folhagem atabalhoadamente, deparando-me com uma velha: a idosa que estava na casa vizinha, a discutir com Emília por algo ainda incompreensível para mim.

O meu olhar surpreso fá-la gargalhar por alguns segundos, mas por fim retoma o ar sério, voltando ao seu trabalho: retirar os picos de uma rosa vermelha cor de sangue, de pétalas cuidadosamente compostas numa postura perfeita. A rosa, por sua vez, ainda se encontra viva e agarrada à sua trepadeira e apenas se manifesta ao leve sopro da brisa.

- Porque está a fazer isso?

A velha encolhe os ombros, presenteando-me com um olhar azul gélido e resmungão, enquanto eu reviro os olhos, apercebendo-me da pouca disposição que a mulher possui para me responder.

Por fim, olho a meu redor, apercebendo-me que o lugar se encontra amavelmente cuidado: os buxos estão esculpidos em pequenas formas arredondadas ou em labirinto, as árvores aparadas em alguns ramos, menos densas que há quatro dias atrás, e as flores estão cheias de vida. Como se a folhagem imensa e selvagem se tivesse reduzido a esculturas bonitas e leves que nos deixam avistar o sol por entre as suas folhas.

- Foi... você que fez tudo isto?

- Sim.- Responde ela, concentrada na rosa à sua frente, rodopiando-a pacientemente nas suas mãos.

- É uma boa distração.

- Por vezes. Mas não só. Às vezes também serve para chamar a atenção de alguém. Gosto de usar o meu trabalho para abrir mentes e fazê-las perceber algo.

- Um trabalho bonito.- Constato, incapaz de desviar o olhar de um buxo cuidadosamente esculpido em forma de cão.- Quer chamar a atenção de quem?

- Não é muito difícil perceber.- Suspira, apontando com um inclinar leve da cabeça para a janela que se impõe a uma altura estonteante, mesmo por cima desta pequena maravilha de jardim: a janela de Diana.

- Ela não pode abrir a janela. Não pode entrar em contacto com a luz.- Explícito.

A velha brinda-me com um ar de desprezo.

- Ela não quer. Existem curas para o problema dela. Ela apenas tem medo, e eu não a julgo por isso. Mas ela tem de a esquecer, esquecer o que aconteceu, e seguir em frente.- Olha através da folhagem, sorrindo.- O meu objetivo é abrir um caminho luminoso através deste jardim até à janela dela. Talvez o medo se desvaneça.

- O que aconteceu?- Pergunto, incapaz de esquecer aquele «ela» referido.

Mas mulher parece não se importar, continuando a retirar picos da rosa, duma maneira delicada mas eficaz. E, por entre aquele silêncio constrangedor, algo me prende a atenção: um rubi brilhante que cai velozmente no chão, manchando a relva; um salpico avermelhado que marca um tapete verde; uma gota de sangue escuro, mas brilhante de um modo incrédulo, que cai na relva verde-vivo.

E, inesperadamente, lembro-me daquela tradicional história da branca de neve: a rainha que, a tecer, havia-se picado na agulha e uma pequena gota vermelha intensa havia manchado a neve branca no parapeito da janela – mas porque é que a rainha, a nomear a sua bela filha, honrou a neve e não o sangue?

- Não sabia que os fantasmas sangravam.- Constato, como que a provocá-la, mas a provocação não surte o efeito esperado.

- Ainda sou uma pessoa.- As rugas no seu rosto acercam-se num efeito nostálgico.- Mas obrigada por reparares nisso, e no trabalho que tenho feito.- Num gesto suave, abrange todo o jardim.- Obrigada por reparares. Agora só gostaria de saber como reparas.

- Porque eu estou aqui para a ajudar.

- A encontrar a paz.- Ela procura o meu olhar, esperando como que uma confirmação; eu assinto. Mas ela, em recusa, abana a cabeça.- Não. Não me posso ir embora sem ela.- A velha retira um conjunto de envelopes, presos uns aos outros por um cordão praticamente desfeito, da roseira densa, original da rosa, agora sem espinhos e inofensiva e estende-mo.- Por isso, deixa-me ser eu a ajudar-te.

Olho para os envelopes, para a janela de Diana e para a folhagem que ensombra aquela fachada do edifício. A velha sorri-me e vejo outra gota de sangue a cair: uma gota leve e despreocupada. Constato que não é sangue e sim uma pétala da rosa vermelha que ela segura entre as suas mãos enrugadas. Uma ilusão tão apurada que, quem não tomasse o devido tempo a ver aquela pétala cair na relva húmida, juraria mesmo que se tratava de uma gota de sangue de um vermelho intenso.

Uma ilusão. Uma fascinante ilusão.

E eu começo a pensar se estas duas famílias vizinhas não serão também uma ilusão: um segredo obscuro, escondido por imensas pétalas vermelhas intensas.

- Uma bonita ilusão desfeita nesses envelopes. Mas acredita: por vezes preferimos a própria ilusão à realidade.- Alerta a velha, lendo-me os pensamentos de uma forma alarmante, antes de se misturar também ela com a própria vegetação densa.

Eu não a prefiro, Josefa, eu não.

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