Capítulo 1

     "E se você nunca pudesse dizer o que sente ou pensa, às pessoas ao seu redor?" 

  Ao ter um "defeito" aparente, você passa cada segundo da sua existência tentando não ser notada, mas isso pode se tornar mais difícil, quando as pessoas são obrigadas a te observar, para entender o que você está tentando dizer.

— Felicity Jones. — levanto a mão, para indicar minha presença na sala, espero alguns segundos até a professora nova, que deve ser muito distraída, perguntar. — Felicity? — levanto a mão novamente. — lentamente ela ergue a cabeça e me procura pela sala, em tom de reprovação, indaga. — Não tem boca para responder? — sei que ouço isso sempre de estranhos, mas nunca vou me acostumar, então automaticamente fico ofendida. Levanto do meu lugar, e vou até sua mesa, aponto para meu nome na chamada e para o escrito ao lado "aluna afônica". — Oh! Mil desculpas. — pede ficando vermelha, do meu jeito digo que não tem problema, mas logo percebo que ela não entende libras.

  Então apenas dou um sorriso fraco e balanço os ombros. Voltando a minha mesa, escuto uma voz irritante e que se eu pudesse, preferia nunca escutá-la, cada palavra que ela solta, são apenas para prejudicar emocionalmente todos a sua volta; ela comenta em tom alto e propositalmente na hora em que passo.

— Acho que algum gato deve ter comido língua dela. — em seguida, risinhos maldosos que finjo não perceber.

  Odeio não poder expressar o que sinto, no momento, eu gostaria de gritar de indignação, não é justo que falem comigo desse jeito e eu não possa dizer nada. Gesticulo palavras que não seriam muito agradáveis se eu pudesse realmente dizê-las em voz alta e me sento um pouco irritada.

  O ensino médio pode ser um pesadelo para algumas pessoas; ouvir comentários idiotas diariamente é maçante, e podem te trazer muitos problemas, quando você é o tipo de pessoa que não gosta de levar desaforo para casa. 

   Minha vida é, na maioria das vezes, muito entediante. Conheço poucas pessoas que sabem entender a linguagem de sinais, e sei que essas foram as poucas que se interessaram a aprender por minha causa. Minha melhor amiga Anne é um exemplo, que aos 10 anos, ou seja, quando nos conhecemos quis logo aprender como se comunicar comigo; na época ela dizia que seria um jeito secreto de conversarmos, e poderíamos falar o que quiséssemos que mais ninguém entenderia, e até é verdade, porém ser limitada a conversar só com as mesmas pessoas quotidianamente, é um pouco chato demais. Ainda mais quando sou obrigada a seguir dias após dia a mesma rotina, sabendo que não vou tão cedo conseguir mudá-la. Sei que tenho que fazer isso para o meu próprio bem, segundo meus pais, mas odeio não poder sair com mais frequência e ter um tempo só para mim, talvez eu até me sentisse um pouco mais normal assim.

— Mãe, a Feh chegou! — exclama Diana, minha irmã mais nova, correndo para os meus braços. Cumprimento-a e pergunto sobre seu dia, porém ela fica toda confusa, Diana é muito nova e ainda não sabe direito a linguagem de sinais, pois acabou de começar a aprender, então praticamente o tempo todo ela precisa que alguém explique o que estou tentando dizer. — Mamãe, o que a Feh disse? — pergunta tentando reproduzir meus gestos, repito para ela acompanhar.

— Ela perguntou como foi o seu dia, querida. — explica nossa mãe.

— E como eu respondo? — indaga curiosa. Então mamãe mostra os gestos contando sobre o dia dela, e desajeitadamente ela repete, dou um sorriso assentindo e subo para meu quarto, onde me sento para ler, fico tão perdida no mundo fantasioso da história, que nem percebo as horas passarem, vejo que perdi várias ligações de Anne. Retorno-a, e não demora muito para que a mesma atenda. Faço um sinal de "olá", e ela retribui. Com gestos peço que ela me explique o motivo de ter ligado tantas vezes, deve ser algo importante.

— Tenho uma ótima notícia, Feh! — exclama evidentemente animada, com gestos e expressões do rosto demonstro curiosidade, e peço que ela me conte logo o motivo de tanta animação.

— Lembra que a alguns meses eu tinha me inscrito para aquele conservatório de música fora do país... — ela faz uma pausa dramática, mas a conclusão já é esperada. — ... eu passei! — grita, me fazendo pular com ela, mas do meu lado da tela. Ficamos tão felizes com a notícia que não percebemos no mesmo dia o que isso significava... Anne ficaria fora do país até nossa formatura, o que significava que ficaríamos quase um ano separadas.

     Na semana seguinte a sua partida, fico um pouco triste porque estou separada da minha única amiga, mas fico feliz dela poder estar seguindo seu sonho. Percebo que estive alheia ao que acontece ao meu redor um bom tempo, tanto que não percebera o diferente movimento na sala. Atenta começo a tentar entender o que está acontecendo, a maioria olha em uma só direção... a dele, e quando nossos olhos se encontram meu coração erra a batida e coro na mesma hora. São os olhos mais lindos que eu já vi, eles têm um tom de verde bem escuro, que me parecem um tanto familiar, ele me observa por alguns segundos e depois se dispersam para outro canto.

— Turma, está constando aqui que este é nosso novo aluno, Miles.

  Algumas garotas imediatamente soltam suspiros altos, como se fizessem uma competição para ver qual conseguirá chegar primeiro ao ouvido do garoto. E eu, tento ao máximo entender a sensação que tive ao encontrar seu olhar por alguns segundos, para então ignorá-la.

  No intervalo decido ir à biblioteca, coisa que não faço a algum tempo. Passeio entre as diversas prateleiras procurando algo diferente para ler, distraída acabo trombando com alguém e derrubando vários livros junto comigo.

— Desculpe, desculpe, eu estava distraído, não te vi aí... — começa o garoto, cuja voz me parece familiar, mas quando olho para cima, vejo que não o conheço, porém, perderia as palavras se pudesse falar, era o garoto da sala... como era seu nome mesmo? Ele tira alguns livros que estão em cima de mim, e me ajuda a levantar. — Não deve ser a melhor hora para me apresentar, e suponho que não lhe causei uma boa primeira impressão, mas sou o Miles. — diz estendo sua mão até mim, continuo um pouco paralisada com os acontecimentos. — Ei, não vai responder nada? Meu pedido de desculpas foi muito simples, ou... — faço que não com a cabeça e em seguida, vários gestos explicando o que queria responder, porém, ele fica confuso. Pego sua mão e o levo até a recepção, peço um caderno para a bibliotecária que já entende a linguagem de sinais, junto ela me entrega uma caneta e levo o garoto, Miles, até a mesa mais perto. Aponto uma cadeira para ele sentar e escrevo.

"Olá Miles, sou Felicity (Feh) e tenho afonia, ou seja, sou muda... acredito que não conseguirei responder seu pedido de desculpas".

  Entrego o caderno para ele, que lê, e então passa a me observar com um olhar curioso, como se me achasse fascinante e decidira me estudar. Ele sorri, pegando a caneta, tento espiar o que ele escreve, mas o garoto não deixa. Miles então vira o caderno para eu poder ler, está escrito em letras soltas e aparentemente esforçadas para saírem bonitas.

"Olá, Felicity..... que situação, eu pensei que a ofendera de alguma maneira, quando te derrubei. Nunca imaginaria que estaria agora  me comunicando por bilhetes, reviravoltas do universo".

  Dou minha risada silenciosa, e pego o papel.

"Você nem imagina o quanto isso me acontece".

  O garoto assente e ficamos ali por um tempo conversando através da escrita, até me esqueço qual era o motivo de ter ido à biblioteca, saímos dali ao tocar o sinal e ele me acompanha até a sala, com um sorriso escrevo.

"Foi bom conversar com você!"

     Então com um aceno nos despedimos, seguro o caderno bem apertado contra meu peito e entro sorrindo na sala.

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