9 - Fingidor de Sentimentos

Nessa época dominada por WhatsApps e Facebooks, tornou-se um hábito – ou algo quase tão natural como ir ao banheiro – alguém parar no meio qualquer canto para ter aquele breve momento em que pode se sentir como um ou uma modelo; momento este que, de modo mais ligeiro, pode ser chamado de "pausa para a selfie". A pessoa saca o smartphone do bolso, tal qual um revolver de um coldre, aperta o gatilho e... BANG! Está tirada a foto... isso, é claro, se tal pessoa se contentar apenas com uma.

Apenas um ancião ainda paralisado no início do século XX já não teria se acostumado e se entregado a esses novos costumes.

Cacete! Alguém, por favor, me dê uma bengala, comece a pôr um "Seu" ou um "Senhor" na frente de meu nome, e me ponha em um (bom) asilo. Acabei de perceber que sou um idoso.

Desde o início do desenvolvimento de minha não tão agradável personalidade, nunca fui muito de posar para fotos. Não sou do tipo que se importa com curtidas e comentários, a não ser, é claro, que estejamos falando de algum de meus escritos. Não vou dizer que não sou ao menos um pouco vaidoso – toda mãe, eu suponho, gosta quando admiram e elogiam seu bebezinho. Também não sou o tipo que respira com absoluto prazer essa asfixiante poeira tecnológica, apesar de estar submisso a ela e até gostar um tanto de seu aroma de perfume barato. De quaisquer modos, muitas vezes é impossível escapar da banalidade.

Alguns meses atrás, numa época em que eu andava especialmente para baixo, estava para acontecer um evento. Seria uma série de shows. Um grande amigo meu e a namorada pareciam animados com isso e me chamaram para ir junto. Aceitei o convite. Ora, o que custa tentar esquecer? Quem sabe não me curo? Eu poderia aceitar todo tipo de proposta. Chegando no evento, na entrada, encontramos mais gente, uma turma – que não era minha turma – e uma garota teve a ideia de juntar todo mundo e "guardar o momento". Todos se apertaram como filhotinhos diante das tetas cheias de leite de uma cadela. Tentei ficar o mais afastado que pude.

Humor quebrado. Mente e coração meio tontos. Sem bebida. Gente estranha...

Todos sorriram para a câmera, menos eu.

Não fiz por mal, espero que vocês entendam, e que eles, as pessoas da turma que eu nunca mais vi na vida, depois de terem olhado as fotos, também tenham entendido, ou melhor, aceitado. Coisas da subjetividade humana não podem ser entendidas de maneira tão fácil.

Eu simplesmente não vejo motivo para sorrir se não for por algo. E quando digo algo, não quero dizer qualquer coisa.

Na realidade, sou daqueles que não consegue ou se nega muito a realizar um ato que não soe verdadeiro. Pode ser uma afirmação hiperbólica esta que vou expor agora, mas, não há tipo de imagem mais feia que a de alguém exibindo um sorriso falso. Um sorriso simulado pode parecer engraçado, mas nunca belo. Na verdade, é embaraçoso. Se você não for um ator ou atriz muito bom ou muito boa, evite montar este tipo de teatro.

Também não vejo motivo para tirar fotos minhas a todo momento. Não sou nenhum Cauã Reymond para querer ver meu rosto tantas vezes – tampouco para querer que os outros o vejam. Além disso, consigo guardar os momentos, ou pelo menos a parte importante deles, as emoções tiradas, dentro de mim mesmo.

Não obstante, como eu já disse, há vezes em que podemos nos sentir forçados a "jogar o jogo", mesmo que jogá-lo seja como fazer um harakiri.

É certo que, quando eu era criança, provavelmente conseguiam tirar fotos minhas sorrindo, com muita facilidade. Revendo as fotos, eram todos sorrisos espontâneos, com nenhuma dose de falsidade. Perdeu força essa habilidade. Praticamente não a treino. É uma pena.

Algumas horas, de verdade, eu sinto muito minha própria falta.




Texto originalmente escrito em 24/07/2017.

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