8 - No fundo, Todo Mundo é Egoísta
Era umas sete da noite. Na integração de ônibus as pessoas iam e vinham, desciam apressadas dos transportes, corriam até se encaixarem em um aglomerado de gente ou numa fila grosseiramente torta. Chovia, não muito, mas o bastante para instigar ainda mais a correria. Grande parte dos que chegavam eram trabalhadores e estudantes – alguns não queriam molhar seus preciosos materiais universitários, outros queriam evitar de molhar a roupa ou danificar as madeixas recém trabalhadas no salão de beleza. Eu estava dentre o grupo dos estudantes, com textos novinhos tirados da xerox, ainda quentes, na mão, correndo para um local seguro.
Protegido dos mortais pingos, me encaminhei para a multidão de gente emburrada e impaciente com a demora do ônibus.
Perto de onde o veículo pararia, à frente de muitos, sentei-me, ciente de que todos os olhares às minhas costas eram feios. Esperei lendo. Terminei a leitura, continuei esperando. Esperei. Esperei mais um tanto... esperei ainda mais um tanto... e então o transporte veio.
Me levantei depressa. Saí de onde estava e movimentei-me para trás dos outros. Já conjecturava o que aconteceria comigo, se na frente de todos eu permanecesse.
O transporte "público" apareceu. Estacionou. Abriu suas portas: pessoas aborrecidas e cansadas automaticamente, como se alguém apertasse um botão escrito "fúria" em suas nucas, transformaram-se em guerreiros vikings raivosos que se digladiavam sem qualquer mínima amostra de piedade.
E tudo isso por conta da busca por um assento vazio.
Para quem não possui carro próprio, ou não tem dinheiro suficiente para bancar passagem de Uber ou taxi todos os dias, e depende deste veículo fornecido e tão "bem cuidado" pelo estado, tal situação por mim descrita não deve ser estranha. Isso é comum, e é exatamente por ser comum que a situação em si não foi o que me convidou a esta sessão de escrita. O que me enviou o bilhete foi a pequena amostra do substrato de uma das facetas da espécie humana que ali me foi ofertada: o egoísmo.
Nós nos dispomos a muitas coisas com o objetivo de atingir nossos fins, nos impomos certos limites para que o mundo não vire uma vermelha piscina e, no entanto, tudo isso desce pelo ralo quando nos encontramos numa "situação limite". Ou, pelo menos, em tais situações passa-se a existir um grande potencial para conflitos. Pessoas que estão retornando às suas casas, após ouvirem reclamações idiotas de superiores imbecis, ou após serem, por mais um dia, esmagadas pela pressão exercida pela universidade, desejam instalar confortavelmente suas bundas nas cadeiras do coletivo e se largarem do mundo – quem sabe até curtir um pequeno cochilo no balanço do ônibus. E para obter este pequeno prazer, elas não descartam um pequeno uso de violência. Empurrões, bolçadas, mãozadas, joelhadas, cotoveladas, etc. Eu me lembro que quase perdi meus óculos numa dessas aventuras. Ah, sim, tenho que dizer: uma vez achei que ia perder um braço! Até pessoas que eu consideraria pacatas já entraram na onda dessa festa.
E, para falar de singelos atos de egoísmo, eu ainda poderia citar outros exemplos: as pessoas que insistem em jogar lixo na rua, mesmo com baldes de lixo em quase todos os lugares; as pessoas que entram com uma caixinha de som em certos ambientes, escutando suas músicas horríveis, sem se questionar se as pessoas ali se incomodam ou não com o som que elas estão ouvindo; o musculoso da academia que não coloca o peso de volta no lugar, mesmo tendo uma placa na sua frente avisando que alguém pode vir a se machucar por causa daquilo; o pastor de uma igreja que grita seus sermões em um megafone, pelas nove da noite, sem se importar que a mulher da casa ao lado tem um bebê recém-nascido. Enfim, tais casos não contêm "situações limites", nem exibem violência física direta, mas a violência está presente neles sim, no desrespeito ao planeta e às vidas alheias. É uma violência ética.
Pode parecer exagero o que sai agora de minha mente através dos meus dedos, mas, pelo que observo todos os dias, nós praticamos atos egoístas nos mínimos detalhes, e por isso mesmo não os percebemos. Fazemos a maior parte do que fazemos sem parar para pensar em como isso afeta tudo. E o que nós fazemos afeta até a história da humanidade, de algum modo. Pensamos em história como algo que indica passado, pouco pensamos sobre ela como algo que está sendo construído no presente – não notamos que cada um de nós a constrói com suas ações, a cada dia, e que cada ação afeta outros, afeta o mundo. Alguns estão tão centrados em seus mundos, embora julguem estar situados naquilo que possa ser a realidade, que esquecem que são parte de um todo. Na verdade, alguns nem sequer chegaram a pensar sobre isto, sequer como uma possibilidade.
Como o Zen budismo¹, Keiji Nishitani² e Jean Paul-Sartre³, emconjunção com a própria vida vêm me ensinando, nós não somos responsáveis apenas por nós mesmos.
Texto originalmente escrito em 22/04/2018.
Para conferir:
1 – EUGEN HERRIGEL, O Caminho Zen.
2 – KEIJI NISHITANI, On Buddhism.
3 – JEAN PAUL-SARTRE, O Existencialismo é um Humanismo.
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