27 - Imitação


A criação de caráter ficcional, seja na literatura, no cinema, no teatro ou em qualquer outro âmbito que possibilite seu vir a ser, é um trabalho de cunho imitativo a princípio. A ficção imita a vida, reproduz o mundo concreto, dos fatos. Isso, é claro, à sua maneira. Com o apoio da imaginação, o autor faz emergir algo novo por cima daquilo de que inicialmente se apropria, mas, por detrás das camadas imaginárias das obras, podemos ver, em principal dentre as relações entre personagens, o pastiche, ainda que fantasiado, do que ele percebe da vida real. Devido a isso, em qualquer campo que um conteúdo fictício se apresente, tenho a impressão de que ele não é confiável – não para buscar uma interpretação muito fiel que caiba às questões de nossa externa realidade.

Minha opinião é, por agora, bastante similar a opinião de Sócrates em relação aos artistas que imitavam de maneira triplamente equivoca o mundo das ideias. Só que, aqui, o mundo é nosso mundo mesmo.

O território fictício, seja o mais próximo do que chamamos de real, seja o mais fantasioso possível, é formado por um conjunto de ideias que tem sua origem naquilo que o autor percebe, em seu cotidiano, nas suas impressões. Mas a ficção tem sua própria lógica – seu próprio sentido, seu próprio tempo e sucessão de acometimentos. Mesmo que encontremos uma obra muito surpreendente, cheia de reviravoltas, ainda assim há um número muito limitado de possibilidades de eventos, dentro do que nos fora apresentado no decorrer da história, e podemos acertar, sem ficarmos sobre muita tensão, sobre o que vai acontecer na próxima cena ou episódio, com um pouco de sorte ou de cálculo. Se algo que foge completamente a essas possibilidades nos é apresentado, nós, o público, detestamos; queremos sempre a conexão causal entre os fatos, a sensatez da trama, e estamos corretos em exigir isso – corretos porque, nesse caso, podemos. Podemos, pois o mundo fictício, pelo que se pode ver em geral, tem um sentido mais claro. Por outro lado, o mundo concreto funciona de modo bem diferente. Por vezes, parece absurdo. Esse fluxo da vida, do convívio com nós mesmos, os outros e o mundo, é feito de potencialidades muito mais numerosas e esmagadoras, e por isso mesmo é imprevisível e indefinível – ao menos quando se trata de uma definição duradoura. Em respeito a afastar essa imprevisibilidade angustiante e assustadora da vida, a ficção serve como um refúgio, um conforto. Tanto para quem lê quanto para quem a projeta. Em respeito a obter entendimento desse mundo, do que nele é objetivo (fora de nós), acho que a ficção serve muito bem apenas como metáfora ou analogia.

Compare um fato do mundo concreto com uma passagem de uma história em um mundo "de mentira", e vai ver que há semelhanças – obviamente, já que este copia, de início, aquele. Mas o mundo nosso, da nossa realidade, é "um tanto" louco.

Peguemos algo pop para servir como exemplo. Que tal Harry Potter? Deixe-me ver o que temos: um garoto vivendo a maior parte de seu tempo num castelo que na verdade é uma escola para bruxos. Interessante. Peguemos qualquer um dos filmes ou dos livros; captamos um certo período de tempo passando através das cenas ou capítulos, não obstante a vida do bruxinho em cada detalhe não seja mostrada. Não vemos Harry Potter fazer todas as coisas que um sujeito na puberdade ou na adolescência seria capaz de realmente fazer. E tudo se resolve relativamente bem no final; podemos até esperar por isso. Contudo, deixando de lado o fato óbvio de que aqui não há o tipo de magia apresentada nessas obras, é mais do que fácil perceber que o nosso tempo não passa através de uma quantia tão limitada de cenas ou capítulos como na ficção, e sempre existe a possibilidade de tudo dar fatalmente errado, ou de tudo dar de cara com um "mais ou menos", mesmo antes do aguardado fim, do cumprimento dos objetivos ou dos sonhos. E por mais que se possa esperar diversos acontecimentos para o futuro, ainda haverá, sempre, inúmeras possibilidades que nos escapam. Sua estadia em nosso planeta pode acabar na próxima ida a cozinha, para abocanhar um lanche. Ou enquanto você está na sua casa, vendo algum filme, quem lhe garante que um avião não poderia cair, dentro de alguns segundos, em cima de sua cabeça? Quem nos garante que toda a luz que ilumina a vida não se apagará dentro de alguns instantes?

Com tudo isto, creio que a ficção serve de forma melhor para buscar entender, o quanto for possível, outro tipo de mundo: o mundo interno, o mundo subjetivo de quem cria, o mundo do autor. Este que também não deixa de ter seu grau de imprevisibilidade e ininteligibilidade. Isto cabe mais àquelas obras fictícias que eu poderia chamar de arte – embora me falte muito para apreender o conceito de arte –, ou de autenticas, ou, correndo o risco de soar meio besta, de profundas. Falo daquelas obras nas quais você pode sentir a alma daqueles que as criam.

Desde que comecei a escrever de forma regular, e a perceber como a escrita podia ser uma terapia, muito além de um passatempo, vi que é possível colocar num pedaço de papel, ou num arquivo, um retrato de sua essência na obra que se realiza. Uma cópia de si mesmo, digamos assim, mas que por ser de si mesmo, pode parecer, para quem fizer a análise, muito fiel a essência que imita. Olhar uma obra de ficção e tentar interpretar, através dela, aquilo que faz parte do mundo subjetivo do autor, é mais sensato do que olhar essa mesma obra e tentar interpretar, por meio dela, o mundo concreto, objetivo, repleto de vários mundos subjetivos interagindo, e por este e outros motivos, muito mais confuso. Mundos subjetivos são, por si, complexos – a interação real desses mundos subjetivos, no que chamamos de sociedade, deve ser mais complexa ainda.

O autor se espalha pelo mundo para o qual ele dá a vida. Podemos, se prestarmos atenção ao que lemos, ver algo de muito pessoal nos traços desse mundo, nos modos como lugares são descritos, e sobretudo, nas personagens.

As personagens são pessoas de um universo criado – e o "criado" não indica algo iniciado totalmente do zero, que não seria cópia, pois é impossível que criemos algo do nada. Algumas delas são personificações de traços da personalidade de quem escreve. É claro que não é necessário que todos os seres da ficção sejam assim. O autor pode criar um indivíduo tomando como base traços de pessoas que conhece no nosso mundo. Mas o que o autor tem dessas pessoas, dentro de si, são apenas imagens representativas das mesmas. Não é possível, ao meu ver, que eu, como um alguém de subjetividade distinta, conheça o outro e sua subjetividade de modo pleno. Tenho uma ideia do outro em mim, que capturei das interações que tive com este outro, ou daquelas que eu apenas observo, e, portanto, também uma cópia de algo que percebo na vida concreta. Posso ser muito íntimo de alguém e não o conhecer em seu todo. Como eu disse, a ficção oferece uma oportunidade de conhecer o autor da obra apenas dentro do possível; deve haver um limite. Se um autor monta uma personagem partindo de aspectos seus ou partindo de aspectos de outros, essa personagem diz muito mais sobre ele, sobre sua maneira de ver, do que sobre os outros no mundo. O jeito como as personagens interagem, as situações criadas, a política e a sociedade de um mundo fictício, as construções de formato fictício, as criaturas peculiares, principalmente as que estão fora de qualquer mitologia... tudo isso e mais algumas coisas que posso ter esquecido de acrescentar, falam sobre o autor, eu suponho.

Tudo que o autor copia já vem embebido de sua subjetividade, dos estados de consciência, dos seus modos de perceber o mundo. A ficção é uma criação subjetiva, uma expressão do mundo interno e próprio de alguém – considerando os autores dos quais se supõe um alto conhecimento de si mesmo –, portanto, é plausível que retrate melhor o sujeito que cria e imagina, do que o mundo concreto, habitado e modelado por várias subjetividades.

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