21 - Responsabilidade Pelo Outro
Este ano consegui alcançar um dos meus objetivos na vida. Depois de quase dois anos praticamente trancado em casa, tentando recuperar o tempo perdido através dos livros, após uma longa surdez diante das melodias e dissonâncias da existência, eu consegui entrar numa universidade. Isso pode parecer nada para alguns, eu suponho, mas, notem: falo de um – apenas um – objetivo, não de um sonho.
Aliás, sonhos são sempre grandes demais – faz um bom tempo que deixei de tê-los.
Contudo, a realização desse objetivo não me deixou tão feliz quanto eu imaginava. Eu odiei o primeiro dia de faculdade, pensei em desistir em certa parte do primeiro semestre... mas, mesmo que o pressuposto de que o tempo cura tudo me atinja como uma feiosa falácia, desta vez parece que ele curou. As coisas melhoraram. Agora, se o amor não fosse apenas uma pesada dúvida, poderia dizer que amo a faculdade que faço.
Curso filosofia, a saber. E para se saber mais além, faço licenciatura. O que significa ter que encarar disciplinas de querer vomitar o estômago, como "História da Administração", vulgo Gestão Escolar/Educacional. E o que significa também, e nada menos importante, que vou ser professor.
Repetindo: vou ser professor. E isso, depois de certa ocasião, começou a me deixar bem preocupado.
Em uma das disciplinas de nosso curso, no semestre passado, cada aluno teve que preparar uma aula. Seria como uma simulação. Como jogar um desses simuladores de esporte que todo videogame tem, só que sem videogame, e, por conseguinte, sem diversão – somente com tensão e nervosismo.
Fui péssimo.
Tudo estava bem até chegar a minha vez de dar "aula".
Alguém me chamou, não lembro quem. Meu coração, até então tranquilo, começou a trabalhar mais rápido. Era o solo derretendo e o céu, que parecia ser pedra, desabando. Só depois do vexame que dei, comecei a pensar numa questão que para mim já deveria ter plena relevância. Como se o eu dentro de mim se separasse e se tornasse dois, voltei-me a mim mesmo e me disse: olha só o peso que é educar, seu incompetente!
E eu senti e sinto muito o peso de minha incompetência...
Partilho de uma opinião sartriana que diz que o homem não é responsável apenas por si. O ser-humano enquanto indivíduo é responsável por todos os outros. O que alguém faz, esse alguém faz pensando em um bem. Não importa se outro alguém possa julgar o ato daquele como ruim, ou mesmo como antiético – na mente de quem faz, sua escolha e seu agir é sempre para algo bom, mesmo se for bom só para quem age. Sua escolha, todavia, vai servir de exemplo para toda a humanidade.
Isso me fez indagar se não poderia ser um dever, de cada um de nós, o esforço para sermos a melhor versão de nós mesmos. Essa "melhor versão" seria um projeto, uma meta que nunca seria atingida, ou que, se atingida, fosse renovada e melhorada – serviria como motivação contínua para nossa evolução e, quem sabe, a evolução do outro. Porém, quem nos atribuiria este dever? Isso é obscuro. A resposta mais correta, aqui, seria: nós mesmos. É que – eu já devo ter dito isso em alguns outros textos – Sartre postula a tese da condenação a liberdade. Mas, se o ser-humano é livre, sempre livre como Sartre afirma, enquanto for vivo para escolher, essa autoimposição do dever seria somente feita por alguns, os que tivessem a coragem de aguentar o fardo, e nenhum indivíduo poderia ser obrigado a ser a melhor versão de si, por uma ordem de outro ser qualquer – esta situação seria absurda.
Me parece, ainda, que essa influência intersubjetiva – como eu gosto de chamar – se dê de forma desproposital ou indireta, ao menos no maior pedaço dos casos. Um sujeito pode fazer uma pequena fortuna roubando velhinhos na saída de bancos, sem se dar conta de como essa escolha pode influenciar os jovens de sua vizinhança. No caso da escolha e do ato de lecionar, ainda que a situação possa se dar como no exemplo que acaba de ser dado, tal influência pode se desenrolar de forma proposital e bem direta. Afinal, um professor que preste quer que o aluno aprenda.
Suponhamos que eu já seja um professor, que estou dizendo coisas que esses alunos vão (ou não) aprender, e que, quem sabe, isto modifique suas vidas... como não vou me desesperar com isso? Ao menos um pouco. Foi algo assim que comecei a pensar depois daquele fracasso. O professor está em contato intersubjetivo direto com seus alunos, ou tem em sua profissão a possibilidade disto. E essas crianças têm sua própria estória e interesses, e também irão fazer escolhas. Tais escolhas podem ser fundamentadas, ou tomarem impulso, nas escolhas expressas pela ação do professor em sala. No que ele diz, como ele se porta, no seu jeito de ensino, na preferência que dá a certos alunos, na sua autoridade ou não autoridade, no seu companheirismo ou não companheirismo, e a lista deve ser bem maior, mas este texto não precisa ficar gigante.
Talvez eu esteja excedendo o que quis dizer Sartre, ou reduzindo sua tese a algo muito específico – embora nem um pouco pequeno –, talvez até esteja me equivocando, mas agora, neste texto, o pensamento tem mais de mim do que dele.
Eu fracassei miseravelmente. Foi então que eu percebi que devia me dedicar mais. Me dedicar não só para aprender sobre a realidade dentro de mim, mas também sobre a realidade do outro. E eu não sei por onde começar, mas o querer já é um grande princípio – talvez o maior de todos –, e eu vou dar o meu jeito. Não sei se vou conseguir. O futuro é só uma expectativa, um envelhecimento, a morte lenta, um assombro, mas vou dar meu jeito. Ao menos vou tentar – embora possa ter de abandonar um pouco desse meu jeito.
E me abandonar é muito difícil.
Esse texto foi originalmente escrito em 15/09/2018.
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