18 - Uma Reflexão Sobre a Diferença

Em certo momento, na minha mente ainda inexperiente de um jovem não tão juvenil, penetrou a ideia de que o desejo, o querer, é a fonte de todos os males da humanidade. Essa ideia vem do pensamento da antiga gente do oriente, o qual venho estudando faz um tempo, e eu creio que seja um pensamento correto. Existem fortes evidências de que nessa tese não há erro, para vê-las é só prestar atenção no porquê de nos movermos, e no porquê de sofrermos.

Nós somos humanos e provavelmente desde que nascemos, queremos. Inicialmente o querer é instintivo. Queremos continuar existindo, e para isso nosso organismo procura as tetas da mãe; ele quer alimento. O querer ganha contornos racionais quando crescemos. Ainda somos impulsionados pelo que queremos, e a isso damos o nome desejo, algo que conserva o elemento instintivo, mas existe agora a escolha, uma dádiva (ou maldição) dos seres que possuem alguma inteligência mais desenvolvida – você pode ter o desejo de devorar aquele bolo de chocolate, mesmo estando de regime, por gula ou porque seu organismo necessita de gordura, ou pode escolher não fazer isso e por sua própria vontade, comer um prato de frango grelhado e arroz, ambos sem sal, porque você é racional o bastante para saber que precisa cuidar da pressão. Seguir seus desejos, esse querer selvagem, pode te fazer deixar a ética de lado por um objetivo, a vontade pode ser mais sensata, e, no entanto, pode resultar em coisa errada igualmente; enfim, em todas as formas o querer pode causar problemas.

Contudo, outro pensamento vem se formando no laboratório de ideias em minha cabeça. Um pensamento não tão original – alguém disse que a filosofia inteira é nota de rodapé de Platão, né mesmo? –, um que também se espelha no pensamento oriental, um que diz que o desejo, como fonte das mazelas humanas, pode ter uma companheira, talvez uma dama ainda mais poderosa e inexpugnável que ele: a diferença.

Que somos diferentes isso é incontestável. Se quer evidências, é só olhar para os outros ao redor de você. Ou mesmo dentro de você, se tiver a coragem. E essa diferença é profunda – não a reduza somente a distinções de etnia, pele, sexo, gênero, língua. A maior de todas as espécies de diferenças está dentro de cada ser vivente. Er... é possível que falar de "todo ser vivente" seja um passo muito maior que minha cansada perna, então vamos ficar só nos humanos.

É por culpa das diferenças – junto ao desejo, pela maior parte do tempo – que nós discordamos, e por discordamos nós brigamos, por brigarmos, nos separamos, nos unimos a outros que pensam de forma parecida conosco, brigamos com quem pensa de forma divergente da nossa, guerreamos, matamos. E até entre os que se parecem, a diferença mostra sua logomarca. Ela está em tudo. Um indivíduo nunca é totalmente igual a outro, uma substância nunca tem uma irmã gêmea, e nem os gêmeos idênticos são plenamente idênticos. A nunca vai ser igual a B, D nunca vai ser tão elegante quanto um J. Nenhuma coisa é realmente idêntica à outra, ao menos não enquanto existimos.

Sim, enquanto existimos. Pois a morte, a extinção da existência até onde sabemos, nos diz sem frescuras como iguais nós somos. Mas não é necessário morrer para entender isso. Olhe, caro leitor, eu aposto que sou capaz de sentir os mesmos sentimentos que você, sem dúvidas posso ter as mesmas emoções, ainda que em níveis e momentos distintos. Um psicopata talvez complique o caso e trinque meu argumento, mas, por outro lado, até um ser que não sabe o que é empatia não é capaz de sentir desejos, necessidades, por mais mórbidas que sejam? A uniformidade quanto a sermos diferentes e quanto a querermos, não nos iguala a todos de uma mais geral forma? No entanto, nos detalhes sempre seremos diferentes, e como diz o bordão: um detalhe faz toda a diferença, ou melhor ainda, um detalhe causa eras de conflitos, guerras, morte e destruição.

Não seríamos, quem sabe, determinados a esta diferença? Conhecer ou não quem nos determinou... isso, no caso, é que não faz diferença. Temos liberdade de escolha, podemos decidir o que faremos da nossa vida, podemos escolher renegar a esta natureza discordante, mas podemos, de fato, não sermos nós mesmos? O nível de autoconhecimento também não importa. Você tem detalhes subjetivos que o tornam quem você é, e que te fazem diferir dos outros, por mais que você não tenha consciência deles ou os negue.

Qual é o peso de uma escolha feita na mente, se ela não pode se confirmar no mundo?

Ainda que eu escolha ser você, companheiro leitor, supondo que eu te conheça, eu jamais poderia sê-lo. Existem coisas dentro de você as quais ninguém nunca poderá saber ou imitar. É o que te faz ser você, sua essência, sua individualidade. É a mesma coisa em todas as pessoas – a mesma, em questão de nos tornar diferentes. A pessoa que dorme ao seu lado, que diz que te ama – espero que você tenha uma –, até ela nunca irá te conhecer completamente. Não seria demais dizer que talvez nem você vá ter plena ciência de si um dia, antes que a última chama ululante de seu ser termine.

Essa individualidade – isso que o Budismo vai dizer que é ilusão, e com razão, me parece –, é esse elemento que nos torna incapazes de penetrar por completo uns nos outros, o que, por conseguinte, nos faz nos desentendermos continuamente. Mas não pense que eu estou aqui para crucificá-la. Eu gosto dela. Gosto de minha individualidade, por mais que seja problemática. Gosto das individualidades de outros, por mais que elas entrem em batalha com a minha. Sem as diferentes individualidades não teríamos nenhuma riqueza em termos de arte, de expressão. Não vou dar uma de "divino utopista" e propor uma ideia maluca e inviável para trazer a paz ao mundo. O mundo é caótico, é bom e mal ao mesmo tempo. A paz não existe.

Amemos o mundo como ele é, por inteiro. É uma tarefa difícil, eu mesmo não acho que consigo, mas ao menos tentemos.




Texto originalmente escrito em 31/07/2018.

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