17 - Ir de Carro ou Ir a Pé

Desde pequeno minha cabeça nunca foi de ficar muito tempo parada sobre essa terra que chamam de realidade. Desde pequeno tinha imaginação, apesar de apenas ter começado a descobrir como lidar e trabalhar com ela de uns anos para cá. Tinha meus bonecos e sempre inventava histórias com eles, sagas, a maioria inspirada por Dragon Ball, Shurato, Power Rangers e Cavaleiros do Zodíaco. Quando os deixei de lado, naquela fase em que a atração pelo outro sexo (ou pelo mesmo) começa a florescer e passa a interessar mais que brinquedos, ainda assim ficava imaginando coisas em lugares inapropriados. Entende como é imaginar uma sociedade onde um grupo de jovens vestidos com jaquetas de couro combatem uma seita religiosa maligna, enquanto seu professor ensina algo chato sobre geometria plana na sala de aula? Acho que isso passa uma boa ideia de como minha mente funcionava e um pouco de como ainda funciona.

Eu continuo me perdendo do mundo real, mesmo após os 20 – ainda que me perca sem sair do chão e tenha aprendido a fazer isso de propósito. Mas na parte comum das vezes, nas melhores, não há hora certa para isto acontecer, não há data marcada no meu calendário para uma ideia, uma imagem, saltar na minha cabeça; ela só quebra o cadeado da grade e entra.

E mesmo assim, querem que eu compre um carro!

Eu creio que a aquisição de um carro ou de uma moto seja um dos sonhos correntes entre os homens e algumas mulheres da minha faixa de idade. Quando eu era menor e ainda gostava demais dos filmes tipo Velozes e Furiosos e vivia jogando games tipo Need For Speed, uma das coisas que eu mais queria era ter um carro. Carro! Não moto, já que eu tenho um pequeno trauma de veículos de duas rodas – fui atropelado por um na infância e também nunca aprendi a andar de bicicleta. Porém, aconteceu algo que me levou por caminhos os quais eu não esperava ir – o lado bom ou ruim da vida, a imprevisibilidade –, e eu acabei me tornando alguém muito mais aéreo. E isso não quer dizer que desisti dos veículos terrestres e fui pilotar avião.

Me tornei alguém que tem gosto por andar a pé, não muito importa a distância. Costumo andar sem rumo, para lugar nenhum, de propósito. Posso pôr um pouco da culpa deste hábito na minha paixão de outra época – eu simplesmente não conseguia ficar em casa. Embora eu não seja um fã do sol, saio e fico sob ele por um tempo sempre que tenho a chance ou ache necessário, quase sempre com um fone de ouvido com alguma música ou podcast tocando. Mas é mais usual a música. É fascinante observar as pessoas, suas ações e o mundo como um todo, até as formiguinhas trabalhando ou a barata saindo do esgoto, com uma trilha sonora ao fundo. Nessa observação do mundo é hábito que a velha distração reflexiva venha e me pegue. Quando isso acontece, esqueço muito dos problemas e das pessoas, e a caminhada que esquenta meu corpo e queima algumas calorias serve como gasolina ou querosene para a lareira da minha cabeça pegar fogo.

Por vezes eu quase fui atropelado justamente por conta disto.

Este é o motivo pelo qual eu acho melhor não comprar um carro, ao menos por enquanto. Imagine alguém tão abstraído dirigindo uma máquina que é capaz de atingir alta velocidade, abastecida com líquido inflamável, em linha reta ou em curva? Pois é. A questão da violência armada já preocupa muito o país – eu prefiro poupar o Brasil, e, me perdoem se for exagero, o mundo, de mais um possível perigo.

Existe muita coisa bela e feia naquilo que nos cerca – os dois tipos de coisas podem ser excelentes fontes de inspiração. Seu habitat sempre pode te oferecer carga para a sua bateria, principalmente quando você se sentir oco por dentro.

Um tal filósofo britânico chamado David Hume, propôs a tese de que ideias são impressões de objetos e eventos no mundo, ou em relação com algo no mundo. Me baseando nele, digo a você, ainda que você não dê uma foda para o que digo e jogue minhas palavras no lixo do banheiro, vá para o mundo e se impressione! 




Texto originalmente escrito em 04/01/2018.

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