Capítulo 6

-Podemos conversar? –Luke pergunta quando chego ao centro do acampamento.

Olhando ao redor, noto que um alvoroço se espalha pelo lugar e soldados e fadas correm de um lado para o outro organizando tudo para nossa partida. Resignada, aceno afirmativamente e caminho em direção às árvores.

Luke carrega um semblante triste em sua face, fazendo com que um sentimento de remorso se implante em meu peito ao relembrar o modo como o tratei. Contudo, muitas mentiras e inverdades foram reveladas, abalando minha fé em quer que seja. Escolhendo um galho baixo para me sentar, aguardo para ouvir o que Luke tem a dizer.

-Minha intenção jamais foi enganar você, Scarlett. –Ele declara depois de alguns minutos de silêncio.

-Qual o seu papel em tudo isso, Luke? –Pergunto sem rodeios.

Suspirando, ele se senta ao meu lado. O ódio que preenchera meu ser já havia se esvaído, restando apenas a dor de ter sido traída.

-Meu pai era um lupino que se apaixonou por uma mestiça. –Ele diz, atraindo meus olhos aos seus. –Ele foi expulso da matinha pelo Comando de Canys por amá-la. Ambos passaram a viver pacificamente na floresta, longe do Bosque dos Álamos. Há um ano, nossa casa foi invadida por feiticeiros sombrios e, por estarmos vulneráveis longe da matilha, eles assinaram meus pais. –Ele fala com a mandíbula tensa.

-Eu sinto muito, Luke. –Digo e seguro em sua mão.

-Tentei salvá-los, mas minha mãe suplicou para que eu fugisse com Davi. E, como um covarde, abandonei-os quando mais precisaram de mim. –Ele conta.

-Você não foi covarde, Luke. Salvou seu irmão e cumpriu o último desejo da sua mãe! –Incentivo-o.

-Tenho consciência disso, porém, a culpa ainda é minha. Eu atraí para nossa casa aqueles seres imundos em um de meus passeios por Pélagus. Desejava conhecer mais do que o verde da mata. Meu pai sempre dizia que minha curiosidade um dia nos traria problemas. –Ele enxuga uma lágrima solitária de seu rosto e continua. –Antes de morrer, meu pai ordenou que fossemos para Marina Azul porque lá encontraríamos ajuda e abrigo. Não sabia muito bem o que fazer, por isso segui até um posto militar para solicitar uma vaga, já que essa era a forma mais fácil de sustentar meu irmão e não seríamos aceitos no Bosque dos Álamos. Foi lá que conhecemos Rurik e entramos nessa loucura. Ele percebeu que sou um lupino e me explicou todo o seu plano em salvar você. Minha função era me infiltrar no exército real para averiguar quaisquer mudanças na próxima Convocação, na qual você seria recrutada. Eu estaria na comitiva do seu grupo até a fronteira do Reino Sombrio e, na primeira distração, iria regatá-la. –Ele para de falar por alguns segundos e suspira. –Entretanto, tudo acabou dando errado porque seus poderes despertaram antes do tempo. Rurik ordenou que eu garantisse sua proteção no castelo, mas não sabia como era seu rosto, só possuía uma parca descrição dada pelo capitão. Procurei pelo colar em seu pescoço, porém, você demorou para utilizá-lo. –Ele me censura.

-Desculpe-me. Minha vida havia se tornado uma bagunça para que eu me importasse com adornos, na verdade ainda está um completo pandemônio. –Respondo, defendendo-me.

-Eu sei, você não me deve desculpas. Falhei na minha principal responsabilidade que era protegê-la e a culpa de estarmos aqui agora também é minha. Perdoe-me por não ter sido sincero. –Ele pede.

-Não posso dizer que não me sinto magoada por isso, mas agora entendo o motivo de suas ações, Luke. –Respondo com um sorriso. –Por que seu pai mandou vocês para Marina Azul? –Questiono.

-Bem, esse era outro segredo que desvendei a pouco tempo. Em uma conversa com Rurik, contei-lhe que meus pai haviam sido assassinados e ele começou a chorar. Foi a única vez na qual o vi expor qualquer sentimento. Ao se restabelecer, o capitão me contou que meu pai era seu melhor amigo e nunca mais pode vê-lo depois que lhe expulsaram. Meu pai provavelmente sabia que Rurik notaria nossa semelhança e acolheria a mim e a Davi, mesmo sendo contra as ordens do Conselho se associar à linhagem de um condenado. –Luke conta.

Uma estranha agitação toma meu corpo ao final de seu relato. Levantando-me, caminho de um lado a outro com a raiva que se avoluma em meu peito.

-Lupinos, Fadas, Elementais e Mestiços, todos sem exceção, são movidos por ódio e preconceitos. Suas ações apenas refletem o que está dentro de seus corações. Como é possível expulsar um homem de seu lar somente por amar uma pessoa diferente de si? Como são capazes de mandar crianças para uma guerra? Como permitem que famílias definharem de fome por não possuírem a linhagem certa? –Inquiro a ninguém em especial.

-Scarlett, acalme-se. –Luke pede, segurando-me pelos ombros.

Olhando em seus olhos, reparo um leve desespero em seu semblante. Ao mirar o solo, percebo que a grama ao nosso redor assumiu um tom de verde esmaecido e a terra secou. Entristecida, toco as folhas desidratadas e ordeno para que revivam. Automaticamente, um verde vívido enfeita a paisagem novamente.

-Não posso mais fugir do meu destino, Luke. De alguma forma, sei que isso não vai acabar enquanto o Reino Sombrio existir. Preciso destruí-lo. –Declaro.

-Estarei ao seu lado para isso. –Luke afirma.

-Você não é mais obrigado a colocar sua vida em risco por minha causa. Agora conheço a verdade. –Digo.

-Não é mais por senso de obrigação, Scarlett. Você passou a ser parte da minha família, minha e de Davi. –Ele responde.

Sorrio para sua determinação e afeto, segurando em uma das suas mãos, tento mostrar pelo menos uma parcela da imensa gratidão que me preenche. Porém, algo me diz que essa guerra pertence apenas a mim.

Quando retornarmos ao centro do acampamento, um caos ainda maior nos dá boas-vindas. Aparentemente, todos estão empenhados desfazendo barracas e encaixotando pertences e Lírida coordenada a multidão sentenciando ordens e xingamentos.

-O que está acontecendo? –Cecília pergunta se posicionando ao meu lado.

-Lírida acredita em um ataque iminente ao Templo Virtus e por isso iremos até lá para servir de reforço. –Respondo.

-Ataque de quem? –Ela questiona.

-Das tropas do Reino Sombrio ou do seu pai, creio que não haja mais distinção entre elas. –Luke responde acidamente.

Cecília se encolhe levemente com as acusações de Luke e o encara sem compreender. Não sei o que se passa entre os dois, mas sem dúvidas um sentimento muito forte os cega, fazendo com que ignorarem minha presença.

-Eu não respondo mais pelas atitudes do meu pai ou da Coroa. Nossos vínculos foram quebrados no momento em que abandonei a corte. –Cecília responde com veemência.

-Você está certa de que todos as suas ligações com Pélagus estão encerradas? Não foi o que pareceu quando seu pai lhe apresentou seu noivo e a tristeza que está estampada em seu rosto dá indícios de que você sente falta da realeza. –Luke atira.

As bochechas de Cecília instantaneamente ficam coradas. Contudo, a emoção que transborda de seus olhos não é vergonha, mas ódio.

-Seu parvo! Jamais concordei com aquele casamento. Meu pai tramou tudo sem que eu tivesse conhecimento e essa tristeza em minha face é em relação à perda da minha mãe e do meu irmão. –A princesa responde com raiva.

-Ah, o mesmo irmão que ajudou a colocar a Scarlett e a mim na prisão? –Luke questiona.

-NÃO OUSE LEVANTAR CALÚNIAS DAS QUAIS NÃO POSSUI PROVAS! –Cecília grita.

-EU ESTAVA LÁ QUANDO ELE CONFESSOU. DESEJA UMA EVIDÊNCIA MELHOR DO QUE ESSA? –Luke grita em resposta.

Nesse momento, ambos estão se encarando com os rostos a milímetros de distância. A cólera entre os dois é palpável, assim como o desejo que os atrai como ímãs.

Pigarreio na esperança de reter sua atenção para mim e, instantaneamente, arrependo-me. Os olhares descontentes se voltam em minha direção e me censuram pela interrupção.

-Não sei ao certo o que está acontecendo entre você, porém, não há dúvidas de que essas questões precisam ser resolvidas. Sendo assim, estou me retirando. –Digo buscando um saída.

Entretanto, antes que minha sentença se finde, ambos estão se encarando novamente. A passos apressados, distancio-me o mais rápido possível do meio de desavenças.

Ao me aproximar da minha tenda, vejo que tudo também já está sendo removido. Uma surpresa me recebe quando adentro em seu interior e fico estática por alguns segundos.

-Gail? –Pergunto.

A mulher alta e corpulenta olha para mim e abre um largo sorriso. Em um rompante de afeição, ela me abraça até que meus pulmões não conseguem mais se inflar.

-Olá, minha menina! –Ela diz.

-Mas... Como... O que você está fazendo aqui? –Pergunto.

-Estive aqui o tempo todo cuidando de você. Mantive-me afastada até o momento em que Rurick tivesse coragem para revelar a verdade a você, mas, mesmo de longe, minha função sempre foi e será tomar conta de você. –Gail responde com carinho.

-Vo-Você também é uma fada? –Questiono pateticamente.

-Claro que não! –Ela diz gargalhando. –Uma mulher como eu nunca se encaixaria em um mundo tão delicado e refinado quanto o das fadas. Sou uma lupina, minha querida. –Gail revela.

De alguma forma, essa informação não me surpreende. Gail sempre aparentou ser muito mais forte e bruta do que qualquer outra mulher, como uma pedra preciosa não lapidada.

-E Zara? –Inquiro.

-Oh, não, ela era somente uma mestiça com um bom coração. Acolhera-me desde o instante em que me infiltrei no palácio para garantir sua segurança. –Gail esclarece com um certo ar de tristeza.

Um silêncio pesado se instala entre nós pela memória de Zara. Sem dúvida, devo a ela a promessa de manter sua família em segurança. Mais um compromisso que não posso dar a garantia de que se cumprirá.

Pela próxima hora, ajudo a Gail com a organização do acampamento. Entre tantos rostos que cruzam meu caminho, reconheço alguns que permitiram colocar suas vidas em risco para minha proteção. Cada gota de sangue que foi e será derramada, será creditada em minha conta.

Depois de algum tempo, Cecília se junta a nós com as bochechas coradas e sem me encarar. Sorrio para a inevitável confirmação que sua atitude me fornece.

Então o soldado e a princesa estão envolvidos em um romance? Interessante.

Quando toda a estrutura do acampamento é desfeita, reunimo-nos com os demais no centro da clareira. Majestosos pégasos aguardam a certa distância, pastando tranquilamente. Enquanto isso, Velikaya permanece ao lado de Lírida.

-Nosso ponto de chegada está a algumas horas daqui. Sabemos alguns atalhos, por isso não se distanciem, isso serve tanto para a comitiva terrestre quanto para a aérea. Não descansaremos até chegarmos ao Templo Virtus. –Ela declara.

Em seguida, Lírida monta em seu dragão negro e alça voo. Sem escolha, vou até um dos belos cavalos alados e a sigo em direção ao horizonte desconhecido mais uma vez. 

Olá, pessoas! 

Mais um capítulo saindo do forno. Gostaram? Espero que sim!

Um excelente final de semana pra vocês!

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