Capítulo 50

Os primeiros raios de sol me acordam com uma calma preguiçosa. Espreguiçando-me, reparo em um número inesperado de flores de todas as cores e formas formando um círculo ao meu redor.

Nosso redor seria mais correto, já que um braço pesado envolve minha cintura e um corpo quente aquece minhas costas. Respirando fundo, relembro os acontecimentos da noite passada e sinto minha pele enrubescer instantaneamente.

Sim, foi uma longa noite.

-Na primeira vez em que nos beijamos, você queimou nossas roupas. -John fala baixinho. -Agora, acordo com um jardim a nossa volta. Pelo que vejo, fiz algo certo dessa vez. -Ele graceja.

Virando-me em sua direção, empurro-lhe levemente na tentativa de desfazer seu sorriso presunçoso e me perco em seus olhos azuis uma vez mais. Como nunca antes em minha vida, sinto-me tranquila sob minha própria carne, a fera em constante revolta está entorpecida de prazer.

-Você é tão linda. -John afirma, delineando minha mandíbula.

Somente consigo sorrir em resposta. Gostaria de passar o resto da minha vida nessa pequena bolha colorida e me perder nos braços do homem que trouxe as cores para minha existência.

Ainda que suas ações também tenham manchado a tudo de preto.

-Quando saí da sua cela naquele dia, pensei em dar um fim a tudo. -John começa, seu semblante se transformando em pura angústia. -Do jeito que você me olhou depois do que lhe falei, acreditei que esse momento seria somente uma fantasia para sempre. Achei que a tinha perdido. -Ele sussurra.

-Estou bem aqui. -Digo e seguro em sua mão, entrelaçando nossos.

-Espero que não seja apenas um sonho mais uma vez. -O príncipe tenta fazer graça, porém, o humor não chega aos olhos.

Sentando-me, pego meu colar e os anéis que junto a ele estão. Coloco a ambos na palma da mão de John e estendo as minhas para ele.

Vagarosamente, John desliza minha aliança e meu anel de noivado para seus respectivos lugares de direito. Seu movimento é lento, como se me venerasse e tentasse esticar os segundos.

-Amo você. Não a mereço, mas ainda assim, não posso viver sem. -Ele diz.

As mesmas palavras ficam presas em minha garganta, como se meu coração ainda não estivesse pronto para se abrir completamente. Aproximando-me, selo nosso paraíso com um beijo. 

Muitos dias se passam em nossa peregrinação pela mata verde. A formação das árvores começa a mudar e percebo que estamos, finalmente, saindo do território lupino.

Quando cruzamos o paredão de sequoias e adentramos a conhecida clareira da divisa, sinto uma leve pontada em meu peito por estar abandonado um dos poucos lugares em qual já possuí um lar. Velikaya instantaneamente nota minha presença e se aproxima, abaixando sua cabeça para ser afagada.

-Olá, garotão. Espero que tenha se comportado bem. -Falo para o dragão.

Olhando para trás, vejo que John está a alguns metros de nós, receoso por conta da besta-fera a sua frente. Velikaya, por sua vez, observa atentamente a cada movimento do nosso visitante.

-John, este é Velikaya. Velikaya, este é John. -Apresento.

Vagarosamente, o príncipe se aproxima de nós, cauteloso. Pegando sua mão, eu a apropinquo do focinho do dragão que a cheira e, desprendidamente, joga sua cabeça em direção a John pedindo por carícias. O príncipe ri e acaricia o grande animal carente junto comigo.

Quem mesmo é a besta-fera?

John não parece muito contente com a ideia de voar. Pelo que entendi, sua primeira experiência não foi das melhores. Nós montamos nas costas de Velikaya e o príncipe abraça minhas costas com um pouco mais de força do que necessário.

Medo ou desejo?

Segundos antes que alcemos voo, um grupo de lupino rompe pela floresta e nos cerca. Liderando-os está Kayke em sua forma humana. Ele me encara e ao ver John, seu olhar escurece e reparo em uma sombra de mágoa fugaz em seus olhos que desaparece na mesma velocidade com que surge.

Suas narinas se dilatam e percebo que não é a presença de John que o incomoda, mas sim, um cheiro que está impregnado em nós dois. Eu ainda não o havia notado até o momento, porém, um aroma adocicado, semelhante a uma mistura de mel e morangos e mesmo assim inigualável e único, emana da minha pele, o feromônio de acasalamento.

Desatenta demais até para sentir o próprio odor, Scarlett?

-Vamos, Velikaya! -Comando ao mesmo tempo em que os lobos saltam sobre nós.

As asas do dragão se estendem, derrubando alguns lupinos no processo. Nós deixamos o solo em segundos e não olho para trás nem penso no que estou deixando naquela clareira. 

Na primeira vez em que peregrinei pela Floresta Enevoada, estava quebrada, magoada e profundamente perdida. Não havia objetivos nem foco em minha trajetória. Agora, sobrevoando o mar verde, um único plano se estampa em minha mente: recuperar minha mãe e retornar ao meu lar para delinear e ganhar a guerra.

Qual lar será que você vai encontrar?

Longas horas se passam até que cobrimos toda a extensão da floresta e chegamos às suas margens. Velikaya parece cansado, assim como John e eu. Ainda assim, não podemos perder tempo descansando com uma patrulha lupina em nossos calcanhares.

-Espere por nós aqui, Velikaya. Se aparecer qualquer perigo, fuja e se esconda. Não pode me seguir dessa vez, grandão. -Ordeno e sinto um aperto no peito ao lhe dar um beijo de despedida no focinho.

O dragão parece contrariado com minha determinação. Entretanto, obedece e não nos acompanha quando damos os primeiros passos em direção a Pélagus.

Num ponto muito distante, é possível ver a grande muralha que separa a capital da Floresta Enevoada. No meio disso, há diversos povoados pobres margeando o reino, aqueles que foram renegados por não possuírem uma fonte de renda, em maioria, mestiços.

-Esse lugar está muito mais cheio do que da última vez em que o cruzei. -John comenta com preocupação.

Cabanas se espalham por todo o lugar e em seu centro há um tipo de mercado, comercialização de objetos ilícitos e alimentos sem procedência. A imagem de crianças com expressões famintas e mulheres grávidas acomodadas em qualquer canto no chão, é como um soco em meu estômago. Cães esqueléticos vasculham pelas montanhas de lixo acumuladas pelo espaço.

O tempo sob a proteção dos lupinos a fez esquecer a pobreza na qual milhares de pessoas vivem?

-Coloque sua capa. Se lhe reconhecerem, teremos problemas. -Digo a John.

Imitando-o, também me escondo sob capuz. Enquanto desviamos das pessoas, vejo um homem tentando vender dois cavalos magros para andarilhos, mas que nos serviriam adequadamente para atravessar esse deserto com rapidez.

-Quanto quer pelos animais? -Questiono ao me aproximar de sua barraca.

O homem me avalia, ou pelo menos o que está visível do meu rosto. Suas órbitas encovadas, bochechas vazias e pele seca indicam o quanto a miséria tem afetado essa região.

-Você tem comida aí nessa mala, senhora? -Ele pergunta com uma voz rouca e fadigada, indicando com a cabeça a bagagem que carrego.

Colocando a mala no chão poeirento, retiro a maior parte de carnes secas, frutas, verduras e bolachas que ainda possuímos. Guardo apenas nossa reserva de água. John nem mesmo pestaneja em relação a minha decisão de entregar nossos suprimentos a um estranho.

-O que houve com esse lugar? -Inquiro ao colocar os mantimentos em suas mãos calejadas e segurar as rédeas dos cavalos.

-Não é somente este lugar que está desolado se é isso que está perguntando, minha cara. Todo o reino de Pélagus vem sofrendo com as ações do rei. -O homem conta. -Desde a partida da rainha, a comida destinada a nós foi cortada, somente ela se importava com o que acontece atrás da muralha. Além disso, com a diminuição da idade da Convocação e as revoltas, muitas famílias migraram para cá trazendo uma superlotação como resultado. -Ele diz e acena para que outro homem se aproxime.

-Revoltas? -Indago com interesse.

-Sim, muitos mestiços têm comandado revoltas fora e em torno de Aurora Negra. A fuga de Scarlett impulsionou nossa libertação. Uma colônia está sendo construída e logo partiremos para lá. Não recebemos mais ordens dos bastardos elementais. -Ele xinga e cospe no chão em indignação. -Kalis, corte as frutas e dê às crianças e mulheres. Farei uma sopa com essa carne para mais tarde... -Ele dá instruções ao seu companheiro e se afasta.

Minha fuga? Uma colônia?

Olhando para John, encontro a mesma incredulidade que devo estar expressando. Analisando com mais atenção ao nosso redor, percebo que aquele não é somente um comércio ilegal, mas um ponto de apoio. Pequenas porções de comidas estão sendo racionalizadas e novas barracas montadas a todo momento pela chegada de novos fugitivos de Arthur.

A presença de estranhos é tolerada para que consigam mais mantimentos com origem no tráfico de Pélagus. No entanto, noto homens e mulheres patrulhando o acampamento e seguindo cada movimento nosso.

-É melhor partirmos antes que sejamos descobertos. -John afirma. -Nosso objetivo vai trazer mais benefícios a essas pessoas do que se tentarmos interferir agora. -Ele alega ao notar minha resistência em me mover.

Engolindo em seco, monto na égua baia e inicio um galope rápido. Todas as minhas fibras gritam que não é certo abandonar meu povo, porém, o argumento do príncipe faz mais sentido.

Seguindo as instruções de John, partimos para leste em direção a porção da muralha que é menos vigiada e que possui passagens clandestinas ignoradas pela realeza. Ao que tudo indica, Arthur não se importa com o contrabando e pirataria em seu território.

Típico de um canalha.

Em todo o longo trajeto que cavalgamos por horas, mantemo-nos o mais distante possível do muro para não despertarmos o interesse dos soldados. Muitas caravanas de mestiços cruzaram nosso caminho, movidos pela esperança de encontrar a "colônia", seja lá o que isso for.

Aos poucos, a altura da muralha diminui e buracos em sua construção mostram o interior da cidade. John havia me informado que iríamos até a fronteira de Aurora Negra com Komisser, onde a patrulha é quase inexistente.

Deixando nossos cavalos pastando na grama seca, aproximamo-nos e nos esgueiramos por uma fresta relativamente larga. Como previsto, não encontramos nenhum soldado de guarda.

Uma cidade parcialmente vazia nos recebe. Aurora Negra sempre fora conhecida por sua alta densidade populacional e rico comércio. Contudo, pelo menos nessa região, não é o que encontramos.

Raros carros cruzam as ruas e quando alcançamos uma praça, escassos estabelecimentos ao seu redor permanecem abertos e as esquinas estão atulhadas com lixo. As pessoas transitam de cabeças baixas e com passos rápidos.

-Morte aos elementais. -John lê um dos cartazes pregamos à fachada de uma loja depredada.

Para meu completo desespero, um retrato do meu rosto foi pintado em outro papel e abaixo dele está a frase CHAMA DA RESISTÊNCIA em tinta vermelha. Olhando melhor, vejo que a mesma pintura está espalhada por toda a redondeza.

-Creio que você seja a alma dessa revolta. Pelo menos escolheram uma adequada super-heroína. -John diz com um sorriso de lado.

Dou-lhe um leve empurrão e agradeço mentalmente por sua tentativa de diminuir a gravidade da situação na qual nos encontramos. Ao cruzarmos a próxima esquina, John me puxa pela cintura para interromper minha progressão.

A nossa frente, um comboio de soldados analisa cada carga, mercadoria, pessoa e animal que tenta continuar seu caminho para as entranhas de Aurora Negra. O exército está isolando a porção da cidade próxima ao castelo.

-E agora? -Indago.

-Vamos ter que achar outra forma de entrar. -John diz e aponta para um homem parado ao lado de uma carroça.

O príncipe se afasta de mim e vai até ele. Surpreendendo-me, John retira um saco de moedas e ofereço ao velho senhor que parece muito satisfeito em nos ajudar com esse pequeno incentivo.

-A carroça carrega feno para os cavalos reais. Podemos nos esconder embaixo dele e entrar diretamente pelo estábulo. -John me fala ao retornar para meu lado.

-Não há chance dele nos entregar? -Questiono e indico o homem estranho.

-Chance sempre há. Todavia, os comerciantes estão tendo prejuízos demais com as novas regras de Arthur e qualquer ganho extra é bem-vindo. Prometi outra porção de ouro se ele nos ajudasse a passar pelo portão que leva às baias no palácio. -John explica. -Aquele homem conhece os soldados que estão responsáveis pela inspeção das carroças, então irá suborná-lo para "passar mais rápido". É nossa melhor chance. -O príncipe afirma.

-Está bem. -Concordo e caminhamos até nosso possível ajudante.

Ele não faz perguntas, apenas auxilia a nos escondermos em sua caçamba. Quando o trote dos cavalos de carga inicia, meu coração dispara e respiro o mais silenciosamente possível.

-O que tem para nós hoje, Giuseppe? -Uma voz masculina pergunta.

O tilintar de moedas soa, junto com uma risada satisfeita. Em segundos, estamos novamente em movimento e consigo voltar a respirar. John aperta minha mão na tentativa de me tranquilizar.

A perspectiva de que logo estarei novamente no palácio real me envolve e pressiona fortemente enquanto as rodas da carroça se chocam contra as pedras da estrada. As vozes dos cidadãos começam a ser ouvidas, indicando que estamos no centro da cidade.

Fecho meus olhos na tentativa de bloquear o nervosismo a preencher minhas veias, mas imagens dos meus últimos dias aqui invadem minha mente: Arthur rasgando meu vestido, a traição de John, a surra de Luke, a sentença de exílio e a bagunça que foi meu resgate. A sensação de estar indo rumo à minha prisão está quase me rasgando de dentro para fora.

Você é forte e está livre!

-Vai dar tudo certo. -John sussurra.

Apego-me a sua declaração como se minha vida dependesse disso. Entretanto, quando escuto os portões reais se abrirem, sinto-me como a garota impotente e frágil colocada atrás das grades pelo rei de Pélagus.

Pense em sua mãe, Scarlett!

-Vocês já podem sair. -O homem indica.

Levantando-me, vejo que estamos nas baias mais distantes do palácio real. Como prometido, John entrega outro saco de moedas ao senhor a nossa frente que parte para o depósito do estábulo, deixando-nos sozinhos.

-Espere aqui. Vou analisar o em torno e tentar encontrar algum soldado de confiança. -John instrui com firmeza.

Isso parece uma má ideia.

A contragosto, escondo-me dentro de uma baia vazia enquanto ele desaparece do meu campo de visão, adentrando o pátio do castelo. Longos minutos se passam até o seu retorno com o capuz abaixado e três soldados trajados com uniformes pretos em sua companhia.

-Vire-se, Scarlett. -John comanda com uma voz rude parando frente a mim.

-O que você vai fazer, John? -Pergunto com a voz trêmula ao ver um par de algemas em suas mãos e encarar seu olhar frio.

Os três guardas, repentinamente, cercam-me me viram de costas para o príncipe, agarrando meus braços de maneira abrupta. Por sua vez, John coloca as algemas em meus pulsos e, instantaneamente, sinto meu poder adormecer.

Malditas algemas mágicas!

Logo em seguida, uma carapuça é colocada em minha cabeça, impedindo-me de ver para onde estou sendo levada. Tanto surpresa quanto uma estranha dormência que se instala em meu corpo me impedem de reagir enquanto sou arrastada pelo caminho.

Não, de novo não!

Olá, pessoal! Coração batendo forte nessa madrugada? Kkkkk 

Antes de mais nada, quero desejar um feliz ano novo a todos (mesmo que um pouco atrasado, kkkk). Que esses 366 dias, já que estamos em ano bissexto, sejam mais do que maravilhosos nas nossas vidas, regados a muitos livros incríveis e muita felicidade! Agradeço demais a companhia de cada um até aqui!

Gostaram do capítulo? Assim que possível, postarei mais. Provavelmente, esse seja o penúltimo capítulo de Palácio de Cinzas, então se preparem para o que está por vir!

Um beijão e ótima quinta-feira!

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