Capítulo 45 - Parte 2

-Parece que saímos vitoriosos dessa vez. -Lykaios aponta.

-Creio que sim. -Concordo, sentindo a adrenalina diminuir aos poucos.

Em meio a aglomeração, Magnus me encontra com seus olhos escuros. Misteriosamente, nossos lobos mantêm a mesma conexão afetiva a nos identificar de quando estamos na forma humana. Ele se aproxima e me analisa, como se procurasse por ferimentos. Delicadamente, o lobo negro lambe a região das minhas costelas que está ensanguentada, ainda que indolor.

Gradativamente, os demais lupinos nos rodeiam e abaixam suas cabeças, tocando seus focinhos no chão. Admirada, compreendo que todos nos dedicam uma reverência. Magnus emite outro longo bramido e todos são liberados.

Uma parcela dos lupinos começa a transição para a forma humana enquanto outros partem em direção à mata e meu pai gesticula para que eu o acompanhe até lá. Ao nos encontrarmos entre os troncos marrons, Magnus escala uma árvore e arranca um pacote que, aparentemente, estava camuflado em sua copa.

Ele o deixa no chão em frente a mim e se afasta. Avaliando o conteúdo, percebo que se trata de uma muda de roupas, provavelmente para que eu possa me vestir depois de perder a forma lupina.

Todavia, percebo que não faço a menor ideia de como retornar a minha conformação original. Exasperada, começo a andar em círculos sem saber como agir.

-Respire fundo, Scarlett. -Lykaios instrui. -Você precisa se desprender da minha consciência para poder se transformar novamente. Com o tempo, isso se tornará um mecanismo extremamente fácil. Mentalize sua constituição humana: braços, pernas, tronco, cabeç...

Não consigo responder nem terminar de escutar a orientação de Lykayos porque meu corpo começa a trabalhar sem que eu tenha consciência, um ímpeto intrínseco a minha existência. O pelo branco me recobrindo desaparece, deixando em seu lugar uma pele lisa, uma tração se estende por minha coluna, colocando-a novamente no lugar.

Sinto meu rosto retornar ao formato oval, perdendo o focinho pontiagudo e as presas cortantes. Meus sentidos auditivos diminuem no instante em que minhas orelhas voltam a ficar rentes à minha cabeça. Meus cabelos caem em minhas costas assim que a transição de lobo-humano acaba por completo.

Inspiro profundamente e acomodo-me nas folhas secas do solo para acalmar meus batimentos cardíacos. Passo minhas mãos por meu rosto e a sensação de possuir dedos longos é levemente estranha, como se eu precisasse me acostumar novamente a minha a estrutura.

-Obrigada, Lykaios. Sem você, eu enlouqueceria. -Agradeço em um sussurro.

Notando certa movimentação ao meu redor, visto uma longa camiseta e uma calça moletom presentes na sacola. Vagarosamente, ignorando a leve tontura que me atinge, caminho até o centro da aldeia de novo.

Certas árvores margeando a vila foram queimadas e se mantêm precariamente erguidas. Ajoelhando-me, coloco minhas mãos na terra seca e invoco a natureza. Pouco a pouco, os vestígios das chamas são substituídos por verde vivo.

Levantando-me, prossigo em minha trajetória e a imagem que encontro me entristece profundamente: homens e mulheres correm de um lado a outro carregando familiares feridos e tentando apagar o fogo que ainda consome algumas casas.

Domando o vento, subjugo as labaredas e as forço a se findarem com a ausência de oxigênio. A distância não me impede de aniquilar todos os pontos de incêndio porque, sem que eu saiba explicar, consigo sentir o fogo independente de sua localização. É como se a herança lupina aguçasse todos os meus dons.

Circundando a mansão de Magnus, vejo que foi levantada uma ala hospitalar improvisada com um toldo branco e colchões servindo de maca. Provavelmente, o pequeno hospital não consegue comportar todos os atingidos.

A maior parte dos doentes se resume a crianças e idosos e isso me aflige ainda mais. Dário corre de um lado a outro distribuindo ordens e fazendo curativos.

Inesperadamente, Kayke surge saindo em disparada da floresta, vestido com vestes semelhantes às minhas. Ele carrega uma mulher desnuda em seus braços que tem uma lança gravada em seu quadril direito.

-DÁRIO, PRECISO DA SUA AJUDA! -Kayke grita, depositando a mulher em um dos colchões.

Chegando mais perto, reconheço Roama que se contorce de dor. Engolindo em seco, observo seu sangue extravasando em abundância pelas bordas do ferimento.

-Tentei retirar a lança, mas ela está perdendo muito sangue. -Kayke expõe com a voz tremula.

-Preciso de auxílio para contê-la. Vou deslocar a lança e permitir que seu poder de cura seja ativado. -Dário solicita e encontra meus olhos.

Sem pestanejar, contorno o corpo de Roama e seguro seus braços nas laterais de sua cabeça enquanto Kayke reprime os movimentos das suas pernas. Assim que Dário remove a estrutura pontiaguda em um movimento único e rápido, Roama berra em agonia e um líquido escuro sai da ferida.

-Veneno de prata. -Dário afirma, ao encostar seu dedo indicador na secreção e cheirá-la. -Ela não conseguirá se curar, precisará de uma sutura e muitos remédios para controlar a intoxicação. -Dário diz, seu rosto envolto em uma máscara de apreensão.

-Você consegue fazer isso? -Kayke questiona.

-Não temos essa estrutura na aldeia, Kayke. Jamais havíamos precisado dela. -O médico fala com uma expressão entristecida.

-VOCÊ NÃO PODE DEIXÁ-LA MORRER! -Kayke vocifera, perdendo a compostura.

Como se o ambiente fosse desacelerado e transcorresse em câmera lenta, acompanho enquanto Kayke começa a se jogar sobre Dário na intenção de atacá-lo. Entretanto, antes que ele alcance êxito em seu propósito, lanço-me contra ele e ambos rolamos no chão.

Pego de surpresa, ele demora para reagir, dando-me tempo para me posicionar sobre seu abdômen e prender suas mãos ao lado de seu corpo. Ele se debate, mas não o suficiente para se soltar do meu aperto.

-Acalme-se! -Ordeno. -Não será de grande valia se você machucar o único médico que temos. -Indico com seriedade.

Kayke me fita com lágrimas mal contidas em seus olhos. Jamais havia presenciado um episódio no qual esse lupino deixasse seus sentimentos tão expostos. 

CONTINUA --> --> -->

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