Capítulo 42

Meus pés parecem presos ao chão e perco a capacidade de coordenar os meus movimentos, sentindo os dedos latejarem ao pressioná-los contra o cabo da espada. Posso senti-lo ao meu redor, sua presença preenchendo todo o espaço disponível e seus olhos mirando a minha alma.

-Scarlett? -Ele chama, preocupado.

Meu coração acelera ao ouvir sua voz pronunciar meu nome. A saudade em seu tom é tão palpável que me faz desejar encarar seu rosto. A angústia crescente em mim se assemelha a pequenas navalhas espetando meu coração em inúmeras repetições.

Maldito! Está me levando a ter um infarto.

De repente, o oxigênio fica escasso a minha volta e me sinto claustrofóbica sob minha pele. Não consigo lidar com o turbilhão de sensações despertadas em mim pelo herdeiro de Pélagus. Desgovernadamente, saio correndo dali.

Covarde!

Não me dou ao trabalho de olhar de olhar para trás. As pessoas resmungam enquanto passo por elas de maneira nada educada. Olhares curiosos me acompanham a cada metro avançado.

Embrenho-me na mata com a certeza de que não serei seguida, tendo em vista que aquele é um território desconhecido para os visitantes da aldeia. No pouco tempo desde que cheguei ao Bosque dos Álamos, a floresta se tornara um excelente esconderijo e as árvores ouvintes formidáveis.

Pelo menos tenho a esperança de que ele não consiga me encontrar!

Não preciso examinar o caminho a minha frente. Sigo somente os meus sentidos lupinos que, aparentemente, indicam com precisão a direção dos meus passos, como se houvesse um mapa oculto da floresta impresso em meu subconsciente.

Privilégios de ser um lobo!

Não sei por quanto tempo dura minha peregrinação por entre as árvores, porém, quando atinjo a clareira da cachoeira, caio de joelhos no chão em busca de ar e absorvo a luz ofuscante do sol. Meus batimentos cardíacos se assemelham a um tambor descoordenado em meu peito e meus cabelos formam uma cortina ao redor da minha face, libertados pela velocidade do vento durante o exercício.

Respirando fundo, tento compreender a minha reação em relação a aparição súbita de John. Por algum motivo, confrontá-lo é difícil demais, doloroso em demasia. Seu rosto me recorda de todos os nossos momentos juntos, inclusive daqueles que ainda me ferem profundamente.

Eu o amei de todas as formas que conheço e, na mesma proporção, agora nutro um ódio abrasador por sua pessoa. Esses dois sentidos entram em conflito em cada oportunidade na qual nos encontramos, deixando-me a beira de uma combustão.

Passados longos minutos, acomodo-me no solo verde e observo a o movimento lento da água. Ao retomar a consciência do meu corpo, percebo que carreguei comigo a espada de Siena e isso me transmite algum conforto.

-Essa corrida foi completamente injusta se relevarmos o tempo em que passei sem treinamento. -John fala com certa dificuldade, surgindo por entre os troncos marrons. -Que lugar... Espetacular. -Ele afirma, maravilhado com o que vê.

Não é possível que ele tenha me seguido!

Fechando os olhos, tento me controlar. Aspiro e inspiro o ar o mais tranquilamente possível para evitar uma iminente insanidade da minha parte.

-Precisamos conversar, Scarlett. -O príncipe diz, aproximando-se de mim cautelosamente.

É mesmo? Por que hoje é um momento favorável para você?

Ranjo os dentes para me impedir de lhe dar a resposta merecida. Juntando toda a dignidade que há em mim, levanto-me e o fito com a cabeça erguida. Como de costume, minhas barreiras vacilam ao me defrontar com seu olhar azul.

O príncipe parece confuso ao se deparar com a espada em minha posse, o que renova minha confiança de certo modo. A ideia de que posso despertar seu medo me parece igualmente encantadora.

Você tem sérios problemas, garota!

-Como me encontrou? -Inquiro com raiva.

-Ao que tudo indica, correr atrás de você se tornou minha missão de vida. -John alega, suas feições sóbrias.

Talvez eu não seja tão assustadora assim.

Exatamente como uma criança faria, dou-lhe as costas e começo a me mover novamente, retirando-me outra vez. Preparo-me para o instante em que o príncipe tentará me parar e seguro com ainda mais força a espada. No entanto, são suas palavras que interrompem minha deliberação.

-Arthur colocou uma faca no pescoço da minha mãe para que eu magoasse e mentisse para você. -Ele declara, alto e claro.

Imediatamente, paro de caminhar. Uma dormência toma meu corpo, impedindo que eu me locomova, enquanto minha mente insiste em fugir para me proteger de mais mentiras.

Luta ou fuga?

-Ele descobriu sobre nosso envolvimento. Inclusive, ordenou a morte do sacerdote Cretus, que realizou nosso casamento. Félix não recebeu o mesmo destino porque o rei não descobriu a tempo sua participação na cerimônia. -John conta pausadamente. -Logo depois que deixei seu quarto naquela noite, um dos capangas de Arthur me capturou. Fui torturado para relatar tudo sobre nosso envolvimento. Ao perceber que não receberia nenhuma informação relevante, o rei partiu para ameaças a minha família. -O príncipe denuncia.

Vagarosamente, viro-me para ele com a intenção de descredibilizar seus argumentos e possivelmente agredi-lo fisicamente por sua nova tentativa em me iludir. Entretanto, no segundo em que miro seu semblante, encontro somente honestidade explícita.

-Minutos antes de eu encontrar você naquela cela imunda, o rei empunhou uma faca contra a garganta da rainha. Antes disso, ele cortou superficialmente seus pulsos para garantir que não estava blefando. Além disso, naquele dia, Malvino, seu capataz mais fiel e desprezível, foi designado como guarda-costas de Cecília. Uma escolha errada da minha parte resultaria em algum mal a minha irmã. -John prossegue.

Suas palavras são como punhais cravados em meu peito repetidamente, sem descanso. A simples cogitação de alguém atentando contra a vida de Cecília embrulha meu estômago e me faz estremecer.

A ideia de que o sacerdote Cretus foi assassinado por minha culpa começa a sedimentar em minha mente e o resultado caótico que isso desencadeia em meu autocontrole não é agradável. A espada da minha mãe desabada na grama com um baque seco quando meus dedos não conseguem mais sustentá-la.

Incontrolavelmente, fecho minhas mãos em punhos fechados para evitar que John repare que as mesmas estão tremendo. Minhas unhas cravam na pele macia das minhas palmas, praticamente perfurando-as. Contudo, meu estado de entorpecimento inativa qualquer dor.

John experimenta diminuir um pouco a distância entre nós, mas muda de opinião assim que começo a me afastar na mesma medida. Sua proximidade serviria apenas para alimentar minha aflição.

Ou, mais precisamente, minha loucura.

Inesperadamente, o príncipe começa a desabotoar sua flanela. Inerte, somente assisto seus dedos trabalharem em cada botão pacientemente enquanto seu olhar permanece grudado em mim. Ao terminar, ele deixa a peça cair sobre o solo e vira de costas para mim.

Um pequeno som estrangulado sai por meus lábios sem que eu consiga controlar. Incalculáveis linhas brancas grossas se desenham na pele de John das omoplatas até a cintura, algumas com aparência de terem curado recentemente. Além disso, começando em seu ombro esquerdo, há dúzias de cicatrizes menores em forma de cruz que parecem ter sido feitas com ferro quente.

-Cada vez em que Arthur julgou meu comportamento como inadequado para seus padrões, recebi chicotadas ou surras como castigo, mais comumente a concomitância de ambos os métodos. Isso começou quando atingi a idade de doze anos. -John revela, não conseguindo conter o sofrimento em sua voz. -Entediado, o soberano do poderoso e invencível reino de Pélagus, definiu que seria apropriado simbolizar em meu corpo todas as ocasiões em que fui desobediente, com isso, minha pele passou a ser marcada com ferro, imitando o que se faz com o gado. -Ele diz, parecendo tentar fazer uma piada infame no fim da sentença e voltando a ficar de frente para mim.

Prestando atenção, consigo identificar vestígios dos espancamentos recebidos por John também espalhados por seu abdômen. Detalhes invisíveis aos meus olhos nas duas oportunidades em que o encontrei com o tronco despido. Uma tristeza profunda se desencadeia em mim por essas descobertas.

Que tipo de monstro tortura o próprio filho?

-Não estou descrevendo esses fatos deprimentes da minha história para alcançar a sua pena, Scarlett. Essas marcas são a prova de que absolutamente nada nesse mundo me levaria, voluntariamente, a ajudar aquele crápula a acabar com a sua vida. -John anuncia, desvendando meus sentimentos com facilidade. - Arthur Beryllos Pharus é o homem a quem mais abomino e irei retirá-lo do trono de Pélagus a qualquer custo. Ele nunca mais irá subjugar o meu povo. -Ele afirma, seus olhos faiscando com uma cólera mal contida. -Cada maldita palavra que eu disse a você naquele dia era mentira. -O príncipe diz. -Cada. Maldita. Palavra. -Ele reitera com firmeza.

Enquanto pronuncia a última frase, John dá alguns passos incertos até mim. Ao perceber que não vou fugir, ele se aproxima mais, deixando somente alguns centímetros entre nós. O príncipe é pelo menos uma cabeça mais alto do que eu, por isso, preciso erguer o rosto para encarar sua face.

-Desde a sua partida, meu mundo desmoronou porque você era tudo o que o mantinha vivo, Scarlett. Sei que você não é mais a mesma, mas eu também não sou mais o príncipe idiota que se deixava manipular e que machucou seu coração. Por favor, deixe-me provar que não se arrependerá de me dar apenas mais uma chance. -John suplica.

Delicadamente, ele pega em uma das minhas mãos e desfaz o punho fechado no qual ela se encontra. De um jeito carinhoso, ele acaricia minha palma e deposita dois objetos circulares nela: minha aliança e meu anel de noivado.

-Vou matar seu pai. -Revelo com a voz afiada, fitando seus olhos sem piscar.

Se o príncipe deseja o meu perdão, precisa estar ciente de quais seriam minhas ações em um futuro próximo. Ainda que minha mente insista em não crer nas alegações de John, meu coração calejado insiste em ser tolo e lhe dar o benefício da dúvida.

-Estarei ao seu lado quando isso acontecer. -John fala com veemência, fazendo meus batimentos cardíacos acelerarem uma vez mais. 

QUEM TÁ FELIZ LEVANTA A MÃO! Kkkkk

Finalmente ocorreu o encontro tão esperado, pelo menos por alguns. Porém, nada está decidido, ok? Kkkk Muitos acontecimentos à vista!

Gostaram? Assim que possível postarei mais. 

Um beijão e um excelente início de semana!

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