Capítulo 38

-A audiência ocorrerá esta noite. -Magnus me conta. -Você ocupará o lugar a minha esquerda na mesa do Comando de Canys. A princípio, as fadas não irão interferir no julgamento. Mirena já preparou as vestimentas adequadas para o evento destinadas a você. -Ele continua.

Somente assinto em positivo, tendo em vista que não possuo vontade alguma de participar da reunião lupina, porém, também não há em meu ser um pingo de ânimo para argumentar com meu pai sobre o assunto. Apesar de não ter me consultado sobre minha opinião acerca de nossos visitantes, percebo que toda essa situação em relação a eles o deixa ansioso e estressado. Há muito peso sobre seus ombros e não desejo ser mais um.

Sendo assim, encaminho-me ao meu quarto para não correr o risco de me atrasar. Como esperado, Mirena ali se encontra, pronta para me auxiliar. Junto a ela está Cecília e, curiosamente, as duas mantêm uma conversa amistosa sobre os preparativos do casamento.

Tanto Adela quanto Mirena estão empenhadas em deixar o vestido de noiva da princesa impecável novamente. Durante o diálogo, contribuo com pequenos comentários sobre os arranjos mais apropriados e as cores da nova decoração que Cecília está montando.

Enquanto Mirena trança meus cabelos e a princesa se esparra sobre minha cama, imagino como a vida seria se esses episódios fossem corriqueiros em nossa existência. Será que nossas almas se encontrariam se a realidade fosse menos complicada? Nada de dons, realeza, lobos, fadas e corações partidos, ou são exatamente as dificuldades às quais somos submetidos a moldar o destino? Atraindo-nos diretamente ao cenário em que devemos ser inseridos?

Emoção demais pode ser contraindicada, Scarlett!

Depois dos acontecimentos que orbitaram ao redor da relação de Luke e Cecília, a princesa passou a ser uma presença comum na casa de Magnus. Com sua simpatia, ela ganhara a amizade de todos os seus residentes e, provavelmente, a adoração de toda a aldeia por conta de seus constantes passeios depois de sair do hospital.

Ninguém fora capaz de fugir de seu inconveniente encantamento pela a rotina lupina. Até mesmo meu pai não ficara imune ao seu carisma e não conseguira negar a promessa de que ponderaria sobre o pedido de Cecília para que sua família pudesse participar do seu casamento. Contudo, o julgamento ainda é um empecilho para a realização de tal desejo.

Luke se manteve afastado de mim nos últimos dias. De alguma forma, minha briga com Kayke chegara ao seu conhecimento e, agora, consigo ver uma certa mágoa em seus nos olhos todas as vezes em que nos encontramos. Por mais que anseie pela resolução desse conflito entre nós, ainda não consigo enfrentá-lo.

Medrosa, é precisamente essa a definição que me resume.

-Scarlett, está me ouvindo? -Mirena questiona e volto minha atenção a ela. -Você precisa se vestir, está quase na hora. -Ela instrui.

Um suave vestido comprido preto repousa sobre uma poltrona a minha espera. De acordo com Mirena, preto e vermelho são as cores oficiais do Comando de Canys. Com o auxílio de minhas fiéis ajudantes, coloco a vestimenta que se encaixa perfeitamente em meu corpo.

As mangas longas e largas ondulam na brisa leve do começo da noite e, em um bordado minucioso e delicado, pequenas rosas rubras paralelas imitam o que seria um cinto, rodeando completamente a minha cintura. Sem dúvidas, Adela é uma costureira incrível e rápida.

-Ficou lindo em você. -Cecília fala e reparo na apreensão em sua voz.

Antes que as lágrimas rompam a barreira de suas pálpebras, envolvo-a em um abraço. Até esse momento, a princesa se manteve impassível. Todavia, com o desenrolar das horas, seu comportamento inquieto se agravou.

-Está certa sobre assistir a audiência? Isso pode lhe fazer mais mal do que bem. -Digo com cuidado para não intensificar ainda mais seu estado de espírito.

Como a chegada dos Elementais afetou a aldeia inteira, o Comando decidiu que seu julgamento seria aberto ao público. Mesmo com a objeção direta de Luke, Cecília decidiu que participaria do evento.

Secando seu rosto com o dorso das mãos, Cecília assente com vigor. A determinação em seu rosto é tão intensa que fico meramente preocupada.

-Preciso ensinar ao meu filho a lutar pelo que ele acredita ser o correto e a sempre proteger a sua família, Scarlett. -Ela declara, colocando uma mão sobre o ventre ainda plano.

"Filho", a palavra se choca contra minha mente e me deixa momentaneamente zonza. Meu olhar se alterna entre sua barriga e seu rosto em busca de uma possível brincadeira de péssimo gosto, mas não encontro nenhum indício de incerteza de sua parte. Assim como eu, Mirena parece estar completamente atônita.

-V-você está grávida? -Inquiro retoricamente. -Como isso aconteceu, Cecília?! -Ataco, segurando em seus ombros.

-Quer mesmo que eu lhe explique todo o processo até a concepção? -Cecília pergunta de forma espertinha, um sorriso de deboche se desenhando em seu rosto.

-VOU ACABAR COM A RAÇA DAQUELE MALDITO! -Brado, sentindo uma raiva pulsante por Luke.

Antes que eu consiga chegar à porta, Cecília me segura pelos pulsos com uma força inesperada. Seus olhos severos me censuram pela descompostura.

-Nós duas já sabíamos que essa era uma possibilidade, lembra-se? -Ela pergunta suavemente.

-Sim e também temos conhecimento dos riscos! -Declaro exasperada.

-Viver por si só é um risco, Scarlett. -Cecília fala com veemência.

Como se esse fosse um momento propício para filosofar!

Analisando sua expressão, compreendo que a princesa chegou a uma decisão antes mesmo de me contar que está grávida. Nada fará com que ela mude de opinião.

-Como você tem certeza dessa situação, Cecília? -Mirena indaga.

-Comecei a ficar enjoada no início dessa semana. Quando os vômitos começaram, procurei por Adela. Ela confirmou minhas suspeitas. -Cecília conta.

-Não está muito cedo para você ter esses sintomas? -Mirena contrapõe.

-Não para uma gestação lupina. -A princesa explica.

Dito isso, Cecília levanta sua blusa, apenas o suficiente para expor seu abdômen e ali, quase imperceptivelmente, há uma pequena elevação abaixo de seu umbigo. Em qualquer outra situação, eu diria que ela apenas comeu mais doces do que deveria.

-Qual o período de uma gravidez de um lupino, Mirena? -Inquiro, sem desviar os olhos do suposto bebê em desenvolvimento.

-Quatro meses e meio, enquanto a de um Elemental dura o dobro de tempo. -Mirena responde.

Respirando fundo, tento não mensurar o quanto esses cento e trinta e cinco dias de diferença farão mal ao corpo de Cecília. Por mais que aquele pequeno ser dentro dela tenha sido gerado a partir do amor, sua existência pode estar atrelada a danos irreparáveis.

-Já contou a ele? -Demando, minha voz saindo mais áspera do que o esperado.

-Não. -Cecília diz rápido demais, demonstrando que Luke pode ser um ponto fraco em sua convicção. -Esperarei completar um mês pelo menos. Adela me disse essas primeiras semanas são cruciais para o estabelecimento da gestação, por isso, quero ter certeza antes de revelar a Luke. -Ela esclarece.

-Sua preocupação é por ele ficar triste por conta de uma possível perda da gestação ou por que ele pode vir a lhe convencer a dar um fim a ela caso descubra agora? -Provoco, sem conseguir me conter.

O semblante de Cecília escurece imediatamente, como se uma tempestade estivesse prestes a desabar. Jamais havia visto tanta cólera anuviando seus olhos azuis.

-Você não tem o direito de contar a ele. Se fizer isso, tenha certeza de que nunca mais lhe dirigirei a palavra. -Cecília avisa, com o indicador próximo a minha face. -Vou proteger o meu filho custe o que custar. -Ela declara.

Sem outro aviso, a princesa sai do meu quarto intempestivamente. O silêncio que se segue é tão angustiante quanto a certeza de que posso perder minha melhor amiga. Encaro a porta com a sensação de impotência penetrando em minhas veias.

-Cecília está certa, essa decisão pertence a ela. -Mirena diz, placidamente. -Creio que Luke deveria tomar conhecimento sobre essa circunstância previamente, porém, não podemos interferir e acentuar ainda mais o problema. -Ela fala e toca em meu braço. -Ela precisará muito do seu apoio depois que a raiva passar. -Mirena acrescenta.

Não sei como lidar com essa conjuntura, ainda que as palavras de Mirena estejam carregadas de coerência. Respirando fundo, ignoro os sentimentos que disputam em meu peito para chegar à superfície e me retiro do quarto. Vagarosamente, caminho em direção ao próximo combate. 

Enquanto desço a escada que leva ao térreo da mansão, ocupo minha mente com a contagem dos degraus. Ao chegar no último, levanto minha cabeça e encontro o grupo de anciões próximos à entrada principal. Aparentemente, nem Magnus nem Rurik se juntaram a eles ainda.

Dirijo-lhes um aceno de cabeça e sigo até a saída. Meu pai havia me instruído que a audiência se daria ao ar livre para que quem desejasse pudesse acompanhar.

Assim que atinjo o solo do lado de fora, deparo-me com uma enorme tenda colocada no centro da aldeia, um pouco afastada da casa de Magnus. Um grande número de pessoas transita freneticamente por ali num burburinho constante. Alguns, quando me notam, diminuem o tom de voz.

Abaixo da tenda, há uma longa mesa retangular de aparência antiga e, atrás dela, oito cadeiras estofadas solitárias aguardam seus ocupantes. Há uma área em meia lua delimitada por uma fita branca presa por estacas de madeira fixadas no chão em frente à mesa, provavelmente reservada para os réus.

No restante do espaço sob o toldo, há bancos para os espectadores. A maioria deles já está ocupada e mais indivíduos se aglomeram ao redor da estrutura. Soldados lupinos circulam de um lado a outro para garantir a ordem durante a cerimônia.

Previsivelmente, Cecília ocupa um assento na primeira fileira. Ao seu lado, está Luke que, aparentemente, tenta acalmá-la colocando um braço protetoramente ao redor de seus braços. Mantenho-me a certa distância para não os atrapalhar.

-Vigiando o "feliz casal"? -Alguém pergunta atrás de mim, assustando-me.

-Você precisa parar com essa mania de aparecer sorrateiramente, Kayke! -Censuro-o, levando uma mão ao peito em uma vã tentativa de desacelerá-lo. -E não, não estou vigiando ninguém, apenas aguardando a chegada de Magnus. -Respondo a contragosto.

-Participará do Comando dessa vez? -Ele inquere com visível curiosidade ao varrer meu corpo com seus olhos inquisidores.

-Sim e quanto a você? Farejando por mais confusão? -Desdenho, não conseguindo conter meu instinto de provocá-lo.

-Não, estou em meu turno de ronda. Escalaram-me em mais dias graças ao ocorrido no hospital por sua causa. -Kayke acusa, ressentido.

-Minha causa? Você é impossível! Não foi eu quem ordenou para que sua mão socasse o rosto de John! -Afirmo impetuosamente. -Se alguém é culpado pelo ocorrido, é você, principalmente porque suas ações me impediram de visitar Suzi e auxiliar a Dário no tratamento dos demais feridos. -Contra-ataco com raiva.

-Oh! Perdoe-me se a impedi de ver seu amado príncipe! -Kayke dispara com uma falsa expressão de inocência.

Sinto meus ombros se curvarem pelo cansaço que essa discussão desperta. Surpreendentemente, não tenho energia para prosseguir com essa dinâmica de atritos estabelecida entre mim e Kayke.

-Não somos mais as crianças órfãs daquele quartel, Kayke. Por mais que eu deseje ter o poder de alterar o passado e jamais permitir que alguém convença você a se afastar de mim, abrindo mão da amizade que construímos, não posso remediar essas feridas. -Declaro com seriedade, surpreendendo-o com minha sinceridade. -Entretanto, a vida me ensinou a lutar pelo que considero ser o justo e não vou mudar minha postura por sua causa. -Informo e lhe dou as costas, não dando chance para sua réplica.

Endireitando a coluna, percorro o pequeno trajeto até a mesa do Comando de Canys, a qual agora está com somente um lugar vago: o meu. Acomodando-me ao lado esquerdo de Magnus, noto que todos, inclusive os acusados, já assumiram suas posições e sinto diversos pares de olhos grudados em mim. Um em especial faz meu estômago revirar, mas decido evitá-lo.

-Pronta para começarmos? -O líder lupino me pergunta.

-Sim. -Digo e percebo que, dessa vez, estou sendo realmente honesta comigo mesma.

Olá, pessoal! Em comemoração um pouco atrasada pelo meu aniversário, estou postando postando esse capítulo. Espero que gostem do presente! :)

Não tenho uma data para o próximo, mas tentarei postar o quanto antes! Não esqueçam e curtir e comentar! ;)

Um beijão. 

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