Capítulo 35
A visão de John com o rosto magro voltado para o chão me paralisa. Sua apatia explícita é inquietante de se observar, como se ele tivesse desistido de viver. Meu coração suplica por uma aproximação, ao passo que meu cérebro grita para que me afaste o mais rápido possível.
Entrem em um consenso, por favor!
Enquanto apenas continuo imóvel a alguns metros do príncipe, Cecília passa por mim como um tufão desgovernado e o envolve em seus braços. Seu vestido branco imaculado fica com manchas marrons da terra seca por onde é arrastado e seu corpo imediatamente convulsiona em um choro intenso.
Antes que eu consiga retomar o controle de minhas ações, John me encara. Seus olhos azuis são ao mesmo tempo familiares e torturantes. A expressão de surpresa e fascinação perpassando em sua face me quebra por dentro. Forcei-me a crer que jamais o veria novamente desde o maldito dia em que ele me traiu. Obriguei-me a retirá-lo dos meus pensamentos para conseguir sobreviver.
A presença de Cecília alvoroça os lupinos e um dele parece querer retirá-la de perto de John. Sem coordenar meus movimentos de forma consciente, impeço que o homem toque na princesa, pronunciando palavras de forma mecânica e sem pensar em seu significado antes de dizê-las.
-O que está acontecendo aqui? -Rurik questiona com irritação, ficando surpreso quando consegue contornar a multidão.
-Gostaria de saber o mesmo. -Respondo, encarando o jovem lupino que me fita com raiva.
Respirando fundo, forço-me a encarar a realidade. Soltando o pulso do garoto, volto-me para o grupo de prisioneiros, ignorando a presença de John propositadamente.
A situação que encontro é angustiante, todos estão prostrados de joelhos no chão. Ostentam olheiras marcadas, faces encovadas e pele seca e suja. A presença de alguns indivíduos ali me espanta e preciso manter meu olhar longe deles porque as lembranças estão tentando fugir de seu cárcere em minha mente.
Esse não é o momento para demonstrar fraqueza!
Uma das pessoas está caída no chão com os cabelos sobre o rosto. Ao me aproximar, reconheço-a, o que me leva ao desespero extremo.
-SUZI! -Grito, tomando-a em meus braços.
-Quando tempo mais você levará para explicar isso, Yakan? -Rurik rugi por entre os dentes para o homem mais velho no grupo dos lupinos.
-Senhor, encontramos esses invasores na clareira que se localiza perto do limite da floresta e... -Yakan começa.
-Está me dizendo que você prendeu e sequestrou pessoas que estavam fora da demarcação do nosso território? -O capitão interpela, seu corpo tremendo de raiva.
Yakan não consegue formular uma resposta, somente engole em seco. Rurik blasfema e coça a cabeça, demonstrando sua consternação.
-Rurik, deixe os relatórios para depois. Precisamos de Dário agora. -Intervenho, antes que Yakan receba um soco.
Minha voz parece despertá-lo do transe e ele ordena a Yakan buscar pelo médico, que prontamente obedece parecendo feliz por se afastar. Independente dos meus esforços, Suzi não recobra a consciência, permanecendo inerte e com a respiração fraca.
Cecília se move habilmente soltando os braços de todos os prisioneiros. Assim que alcança sua liberdade, a rainha envolve sua filha em um abraço e desmorona em lágrimas. Surpreendendo-me, Morgana se coloca de pé ao meu lado com um pequeno sorriso.
-Finalmente nos encontramos novamente, minha querida. -Ela diz. -Suzi ficará bem, não precisa se preocupar. Nossa jornada foi exaustiva demais para sua composição frágil. -Afirma tranquilamente.
Não tenho tempo para indagar sobre suas palavras porque Dário chega em seguida. Pegando Suzi de meus braços, ele tenta camuflar seu desgosto após notar que os demais indivíduos se tratam de Elementais.
-Por favor, acompanhem-me. -Ele pede, sem qualquer pergunta.
Morgana auxilia John a caminhar enquanto Cecília ampara Eleonor. Os companheiros de Dário ajudam, a contragosto explícito, a Félix e Katrina. A noiva do príncipe não deixa de me dispensar um olhar de raiva, apesar de não possuir forças nem para se locomover sozinha.
Então ele decidiu trazer até mesmo você?
Levantando-me, sigo-os junto a Rurik. Os raptores do grupo Elemental são dispensados até segunda ordem. A multidão, insatisfeita, dispersa-se.
O hospital da vila consiste em uma modesta construção de tijolos vermelhos simetricamente colocados, localizada um pouco afastado da mansão de Magnus. Em seu interior, há paredes brancas e pequenas salas com leitos separadas por finas divisórias de madeira compensada. Cada um dos feridos é acomodado em uma delas e Dário inicia os tratamentos.
Sentada em uma cadeira desconfortável, aguardo enquanto ele avalia Suzi que é conectada a aparelhos barulhentos. A espera é agonizante e me deixa inquieta.
-Ela está com um grau elevado de desidratação. Provavelmente desmaiou pelo cansaço, mas em breve recobrará os sentidos. Tomei todas as medidas para que isso aconteça o mais rápido possível. Por hora, recomendo repouso e um ambiente tranquilo para sua recuperação. -Dário fala sem olhar para mim.
-Obrigada! -Agradeço com sinceridade. -Sei que isso não é fácil para voc... -Começo.
-É o meu trabalho. -Dário me interrompe, dessa vez me fitando com intensidade.
Sem quaisquer outras palavras, ele parte para cuidar dos demais. Alojando-me em um pedacinho da cama de Suzi, seguro em uma das suas mãos da forma mais delicada possível para não atrapalhar seu descanso.
Seu rosto parece mais envelhecido e seu corpo diminuído. Desde que nos conhecemos, nunca classifiquei Suzi como frágil, rememorando a descrição que Morgana lhe deu, entretanto, ao olhá-la nesse instante, é somente nisso que consigo pensar.
-Como você entrou nessa confusão, dona Suzi? -Sussurro. -A culpa é minha, não é mesmo? Eu a abandonei naquele castelo sombrio. Usei essa aldeia para me esconder do que está acontecendo fora dessa floresta e você acabou sendo penalizada por conta da minha covardia. -Digo, sem conseguir refrear as lágrimas de despencarem por minhas bochechas.
Inesperadamente, braços me rodeiam. De bom grado, retribuo o abraço de Cecília e compartilhamos nossa dor em um choro silencioso. A princesa acaricia a face de Suzi afetuosamente e lhe dá um beijo na testa.
-Não há culpados nessa história, Scar. Quando amamos alguém, não medimos esforços para alcançá-lo. -Cecília afirma de forma significativa.
Compreendo que sua sentença não envolve apenas a Suzi. Todavia, a simples possibilidade de tocar nesse assunto em particular me dá náuseas e uma sensação de vertigem acentuada.
Não estou pronta para isso. Talvez nunca esteja!
-Teremos que adiar seu casamento. -Declaro, fugindo de seu olhar.
-Eu não me importo. Agora meu casamento com Luke não poderá ser menos do que perfeito. Todos os que importam estarão ao meu lado. -Ela responde e um sorriso se desenha em seu rosto.
Permanecemos um longo período em silêncio, somente escutando o som da respiração lenta de Suzi. Em dado momento, Cecília se retira e retorno à solidão com meus pensamentos novamente.
O hospital está iluminado parcamente e poucos enfermeiros estão presentes para o turno da madrugada. A falta de sono me leva a caminhar lentamente e sem rumo pelo local, passando pela frente de cada leito.
Ao me aproximar do de John, hesito levemente. A cortina colocada em sua entrada para conceder alguma privacidade está entreaberta e, na penumbra, consigo visualizar a silhueta de seu corpo.
-Scarlett. -Escuto-o sussurrar.
Sua voz faz com que eu fique petrificada no lugar. Por alguns instantes, espero que ele se levante e me confronte, porém, isso não acontece. Com passos precisos para não gerar som algum, aproximo-me de sua cama e vejo seus olhos fechados.
Ele está sonhando comigo e, além disso, chamando-me durante o sono?
Imprudentemente, estendo minha mão e toco sua face com as pontas dos dedos levemente para não correr o risco de acordá-lo. É como se John fosse um imã me atraindo, tornando impossível repeli-lo.
A textura de sua pele desperta um calor que passa da minha palma atingindo até o meu coração. A sensação de estar tão próxima dele é nostálgica e dolorosa e me odeio profundamente por ainda nutrir sentimentos por sua pessoa.
Admitir um problema é o primeiro passo da cura, não é mesmo?
Na noite em que adormeci ao lado de John, antes do sono suprimir minha consciência, observei seus traços por algumas horas, decorei cada marca de seu rosto. As memórias construídas ao seu lado foram, em muitos momentos, meu paraíso enquanto estava no castelo real e extinguir essa ligação confusa que nos une é uma tarefa complexa e extenuante que venho tentando concluir.
-Scarlett? -Escuto alguém atrás de mim me chamar.
Olha o capítulo da madrugada chegando!
Gostaram? Espero que sim! Não esqueçam de deixar aquela estrelinha cheirosa por aqui!
Não tenho uma previsão para o próximo capítulo. Porém, assim que possível, postarei mais!
Um beijo e um excelente começo de semana para vocês!
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