Capítulo 33

Algo em meu tom de voz urgente fez com que Magnus agisse sem muitos questionamentos, já que nesse exato instante estou sozinha em uma grande sala de reuniões de frente para uma mesa em meia lua com sete cadeiras vazias. Meu pai me avisou que provavelmente demoraria para juntar todo o grupo de anciões.

Minhas mãos suam e a respiração oscila. A coragem que serviu de combustível para minhas ações fraqueja pouco a pouco enquanto encaro as paredes brancas.

Não há mais a possibilidade de voltar atrás agora.

Mentalizo as razões que me levaram até ali, os motivos que pulsam em minhas veias e aquecem meu coração. Não é apenas a bravura me impedindo de fugir dali, é a necessidade, a angústia de perder pessoas que amo.

Magnus adentra a sala juntamente a Alicator, este carregando uma expressão de desagrado. O líder lupino se acomoda no assento central, enquanto o ancião se coloca a sua direita. Em alguns minutos, todos os integrantes do Comando de Canys preenchem seus lugares específicos.

Para minha surpresa, no último assento da extremidade direita está Rurik, uma máscara de calma tão familiar para mim encravada em sua face. Atrás dele, como se fosse um guarda-costas, está Kayke impassível. Sua presença na assembleia me deixa vagamente confusa.

-Scarlett, o Comando de Canys está pronto para lhe escutar. -Magnus declara.

Calafrios se espalham por meus braços e uma gota de suor escorre por minhas costas. Respirando fundo, tento reunir toda a força de vontade que me encaminhou até aquele cenário.

-Quero pedir a autorização para que Cecília e Luke se casem aqui no Bosque dos Álamos, sob a benção do sábio Calium. -Digo, erguendo o queixo para que nenhum deles possa desdenhar da minha solicitação.

Alguns anciões parecem não compreender minhas palavras, enquanto outros me fitam com fúria fazendo comentários de escárnio. Magnus somente baixa seus olhos e solta um suspiro baixinho.

Pelo visto, isso vai ser mais difícil do que o previsto.

-Você verdadeiramente acredita que pode nos induzir a autorizar uma união entre um lupino e uma Elemental? -Alicator questiona, quase sem conseguir conter sua raiva e desdém.

-Sim. -Respondo laconicamente.

Os murmúrios se espalham pela sala como fogo em palha seca. Os anciões batem na mesa e se levantam de suas cadeiras, como se estivessem ultrajados demais simplesmente com a minha existência.

-Com que autoridade você compeli nosso líder a convocar uma reunião e ainda nos insulta fazendo exigências despropositadas? -Um dos anciões exige.

Os outros homens bradam em concordância, exceto por Rurik e Magnus que tentam permanecer com uma expressão neutra. Enquanto isso, Kayke traja um olhar voltado a mim de puro assombro e descrença.

-JÁ CHEGA! -Meu pai grita depois de alguns minutos de balbúrdia desmedida. -Minha filha veio até nós com um pedido e, como qualquer um que se apresente a esse conselho, tem o direito de defendê-lo. -Ele esclarece.

O silêncio que se segue é quase palpável. É como se todos controlassem até mesmo a quantidade de ar inspirada para não correr o risco de gerar ruídos muito audíveis. Limpando minha garganta, tento compor frases coerentes ao mesmo tempo em que luto para controlar o desesperando correndo minhas veias.

-Cecília e Luke se amam. -Começo pausadamente. -Essa é uma verdade e não uma suposição. De acordo com a tradição lupina passada a mim por Rurik, todos os que não são descendentes dos membros do Comando de Canys podem escolher seus parceiros e... -Prossigo.

-Essa lei não contempla Elementais. -Alicator fala por entre os dentes cerrados, interrompendo-me.

-Deixa-a terminar. -Magnus ordena com impaciência.

-Sendo assim, eles podem fazer o que bem entendem. -Continuo, fuzilando Alicator com o máximo de zombaria possível. -Quero lhes fazer uma pergunta: sob quais leis devo reger minhas atitudes? Elementais? Mestiços? Lupinos? Fadas? -Indago subitamente. -Tive a criação de um mestiço, tenho a origem de um Elemental, possuo os dons de uma fada e posso me transformar em um lobo. -Declaro.

Dou uns segundos para que alguém me responda, dirigindo minha atenção alternadamente para cada um dos presentes. Como esperado, ninguém se pronuncia, potencializando minha autoconfiança.

-Sou um elo indesejável entre todas as raças existentes. Reúno todos os preconceitos enraizados no coração de cada ser que respira sobre essa terra. Vocês não conseguem indicar a quem minha lealdade deve ser destinada porque, em parte, desejam que eu suma de suas vidas com a mesma rapidez pela qual surgi e o único argumento para justificar tal anseio é vazio e revestido de intolerância. -Afirmo veemência. -Nossas diferenças não deveriam ser consideradas insultos. Da mesma forma que não escolhi minha origem, Luke e Cecília não optaram por se apaixonar. Esses são os laços que o destino traça para atingir algum objetivo. Essa união pode ser a oportunidade de criarmos uma conciliação entre todos os povos, desestruturar um ódio antigo e que não cabe mais neste tempo. Precisamos reunir as forças que possuímos para batalhar contra quem realmente aspira pela devastação desse mundo, o Reino Sombrio, e isso não inclui somente lupinos. -Proclamo, gesticulando em demasia. -Dessa forma, peço que autorizem o matrimônio entre uma Elemental e um lupino para mostrarmos que nosso povo almeja colaborar na busca da paz para essa terra agonizando em sangue e morte. Por favor, não repitam os erros do passado, os quais arrancaram pais de seus filhos e levaram à perda de grandes amores. -Encerro, olhando diretamente para Magnus.

Vários pares de olhos me observam enquanto regularizo a velocidade da minha respiração. Gradativo e demoradamente, meu pai assumi um semblante de deslumbramento e um sorriso se desenha em seu rosto.

-Quem vota a favor da requisição levantada nessa audiência levante a mão. -Magnus instrui.

Paulatinamente, mãos vão se erguendo a minha frente. Meu coração acelera quando chego a contagem de seis, incluindo meu pai e Rurik.

-Com seis votos a um, decidimos por acatar seu pedido, Scarlett. -O líder lupino delibera.

Meu corpo é tomado por um êxtase extremo e minha face um sorriso imenso. No entanto, Alicator se levanta em cólera desmedida e se retira da sala, sendo a sua a mão que permaneceu abaixada.

A sensação de ser ouvida é magnífica!

-Creio que você queira contar a novidade aos noivos? -Rurik indaga com um sorriso enviesado.

Gesticulando positivamente, parto dali sem precisar de qualquer outro incentivo para tanto. A voz de Rurik me acompanha até a saída e suas palavras atraem levemente a minha atenção.

-Uma das tropas de ronda ainda não retornou, Magnus. Creio que seja prudente iniciarmos uma averiguação da flores... -Ele diz.

O eco de sua fala se perde pelas paredes e foco no meu propósito. Correndo, alcanço o segundo andar da mansão e escancaro a porta do meu quarto.

-Consegui! -Comunico com um sorriso débil. 

Dois dias e meio se passaram desde que estive sob o escrutínio do Comando de Canys. O sol penetra pela janela enquanto escovo o cabelo comprido e escuro de Cecília em frente à penteadeira.

A partir do momento em que anunciei que seu noivado com Luke havia sido autorizado, a princesa entrou em um estado de encantamento tamanha a sua felicidade. Nas horas seguintes planejamos cada detalhe de seu casamento que ocorrerá nessa noite, levando em conta que não podemos esperar mais e correr o risco de uma mudança de opinião. A notícia se espalhou rapidamente por todo o vilarejo.

Magnus foi solícito em tudo e movimentou uma grande multidão para a organização do evento. Amigos antigos do pai de Luke aceitaram somar a esse grupo de bom grado e, agora, a aldeia inteira vibra com a expectativa de como tudo se sucederá. É incrível como um matrimônio pode atingir e alterar a postura das pessoas, até mesmo daqueles ferrenhamente atrelados aos seus preconceitos.

Adela e Mirena reformaram um longo e belo vestido branco para Cecília que repousa sobre minha cama a sua espera. A peça pertencera à Siena, o que intensifica ainda mais a emoção em meu peito.

-Por que está chorando, Scar? Você está bem? -Cecília pergunta, quebrando o silêncio confortável estabelecido entre nós.

-Estou. -Respondo, enxugando as lágrimas. -Você é como uma irmã mais nova para mim e lhe ver feliz me preenche de alegria. -Confesso, permitindo a exposição dos meus sentimentos.

Em um movimento rápido, Cecília me envolve em seus braços. As horas que passamos juntas foram regadas de gargalhadas e relatos dos sonhos que a princesa cultiva para seu futuro ao lado de Luke.

Ao contrário do que supus, o contentamento de ambos não me causa mais qualquer desconforto. Descobri que acompanhar o sucesso de alguém amado é tão prazeroso quanto o triunfo próprio.

-Se você chorar, também chorarei e meu rosto ficará inchado. Por um acaso já viu alguma noiva ficar bonita desse modo? -Cecília brinca.

-Creio que eu jamais tenha visto uma noiva. -Contraponho. -Entretanto, não há a menor possibilidade de Luke considerá-la menos do que perfeita, levando em conta que a paixão nos deixa bobos e nubla nossa visão. -Gracejo, recebendo um cutucão na barriga e a risada espalhafatosa de Cecília.

Juntas, rimos uma vez mais. A imagem de John, por conta do assunto "amor", tenta se insinuar por trás das barreiras construídas em minha mente para aprisionarem seu nome e as recordações relacionadas a ele. Por mais que eu lute, esse se tornou um episódio recorrente tendo em vista o enlace iminente.

Trançando as mechas de Cecília, empenho-me em deixar o passado para lidar em um momento mais propício. Entre os fios negros de seu cabelo, coloco pequenas flores brancas para contrastar, dando a impressão de que as diminutas pétalas brilham espontaneamente.

Quando Cecília coloca o vestido branco, nos posicionamos em frente ao espelho, analisando nosso reflexo. Sem dúvidas, não somos mais as mesmas garotas desde que nos conhecemos.

A princesa aperta suavemente minha mão e sorri. Abruptamente, uma ideia surge em minha cabeça e, sem esforço, meus pés se movem para executá-la.

-Vocês não possuem alianças, não é mesmo? -Pergunto, pegando meu colar.

-Não, mas isso não tem grande importância. -Cecília responde com sinceridade.

-Para mim tem. -Afirmo. -Tome, quero que use isso. Provavelmente a aliança não caberá no dedo anular de Luke, mas você sempre pode improvisar. -Falo, entregando o anel e a aliança que John me deu.

-Scarlett, não posso aceitar isso. Meu irmão deu para você! -Ela contrapõe.

-E eu estou dando a você. Se preferir, pode considerar um empréstimo até que vocês tenham suas próprias alianças. Além disso, esse anel pertenceu a sua bisavó materna, então você possui direito de usá-lo. -Argumento seriamente. -Essas duas argolas metálicas são símbolos de fatos que ocorreram em minha vida. Abrir mão delas, ainda que temporariamente, não me fará esquecê-los jamais. -Garanto, tanto para ela quanto para mim mesma.

Às vezes, a franqueza se torna um remédio para a alma calejada.

Emocionada, Cecília pega os dois objetos circulares e os comprime em sua palma, como se senti-los tornasse a realidade mais tangível. Sentindo-me leve, recolo o cordão ao redor do meu pescoço, lugar do qual nunca deveria ter sido retirado. Instantaneamente, uma sensação de segurança me completa.

-Agora vamos arrumar você! -Cecília exclama animada.

No entanto, uma comoção do lado de fora chama nossa atenção e, ao olharmos pela janela, encontramos uma multidão se formando no centro da aldeia. Não é possível escutar o que falam, mas a postura das pessoas parece hostil, disparando vários alertas em meu corpo.

-Acho melhor eu verificar aquilo antes. Espere por mim aqui. -Decido.

Com passos rápidos, saio da mansão e sigo em direção ao paredão de lupinos que impossibilita a vista da causa da desordem a se desenrolar ali. Contornando-os, consigo abrir caminho entre os indivíduos e me deparo com o motivo do tumulto.

Minha respiração falha e meu coração acelera de maneira desgovernada. Meus olhos não conseguem acreditar no que veem e piscam repetidamente tentando, em vão, despertarem para a realidade. Todavia, a alguns metros de distância, ajoelhado e com as mãos atadas, está John Arthur Benjamin Galiano Beryllos Pharus. 

Olá! Saindo mais um capítulo! Gostaram? 

Não tenho previsão para o próximo, então peço que tenham paciência. Assim que possível, postarei!

Um beijão!

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