Capítulo 31
Sabe quando o mundo parece desacelerar e você continua na velocidade certa? É assim que me sinto quando chego ao centro da aldeia e assisto, atônita, a cena a minha frente: Luke é contido por dois homens enquanto Cecília está a alguns metros de distância dele ajoelhada e com um pequeno círculo de jovens ao seu redor. Eles gritam palavras impróprias em seu rosto e empurram seu corpo.
A cada segundo, mais telespectadores se juntam para acompanhar. A princesa chora, sem demonstrar qualquer outra reação.
Meu corpo age antes que minha mente processe os acontecimentos. Rapidamente, coloco-me entre o grupo agressor e Cecília. Não preciso utilizar meus dons porque a raiva borbulhante me disponibiliza força suficiente para afastar a cada indivíduo que tenta tocar na princesa.
Socos e chutes bem colocados sem o intuito de gerar ferimentos graves, aos poucos, afastam a multidão que deposita em mim o foco de seus protestos. Alguns, ao me reconhecerem, dispersam-se instantaneamente. Luke consegue se libertar e pega Cecília em seus braços que, por sua vez, desmaia em seguida.
Imediatamente, levo-os em direção à casa de Magnus por não saber mais para onde ir. Assim que escancaro as portas, Adela corre até mim.
-Que bagunça é essa, menina? -Ela exclama.
-Preciso de um médico, agora! -Respondo, desesperada.
Adela não faz questionamentos, ao invés disso, parte me dando um gesto afirmativo. Guiando a Luke, levo Cecília até meu quarto e a posicionamos em minha cama. Seus braços apresentam machucados ensanguentados e seu rosto está pálido e com um corte acima da sobrancelha direita.
Luke começa a andar desordenadamente pelo espaço, perdendo o controle e arrancando alguns tufos de cabelo. Coloco em suas mãos compressas molhadas e foco seu olhar em mim para que nenhum de nós enlouqueça.
-Limpe os machucados dela. Não podemos deixar que infeccione. -Ordeno.
Mecanicamente, Luke faz o que peço sem muita perícia. Porém, em dado momento, seus dedos começam a tremer e lágrimas grossas marcam sua face.
Segurando em seus antebraços, levanto-o e o levo até a porta que é aberta por Adela, sobressaltando-me. Um homem alto e barbudo a acompanha com uma expressão indecifrável.
-Tire-o daqui, por favor. -Peço a Adela.
-Pode deixar. -Ela diz segurando em uma das mãos de Luke. -Esse é Dário, o médico da aldeia. Ele cuidará de Cecília. -Adela apresenta.
Assim que Dário cruza a entrada, fecho-a novamente acionando a tranca na maçaneta para que nenhum penetra atrapalhe seu serviço. Ele não me despensa uma palavra sequer, seguindo até Cecília e a examinando cuidadosamente com objetos que não reconheço. Angustiada, pairo em torno deles até receber alguma informação.
-Ela ficará bem. -Dário diz depois de um tempo longo demais. -Provavelmente, desmaiou por uma queda de pressão. -Ele explica, sua voz grave preenchendo o cômodo.
Respirando fundo, permito que o alívio dessa notícia acalme meu interior. Cecília permanece inconsciente, mas a cor já retornou a sua pele.
-Fico feliz em saber. Muito obrigada por cuidar dela. -Falo com sinceridade.
-Esse é o meu dever. -Ele declara. -Mas tenho um aviso a lhe dar, sua atitude não será recebida com bons olhos pela alcateia. As pessoas estavam agitadas quando cheguei aqui. -Dário diz, concentrado nos curativos de Cecília.
-E você acha perdoável o que eles fizeram a ela sem motivo algum? -Questiono com impaciência.
-O povo lupino foi talhado por leis e uma cultura rígida que você desconhece. Por muitos anos, fomos utilizados como animais de estimação das fadas. Arrisco-me a dizer que, naquela época, fomos o que mestiços são para Elementais atualmente. -Dário começa. -As fadas tentaram estender esse benefício aos primeiros Elementais que surgiram, mas não admitimos tamanha humilhação e a maior parte da população desertou para essa região e construiu o Bosque dos Álamos. Sem alternativa por todo o sangue e morte que se seguiu, as fadas decidiram que não interfeririam mais em nosso estilo de vida. -Ele pausa, encarando-me pela primeira. -Você sabe o que um lupino odeia mais do que uma fada? Um Elemental, a espécie mais prepotente a pisar nessa terra, que julga ter o direito de dominar a tudo e a todos. -Dário afirma, com um rancor intenso brilhando em seus olhos. -Se você não conhece a história, não julgue as atitudes dos outros. -Ele termina, levantando-se e se colocando em minha frente.
Suas palavras se chocam contra meu coração e me fazem repensar minhas ações. Minha ignorância sobre fatos passados não é por escolha, mas sim por privação de uma vida que foi roubada de mim.
-Posso não conhecer a história lupina, porém, ninguém deveria ser perverso o suficiente de machucar uma mulher indefesa. Cecília não fez nada àquelas pessoas. Ela nem mesmo revidou aos golpes que recebeu. -Declaro com veemência.
-Ela se deitou com um lupino e isso é considerado um motivo para eles. -Dário revela calmamente.
-O que foi que você disse? -Inquiro abismada.
-Lupinos são monogâmicos por natureza e a traição não é uma opção, assim como seus ancestrais. Por isso, toda vez que um lupino mantém relações íntimas com outra pessoa, independente da espécie, um feromônio exclusivo é ativado e ambos carregam o esse cheiro pelo resto da vida para identificá-los como um casal. -Dário esclarece. -Sua amiga e Luke estão nessa situação. Apenas o olfato apurado da nossa espécie é capaz de diferenciar esse odor, por isso aqueles lupinos agiram dessa maneira, ainda que isso não justifique a violência. Você começou sua transformação a pouco tempo, sendo assim, ainda não consegue distinguir plenamente os aromas. -Dário conta.
Isso é loucura demais!
Chocada com tantas novidades, sento-me aos pés de Cecília e miro o chão. Minha cabeça gira com tantos "e se" que poderiam ter acontecido se minha relação com John tivesse seguido outro rumo no dia em que ele me pediu em casamento.
Um problema a menos, não é mesmo? Ou será um arrependimento a ser contabilizado?
-Há mais um agravante nessa condição. -Dário diz, captando minha atenção. -Se ela engravidar, provavelmente não sobreviverá ao parto porque seu corpo não é adaptado para receber um feto lupino. -Ele revela com certo pesar em seu olhar.
Engolindo em seco, não consigo encontrar uma resposta plausível para dar a Dário. Minha mente está nublada e confusa, sem saber como administrar tantas reviravoltas.
De repente, escuto socos e pontapés serem desferidos contra a porta. Em sequência, Luke berra meu nome em desespero.
-Creio que meus serviços aqui estejam acabados. Deixei um analgésico em sua cômoda, para o caso da moça sentir dor. Os curativos precisam ser trocados uma vez ao dia. Se precisar de mim, peça a Adela para me chamar. -Dário fala. -Se me permite um último conselho, não se volte contra seu povo. De uma maneira torta, aqueles lupinos estavam tentando proteger a Luke e, provavelmente, agiram por impulso assim como você, principalmente por serem imaturos e inconsequentes, impregnados pelos preconceitos de seus progenitores. Contudo, todos nós depositamos nossa esperança na família Protego e você faz parte dela. -Ele diz com um pequeno e simpático sorriso.
Consigo somente gesticular afirmativamente. Destrancando a porta, dou passagem a Dário e, para minha surpresa, encontro Adela, Magnus, Kayke, Rurik e Mirena tentando controlar a Luke.
-Preciso vê-la. -Luke suplica.
-Soltem-no. -Peço. -Faça silêncio, ela precisa descansar. -Instruo, permitindo sua passagem.
Luke senta no chão ao lado da cama e acaricia uma das mãos de Cecília. Ele parece mais equilibrado, entretanto, nunca presenciei um episódio em que seus sentimentos ficassem tão expostos.
-Pensei que ia perder você como perdi minha família, Ceci. -Ele sussurra.
-Você não vai se livrar de mim tão facilmente, Velocitas. Sou mais durona do que parece. -Cecília responde em um tom de voz quase inaudível.
Luke a abraça em êxtase e distribui beijos em seu rosto. Observando os dois, minhas bochechas ficam úmidas e, sentindo-me uma intrusa, decido deixá-los sozinhos em sua privacidade.
Vários pares de olhos me encaram de forma sugestiva assim que piso no corredor. Apesar de parecer preocupado, há um pouco de decepção entranhada na expressão de Magnus.
-Precisamos conversar, Scarlett. -Meu pai diz seriamente.
-Eu sei. -Declaro, aceitando as consequências dos meus atos.
E tá aí mais um capítulo para alegrar essa tarde de terça-feira!
Gostaram? Ficou um pouquinho mais curto, mas espero que gostem.
Tentarei postar mais um essa semana ainda! Um beijão.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top